Estamos deitados no tapete macio no terraço, com um cobertor sobre nós enquanto o vento fresco da noite acaricia nossos rostos.
Não há lua no céu. As estrelas brilham como pequenos faróis, iluminando um momento de tranquilidade. O braço de Zac está em volta de mim, firme e protetor, e eu aninhada no calor do seu corpo, sentindo o conforto da sua presença que é como um porto seguro.
O silêncio entre nós é sereno, quase sagrado, e carrega mais significado do que qualquer conversa que já tivemos.
Olhando para o céu, deixo meus pensamentos vagarem. Penso nos últimos onze meses, em tudo o que vivemos até aqui. A rotina que partilhamos, as dificuldades que superamos, e o futuro que parece tão concreto e promissor.
Me pergunto no que Zac está pensando neste momento.
Talvez o pensamento dele esteja em suas crianças, que na próxima semana vão participar de uma competição importante.
A ONG agora também é um pedacinho da minha vida. Começou no dia que ele me levou para uma nova sessão de tiro ao alvo a pedido das crianças. Para minha surpresa, elas já estavam pedindo isso há algum tempo.
A partir daquele dia comecei a fazer parte do quadro de professores. A modalidade de arco e flecha foi um sucesso. Ver a alegria nos olhos das crianças, concentradas, treinando a mira e a coordenação, me traz uma satisfação indescritível. As flechas de ventosa, feitas de borracha, são seguras, mas não diminuem a empolgação. É como se cada disparo fosse um pequeno passo em direção a algo maior.
Zac tem um sonho: levar suas crianças para competir nas Olimpíadas. Conhecendo sua determinação, não tenho a menor dúvida de que isso vai acontecer um dia.
Tenho sorte de ter ao meu lado um homem tão dedicado em tudo o que se propõe a fazer.
E ele se propôs a ser o melhor companheiro do mundo para mim. Tenho certeza de que será um marido incrível.
O jantar de noivado foi um marco. O ambiente, no início, estava carregado de tensão, dadas as relações anteriores entre minha mãe, meu pai e a esposa dele — agravado pelo fato de Pérola ter contado uma mentira que os fez se divorciarem.
Meus pais, embora educados, trocavam olhares cautelosos. Pérola estava acuada, como se tentasse medir o que deveria falar. A atmosfera era densa.
Mas Rick, como um irmão mais novo cheio de gracinhas, fez um brinde engraçado que quebrou o gelo. Todo mundo riu, até meu pai que é todo sério.
A partir daí, a noite fluiu de forma mais leve. O jantar terminou com um brinde sincero do meu pai e a sensação de que nossas famílias, apesar do histórico e da confusão de papéis, estão agora entrelaçadas.
Felizmente, meu pai e Pérola superaram a crise provocada pela descoberta da paternidade de Zac. Pérola me trata como filha, algo natural, considerando que sou não apenas sua nora, mas também enteada.
Quanto à minha vida com Zac, há nuances que aprendi a considerar.
Sempre fui a favor da igualdade em um relacionamento, como dividir as despesas, mas preciso ser realista. Zac é jogador profissional em um time de elite, ele ganha muito mais do que eu, uma simples funcionária começando por baixo na Prisma.
Por isso me permito ser bancada por ele nas nossas viagens à Espanha. Afinal, ele viaja pelo menos duas vezes por mês, e eu vou junto.
Nessas viagens, sempre escapulimos pela Europa em um destino diferente — Itália, França, Alemanha. Às vezes até para outros continentes. Tia Laís ficaria orgulhosa de ver como as páginas do passaporte que ela me deu estão ficando lotadas.
Como meu dinheiro não serve para nada, já que Zac se acha o provedor e não me deixa pagar nem uma simples conta de energia — que não é simples coisa nenhuma — meu dinheiro sobra.
Isso me permite poupar para começar o projeto que sempre quis: fundar uma instituição para acolher animais de rua.
Um dia, juntos, Zac e eu vamos salvar o mundo. Mas por agora estamos focados nos preparativos do casamento.
