Capítulo Sessenta e Um

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Eu não conseguia levantar

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Eu não conseguia levantar. Desde o dia que encontrara Adeline naquele estacionamento, me sentia como uma criança acuada, que sabia que estava prestes a levar um tapa sem necessidade. Uma espécie de lembrança, de sensação, que não sabia que era capaz de me lembrar ou sentir.

Tinha a consciência de Sam vindo até mim, me trazendo comida e água, mas era como se se eu estivesse num transe e não conseguisse sair. Não entendia o porquê de estar daquele jeito, por causa de um maldito olhar — e não queria estar —, mas minha cabeça e meu coração ajudavam. Ficava pensando em como seria se minha mãe não tivesse me abandonado, como estaríamos, se Ethan ainda estaria aqui. Um efeito borboleta sem fim.

Não esperava que a Samantha fosse ligar para minha avó, incomodar ela lá no fim do mundo, mas, parando para pensar, fiquei feliz que ela fez. Minha avó pode ser doce e fofa com um bolo recém saído do forno, mas também sabe ser enérgica e mandona, afinal, eu tinha que puxar isso de alguém.

— Samantha me tirou lá da fazenda para vir ver o motivo de você ter virado uma estátua. Não come, não bebe, não levanta... Está querendo uma anemia, infecção urinária ou alguma coisa do tipo? — escutei ela brigar enquanto ia até a janela e abria as cortinas.

Fiquei tentada a cobrir o rosto, mas sabia que a próxima coisa que ela faria seria puxar as cobertas. D. Eleonor colocou alguma coisa na mesinha de cabeceira e sentou-se ao meu lado, mas eu estava de costas. Colocou a mão na minha testa e respirou fundo.

— Estamos preocupados com você. Sam me contou sobre o assalto... Sinto muito que isso tenha acontecido, mas não é a pior coisa pela qual você passou.

Suspirei. Juntei toda minha força de vontade — que estava bastante escassa, na verdade — e me virei para ela. Acho que ela percebeu que meus olhos estavam vermelhos, de tanto chorar, e cheio de olheiras, porque as sobrancelhas dela se levantaram. A boca também deveria estar toda trincada e esperava que meus rins não se revoltassem comigo mais tarde.

— Você não precisava vir — disse. Minha voz saiu rouca demais.

— Não? Olhe para você, minha filha. Olhe para o estado que você está.

Suspirei, um pouco impaciente.

— Vó... — Comecei a falar, mas ela interrompeu.

— Não vou deixar você se afundar na própria piedade. Você não é assim. — me encarou, séria, como se fosse me dar uma bronca. Tentei sentar, mas sentia meu corpo pesado demais. — O que aconteceu naquela noite? O homem tentou, você sabe, fazer alguma coisa com você?

Olhei para ela por um momento. Samantha não tinha contado a ela? Sabia que Sam era discreta e que não ia fazer nada que eu não quisesse. 

— Homem? — Hesitei. Talvez fosse melhor que ela pensasasse assim, mas, por outro lado, eu precisava de respostas. — Vó, o que Pingo falou com a senhora? Digo, exatamente.

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