46° Passe

12.2K 994 719
                                        

Passar a noite em claro, lutando contra as lágrimas enquanto revivia cada segundo do que havia acontecido, me fez amanhecer com um dor de cabeça insuportável. Mas, paradoxalmente, isso me trouxe clareza.

É curioso como a perspectiva de alguém muda depois de quase cruzar a linha intransponível de ir para a cama com o próprio irmão.

A culpa ainda me corrói, mas ao menos agora sei que foi a última vez. Fui embora da casa dele.

Afinal, ele também vai embora.

Não houve despedidas. Simplesmente juntei minhas coisas e parti enquanto ele não estava.

Ainda tenho duas semanas de férias antes de as aulas oficialmente começarem e as usarei para colocar a cabeça em ordem. Isso inclui acertar as coisas com uma pessoa que errou feio comigo, mas também foi aquela que impediu que eu fosse abortada, me pegou nos braços e dedicou sua vida a mim.

Se não fosse pelo sacrifício dela, pela abnegação de seus próprios sonhos, eu jamais teria a chance de correr atrás dos meus. E é por isso que agora estou aqui, diante da casa de cercado branco.

A porta se abre, e lá está ela.

Seus olhos brilham como se o peso de anos tivesse sido retirado. Seus lábios curvam-se em um sorriso que eu não via há muito tempo. E então, sem hesitar, ela corre em minha direção, e eu faço o mesmo.

Nos encontramos no meio do caminho num abraço apertado de reconciliação.

— Oi, filhinha — ela sussurra, a voz embargada, alisando meu cabelo como seu eu ainda fosse sua garotinha.

— Oi, mãezinha — respondo com a voz trêmula, sentindo o conforto familiar do cheiro de lavanda em sua blusa.

Fecho os olhos por um instante, inalando profundamente o perfume de alguém que sempre me trouxe segurança.

Esse foi o primeiro passo para colocar minha vida de volta aos eixos.

⚽︎

Minha mãe preparou todos os meus pratos favoritos e, como sempre, me fez comer mais do que eu aguentava. Ela parecia determinada a me alimentar como se comida pudesse curar todas as minhas feridas.

Durante o almoço, conversamos sobre o início do semestre e onde irei morar. Eu sempre fiz o possível para não aceitar o dinheiro dela por não querer lhe dar despesas. Mas agora não tenho muita opção, então acabei concordando quando ela insistiu que poderia usar seu fundo de emergência para pagar alguns meses de aluguel para mim até eu me restabelecer.

O assunto que eu estava evitando, entretanto, surgiu. No meio de uma pausa, minha mãe disse suavemente:

— Você tem todo o direito de decidir se quer ou não ter Ricardo na sua vida. Mas ele nunca teve a chance de te mostrar que pode ser um bom pai. Ele foi privado de saber sobre você e perdeu vinte anos da sua vida. Ele quer muito te conhecer, filha. Talvez você devesse dar uma chance a ele.

Suas palavras ecoaram em minha cabeça pelo rosto do dia, reforçando algo que já havia brotado em mim.

É que não me parece justo odiá-lo como pai se ele nunca teve a oportunidade de ser meu pai.

Eu desaprovo muitas das suas atitudes, especialmente as de cerca de vinte anos atrás, mas... será que é justo manter essa raiva?

Ele errou ao me pressionar para trabalhar na empresa dele, mas reconheceu o erro e se mostrou arrependido. E eu consigo enxergar que, mesmo escolhendo o pior método, sua intenção era genuína.

Jogada de CraqueOnde histórias criam vida. Descubra agora