Nos casaremos só daqui a um mês, mas Zac já me trata como sua esposa.
Até nossas birrinhas de casal são adoráveis quando ele pacientemente diz:
— Querida, sei que seu lindo cabelo merece ser exibido, mas precisa mesmo enfeitar a pia do banheiro deixando fios por toda parte?
Ou quando eu digo:
— Querido, sei que você é um grande atleta e merece todo prestígio do mundo, mas será que seus tênis de corrida precisam ficar espalhados pela casa?
— Querida, eu sei que você adora trazer seus livros para a nossa cama, e eu adoro tirar sua concentração enquanto está lendo eles, mas você poderia parar de enfiá-los embaixo dos travesseiros?
— Querido, sei que você adora que eu fique sem calcinha, mas você pode parar de emperrar a minha gaveta para me impedir de pegá-las?
— Querida, eu amo te ver usando minhas camisas, sério, você fica muito sensual. Mas seria pedir muito você deixar algumas para eu usar também?
Dizer "querido(a)" antes de uma queixa deixa a coisa mais leve e até divertida, e eu amo que ele tenha inventado isso.
É bem raro que algum desses impasses tenham um tom mais sério. E mesmo assim, qualquer desentendimento a gente resolve sentando para conversar. E depois termina no ringue — mais conhecido como cama.
A verdade é que Zac é o melhor colega de apartamento que eu já tive.
Samira era boa colega de apartamento também, mas aposto que ela gosta mais de dividir com seu namorado espanhol.
— Lembra da primeira vez que nos falamos? — Zac pergunta, interrompendo meus pensamentos. Sua voz é suave como a brisa.
— Quando você invadiu a arquibancada feito um herói para ajudar uma moribunda caída no chão?
— A segunda vez, então — ele corrige, sorrindo.
— Quando você fingiu que não era a pessoa de quem eu falava mal para rir da minha cara?
Ele dá um sorrisinho culpado.
— Eu te disse, não foi de propósito. É que é bom ouvir uma opinião sincera de vez em quando.
— Minha opinião naquela hora não foi sincera. Eu estava com raiva do tal Zac Dilan que tinha arrebentado a minha cabeça e deixado uma marca roxa — falo em tom brincalhão.
Zac passa o polegar suavemente no local onde um dia foi a marca, como se quisesse curar qualquer vestígio.
— Sinto muito por isso, Becky. Eu sinto mesmo — os olhos dele se enchem de culpa.
Repouso minha mão sobre a sua.
— Por favor, não sinta — digo suavemente. — Se você não tivesse me boleado naquele dia, hoje não estaríamos aqui, vivendo o melhor momento da nossa vida.
— Sabe o que eu acho? — ele me puxa mais para perto, com os olhos brilhando de afeto. — Acho que o melhor ainda está por vir.
— Também acho — sorrio apaixonadamente. — E tudo isso graças ao chute certeiro de Zac Dilan.
Ele meneia a cabeça.
— Não foi nada certeiro. Eu chutei para a arquibancada, lembra?
— E acertou em quem? — tento convencê-lo do mais importante nisso: nosso ponto de origem.
— No amor da minha vida — ele suspira, ainda culpado.
Me ajeito para nivelar nossos olhos e toco os cabelos dele gentilmente.
— Sei que você se sente mal por ter me boleado, Zac, mas precisa admitir uma coisa sobre ter chutado a bola justo na minha direção — digo enigmaticamente.
— O quê? — ele questiona, intrigado.
Encosto o rosto bem pertinho do dele para olhar fundo em seus olhos de café e declaro:
— Aquela foi uma verdadeira jogada de craque.
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Jogada de Craque
RomanceAs probabilidades se enganaram ao afirmar que as chances de Zac Dilan - o grande camisa dez do Cruzeiro - chutar a bola na direção da arquibancada e acertar em cheio a cabeça de Rebeca - a odiadora número um do esporte - eram zero. Rebeca preza por...
