Odeio a cor dessas paredes.
Odeio a cor dos lençóis.
Odeio o cheiro desta casa.
Odeio a voz irritante de Samira reclamando que os fotógrafos foram embora.
Odeio tudo.
Quero voltar para a casa de Zac.
Meu coração dói por ter ido embora sem me despedir dele. Mas dói muito mais ao imaginar uma cena de despedida.
Deixar um bilhete na porta da geladeira agradecendo por tudo o que ele fez por mim foi covardia.
Não sei lidar com despedidas. Toda vez que encerrei algum ciclo, foi saindo de fininho. Mas não é só isso.
O fato é que eu não tinha estrutura para me despedir de Zac sem cair no choro, pois, assim que o dia amanheceu, eu tinha certeza de apenas uma coisa:
Eu gosto de Zac e não é apenas como amigo.
Se ele me visse chorando, perceberia na hora o quanto estou emocionalmente ligada a ele. E não dava para deixá-lo desconfortável novamente, como fiz ontem à noite quando falei coisas que davam a entender algo a mais entre nós.
Se eu confundi nossa proximidade e acabei me envolvendo romanticamente, é um problema meu e vou ter que lidar da melhor forma possível, como uma adulta.
Zac não precisa saber disso. E para que ele iria querer saber?
Não é como se ele fosse corresponder só porque ficou sabendo como me sinto, pois ele claramente não sente nada romântico por mim.
E é por isso que eu tive que sair o mais rápido possível. Precisava proteger meu coração.
Antes de colocar meu bilhete na porta da geladeira, vi o dele avisando que ia ficar hospedado em um hotel em uma cidade vizinha por causa de "patrocinadores bobocas" e que não tinha certeza sobre seu horário de retorno, mas que com certeza chegaria a tempo de me encontrar acordada.
Naquele momento, usei toda a minha força para não deixar as lágrimas caírem, meus olhos ardiam impiedosamente.
Passei o dia ocupando minha mente com atividades como uma faxina pesada no meu quarto, uma vã tentativa de fugir de pensar em Zac.
Agora são sete da noite e estou aqui deitada na minha cama de solteiro, rolando o feed de notícias no Facebook, que já não exibe memes meus.
De repente, uma mensagem de voz no WhatsApp me faz sentar na cama depressa.
É Zac.
Fico tensa. Com medo. Talvez eu devesse esconder o celular embaixo de travesseiro e fingir que não tenho um.
Um áudio de 30 segundos? Deve ser um monte de xingamento e esculacho. Ele me odeia. Me acha uma ingrata.
Alguns minutos de relutância depois, mesmo com os dedos trêmulos, tomo coragem e abro o áudio:
"Becky, o lugar que eu quero te levar, vamos hoje, tá bem? Desculpe não ter avisado antes, tive compromissos o dia todo. Tá uma loucura. Me enfiaram em uma sessão de fotos com uma marca patrocinadora, esses patifes! Olha, vou chegar muito em cima da hora que marquei com a galera no Insulfilm, então vou chegar pronto para sair. Pode esperar na frente do prédio umas nove horas? Droga, lá vem o cretino do produtor querendo passar maquiagem na minha cara. Preciso me esconder. Até mais tarde, Becky"
Fico de pé em um salto. Preciso estar lá esperando por ele.
Corro para o quarto de Samira e bato à porta, mas não espero ela atender.
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Jogada de Craque
RomanceAs probabilidades se enganaram ao afirmar que as chances de Zac Dilan - o grande camisa dez do Cruzeiro - chutar a bola na direção da arquibancada e acertar em cheio a cabeça de Rebeca - a odiadora número um do esporte - eram zero. Rebeca preza por...
