Desperto com a vibração persistente do meu celular.
Ao pegar o aparelho, vejo três mensagens de Samira perguntando em que lugar do estádio estou. Há também uma mensagem da minha mãe enviada mais cedo, uma imagem fofinha desejando feliz domingo.
É pouco mais de onze da manhã. A essa hora, Zac deve estar brilhando no campo. E não acredito que estou perdendo isso.
A saudade aperta e pulo para fora da cama, correndo para a televisão.
Passo pelos canais depressa até encontrar o jogo do Cruzeiro.
A partida estampa a tela plana, mas só vejo jogadores que não me interessam correndo atrás da bola.
Sem o barulho insano do estádio, assistir ao jogo até que não é tão desagradável.
Finalmente, a bola chega aos pés dele.
Lá está ele. Lindo e atlético dentro da camisa azul, short branco e meião também branco.
Meu coração vira um tambor.
Mas não é só comigo que Zac Dilan mexe. A torcida enlouquece. O narrador entra em êxtase:
— Lá vai ele, o craque imparável. Zac Dilan dispara com uma velocidade incrível, dribla o primeiro marcador com uma finta espetacular! A torcida vai à loucura! Zac avança, deixa outro defensor pra trás com um toque habilidoso. A marcação em cima do garoto de ouro é pesada. Ele se aproxima da área, é fechado pela defesa, avista o meia Vinícius livre na lateral. Que passe perfeito! Vinícius domina, prepara o retorno, Zac se aproxima da pequena área, ele está pronto para receber a bola. É agora! Zac vai fazer o gol! Vinícius decide não passar a bola para Zac Dilan e arrisca um avanço pela lateral. A torcida se enfurece com a atitude de Vinícius. O monstruoso zagueiro João Mendes do Fluminense chega junto. Vinícius percebe a aproximação perigosa e arrisca o chute para o gol... Intercepta o lance o zagueiro! Que cortada majestosa do zagueiro João Mendes!
Sinto uma raiva descomunal de Vinícius. Sacatrapo!
Imediatamente, um replay em câmera lenta aparece, e não há nada demais nisso, exceto pela cena final do replay focada em Zac: ele passa uma mão pelos cabelos e os fios vão para trás lentamente, seu rosto desenhado de frustração. A piscada de olhos também é desacelerada.
Um extremo oposto da velocidade que bate o meu coração agora. Sei que a cena é triste, mas não consigo deixar de babar nessa imagem em câmera lenta.
O comentarista explica como foi uma grande perda de oportunidade de gol, justificando a frustração do capitão Zac Dilan. Comenta a leitura errada que Vinícius fez da situação. E então a câmera lenta encerra e vem um close-up do rosto de Zac em tempo real, onde se vê a determinação renovada em sua expressão.
Sinceramente, não sei o que ainda estou fazendo aqui.
Preciso estar lá para quando Zac marcar o meu gol.
⚽︎
Corro para o guichê de ingressos com o coração batendo descontroladamente. Fiquei muito tempo no ônibus por causa do engarrafamento típico de dia de jogo e não sei se entrarei no estádio a tempo de ver o gol.
— Ingresso para o jogo, por favor — peço me agarrando ao balcão, a voz trêmula de ansiedade.
O atendente nem levanta os olhos.
— Esgotados — responde ele, seco.
Meu coração despenca.
— Por favor! Tem que haver alguma coisa! Qualquer lugar! Eu preciso entrar!
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Jogada de Craque
RomansaAs probabilidades se enganaram ao afirmar que as chances de Zac Dilan - o grande camisa dez do Cruzeiro - chutar a bola na direção da arquibancada e acertar em cheio a cabeça de Rebeca - a odiadora número um do esporte - eram zero. Rebeca preza por...
