Capítulo Setenta

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Dona Eleonor e Ross separaram Alex e eu assim que nos viram na cozinha pela manhã. Faltou pouco nos exorcistar por estarmos nos vendo no dia de nosso casamento. Até mesmo Amelia e John tiveram um mini surto.

— Mas nós dormimos juntas. É óbvio que já nos vimos — Alex tinha argumentado.

— Pois não deviam ter feito isso. Não sabe que dá azar? — Leo pestanejou.

Não dava para discutir com eles. Por fim, Amelia me levou para o quarto dela e de Cindy, onde eu supostamente deveria ficar até dar a hora da cerimônia.

Mal tinha pregado os olhos, tamanha ansiedade. Depois de tanto rolar na cama, resolvi levantar quando escutei o pessoal — Dona Eleonor, provavelmente — abrir a porta dos fundos para ir tirar leite das vacas. Fui ao banheiro e, quando voltei, dei de cara com meu irmão no quarto.

Não havia muito mais o que fazer, embora ainda faltassem muitas coisas. Uma contradição estranha. Tínhamos arrumado o altar, espalhado as cadeiras, arrumado as mesas. Agora, tínhamos que esperar a florista e os decoradores chegarem para terminar a decoração. Alex podia brigar comigo, mas nós duas sabíamos que era impossível nós mesmas organizarmos tudo. Concordamos, por fim, com um meio termo. Nenhuma de nós queríamos a família sobrecarregada e atolada de coisas hoje, então contratamos eles para que todos nós pudéssemos desfrutar dos maquiadores, manicures, cabeleireiros, estilistas e cozinheiros sem preocupações.

Morgan, a manicure, tinha saído não havia nem dois minutos quando bateram na porta. Desviei os olhos do celular e vi Nick na porta.

— Atrapalho?

Sorri.

— Claro que não! Venha aqui. — Fiz o resto de "vem aqui" com a mão.

Nick Stone entrou e tinha trazido consigo uma bandeja. Pelo pijama que estava vestindo, não fazia muito tempo que tinha acordado.

— O Chef ia trazer essas comidinhas para você e Alex, então me ofereci. — Colocou a bandeja na cama, perto de mim. — Os canapés estão deliciosos.

— Adoro os de peito de peru! Obrigada, Nick. — Mesmo agradecendo, percebi que ele não tinha falado tudo o que queria, mas também estava sem jeito. — O que foi? Pode falar. — Dei um empurrãozinho.

— Ah... — coçou a nuca, sem jeito. — É que eu quero fazer uma pergunta, mas estou com vergonha.

— Não precisa ter vergonha de mim. Pode perguntar o que quiser!

— Bom... Tá legal, eu acho. — Sentou-se na cama de Cindy e respirou fundo. — É que... Como você descobriu que gostava de meninas e não de meninos? Você e Alex vão se casar e são tão felizes juntas. O meu pai me contou que vocês dois foram noivos, mas não gostavam desse jeito um do outro. Quer dizer, como é que a gente sabe?

Meu primeiro instinto foi sorrir. Percebi o quanto que gostaria que meus pais tivessem tido conversas assim comigo, me mostrassem que estava tudo bem, mas isso nunca aconteceu.

— Não tem uma fórmula certa, Nick. Você vai percebendo aos poucos. Seu corpo e seu cérebro vão dando sinais. Vamos nos conhecendo e nos entendo melhor.

— Demora muito?

— Às vezes — concordei. — Depende de cada pessoa e do ambiente que ela vive. Às vezes temos medo, porque não é assim que a maioria das pessoas acha certo.

Ele balançou a cabeça, concordando.

— Como você descobriu?

— Bom, eu sempre escutava minhas amigas de escola conversando sobre os meninos, como elas adoravam estar perto deles e o quanto se sentiam atraídas... Me dei conta de que nunca tinha sentido isso por nenhum menino. Mas eu ficava com um frio na barriga toda vez que eu chegava perto de uma menina em especial. O quanto eu gostava de estar perto dela.

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