38° Passe

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Henrique me deixou na frente do prédio dizendo que volta para me buscar quando eu lhe mandar uma mensagem.

Parada diante das portas escuras da Prisma, encaro meu reflexo sentindo o enjoo familiar. Espero que meu estômago se aquiete, pois o almoço que comi com Henrique vomitei lá mesmo, no banheiro do restaurante.

Eu preciso urgentemente aprender a lidar com o estresse dessa nova realidade e parar de vomitar assim.

Antes de entrar, respiro fundo e peço para o planeta voltar à órbita, pois isso aqui não está fazendo o menor sentido.

O destino tem me feito de gato e sapato. Sonhei tanto em trabalhar na Prisma para na primeira oportunidade queimar minhas chances em uma entrevista de estágio desastrosa. Agora o dono compartilha laços sanguíneos comigo e eu não quero vê-lo nem pintado de ouro.

Ignoro o frio na barriga e entro. A recepcionista antipática me libera, mas não ligo para a má vontade dela.

Subo de elevador, atravesso os corredores e chego na sala com a placa: "Presidente Ricardo Morais".

Que déjà-vu.

Ele quis se encontrar comigo aqui e não questionei. Na verdade, achei melhor do que ir naquela casa novamente.

Bato à porta, não por respeito a ele, mas porque sou educada — não graças a ele.

Para a minha surpresa, não ouço um 'entre'. O próprio Ricardo abre a porta para mim.

Me retraio ao dar de cara com os olhos claros. Ele está sério, mas seus olhos parecem ansiosos.

— Oi, Rebeca — o tom dele não é tão formal.

— Oi, Ricardo — mas o meu é absolutamente formal.

Rebeca. Ricardo. Será que minha mãe escolheu meu nome para combinar com o dele?

Ele me dá passagem, gesticulando para que eu entre. Sinto vontade de dar meia volta, mas prometi a Henrique, então acabo entrando.

Ricardo vai para detrás da mesa e se senta. Como permaneço de pé, ele aponta para a cadeira à sua frente.

— Por favor, sente-se. Temos muito o que conversar.

Hesito, mas acabo me sentando, embora me mantenha na ponta da cadeira, pronta para fugir a qualquer momento.

Ricardo me olha com aquela mesma expectativa que vi no jantar, como se esperasse algo de mim, como se quisesse me conhecer.

É melhor deixar claro que não vim aqui com esse intuito.

— Eu só aceitei te ver porque Henrique pediu e quero que ele viaje tranquilo. Não pense que vim aqui te ouvir — declaro, cruzando os braços.

Ricardo recosta-se na cadeira e respira fundo, como se estivesse se preparando para uma batalha que sabe que vai perder.

— Rebeca, eu não sabia da gravidez quando me separei da sua mãe.

Se ele vai começar com a mentira, não quero ouvir mais nada.

— Já acabou? — coloco as mãos nos braços da cadeira me preparando para me levantar.

— Eu não mereço esse tipo de tratamento — ele diz em um tom ressentido, com mágoa nos olhos.

Não acredito que ele vai fazer o papel de vítima.

Há muita raiva, muita mágoa guardada dentro de mim por todos esses anos. E elas transbordam antes que eu possa contê-las:

— Você merece o quê, então? Que eu te receba de braços abertos depois de anos de ausência paterna?!

Ele contorce o rosto, como se sentisse pena de mim. Me levanto. Não sou obrigada a tolerar isso.

Jogada de CraqueOnde histórias criam vida. Descubra agora