— O que é, o que é...
— De novo não — Fabinho reclama, apontando dois dedos na têmpora como se fosse uma arma.
— Só mais uma — Vinícius pede com a voz arrastada pela bebida.
— Pode mandar, eu vou acertar dessa vez — digo sem tirar da boca o canudo da minha caipirinha.
Embora Vinícius tenha colocado pouco álcool na caipirinha que preparou para mim, e mesmo que eu tenha bebido bem devagar, já me sinto levemente tonta e com o riso frouxo.
A tal 'resenha no terraço' mudou de localização para a beira da janela panorâmica por motivo de força maior: chuva torrencial.
Depois da minha discussão com Ricardo, peguei no sono e acordei com o som persistente da campainha. Fabinho e Vinícius estavam ali, na maior cara de felicidade.
Deixei-os sozinhos enquanto fui tomar banho. Eu estava nervosa pela possível interação com Zac e fiquei muito tempo embaixo da água morna, uma vã tentativa de aliviar a tensão.
Quando reapareci, a chuva caía com força, mas os meninos não estavam menos animados. O samba-pagode tocava em volume agradável no sistema de som integrado à televisão e eles tinham mexido na disposição dos móveis. Levaram o sofá menor para a beira da janela e reposicionaram as poltronas, de forma a fazer uma espécie de reunião em volta da mesinha de vidro com vários tipos de petiscos e um balde de gelo cheio de cerveja.
Primeiro tive um mine ataque de pânico ao imaginar Zac chegando e pensando que eu planejei tudo isso. Mas logo percebi que não é justo eu ficar pisando em ovos quando ele claramente está indiferente a mim.
Quando Vinícius colocou a caipirinha na minha mão, eu não pretendia beber.
Mas ver que, apesar do temporal impiedoso ter inundado os planos dos meninos, eles se adaptaram, continuaram sorridentes bebendo cerveja e cantando pagode como se nada pudesse abalá-los, me encorajou.
Uma tempestade bagunçou a minha vida. Em menos de um mês, fiquei sem teto, perdi um namorado incrível, descobri coisas que me fizeram perder minha própria identidade, e a única pessoa que continua sendo o que é desde sempre, é Samira, e ela está em outro continente.
Portanto, se alguém aqui tem o direito e beber, esse alguém sou eu.
Por isso abracei esse pequeno momento de descontração com os meninos. Ouvir as piadas ruins de Vinícius, assistindo Fabinho sofrer com letras de músicas que lembram sua namorada, é o momento mais leve que tive desde que Henrique foi embora.
Henrique e eu trocamos mensagens, mas não contei nada do que está acontecendo para não preocupá-lo. Posso não aceitar Ricardo como pai, nem Zac como irmão, mas não consigo rejeitar ser irmã de Henrique. Já sinto saudades dele.
De volta ao presente, Vinícius está sentado ao meu lado no sofá, enquanto Fabinho está no chão, de frente para a janela. Com um olhar concentrado de bêbado, ele desenha corações tortos no vidro embaçado e escreve a letra 'A' dentro de cada um.
Já enviei uma foto disso para Alessandra.
— O que é, o que é — Vinícius continua, abrindo um sorriso misterioso. — Tem asa, mas não voa, tem bico, mas não bica, e se coloca embaixo da cama?
— Tá na cara que é um penico — Fabinho adivinha encostando a testa na janela.
— Errou.
— O que é, então? — pergunto intrigada.
— Bule — Vinícius responde enigmaticamente.
— Ei, bule não se coloca embaixo da cama! — protesto.
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Jogada de Craque
RomansaAs probabilidades se enganaram ao afirmar que as chances de Zac Dilan - o grande camisa dez do Cruzeiro - chutar a bola na direção da arquibancada e acertar em cheio a cabeça de Rebeca - a odiadora número um do esporte - eram zero. Rebeca preza por...
