Henrique me deixou na frente do prédio dizendo que volta para me buscar quando eu lhe mandar uma mensagem.
Parada diante das portas escuras da Prisma, encaro meu reflexo sentindo o enjoo familiar. Espero que meu estômago se aquiete, pois o almoço que comi com Henrique vomitei lá mesmo, no banheiro do restaurante.
Eu preciso urgentemente aprender a lidar com o estresse dessa nova realidade e parar de vomitar assim.
Antes de entrar, respiro fundo e peço para o planeta voltar à órbita, pois isso aqui não está fazendo o menor sentido.
O destino tem me feito de gato e sapato. Sonhei tanto em trabalhar na Prisma para na primeira oportunidade queimar minhas chances em uma entrevista de estágio desastrosa. Agora o dono compartilha laços sanguíneos comigo e eu não quero vê-lo nem pintado de ouro.
Ignoro o frio na barriga e entro. A recepcionista antipática me libera, mas não ligo para a má vontade dela.
Subo de elevador, atravesso os corredores e chego na sala com a placa: "Presidente Ricardo Morais".
Que déjà-vu.
Ele quis se encontrar comigo aqui e não questionei. Na verdade, achei melhor do que ir naquela casa novamente.
Bato à porta, não por respeito a ele, mas porque sou educada — não graças a ele.
Para a minha surpresa, não ouço um 'entre'. O próprio Ricardo abre a porta para mim.
Me retraio ao dar de cara com os olhos claros. Ele está sério, mas seus olhos parecem ansiosos.
— Oi, Rebeca — o tom dele não é tão formal.
— Oi, Ricardo — mas o meu é absolutamente formal.
Rebeca. Ricardo. Será que minha mãe escolheu meu nome para combinar com o dele?
Ele me dá passagem, gesticulando para que eu entre. Sinto vontade de dar meia volta, mas prometi a Henrique, então acabo entrando.
Ricardo vai para detrás da mesa e se senta. Como permaneço de pé, ele aponta para a cadeira à sua frente.
— Por favor, sente-se. Temos muito o que conversar.
Hesito, mas acabo me sentando, embora me mantenha na ponta da cadeira, pronta para fugir a qualquer momento.
Ricardo me olha com aquela mesma expectativa que vi no jantar, como se esperasse algo de mim, como se quisesse me conhecer.
É melhor deixar claro que não vim aqui com esse intuito.
— Eu só aceitei te ver porque Henrique pediu e quero que ele viaje tranquilo. Não pense que vim aqui te ouvir — declaro, cruzando os braços.
Ricardo recosta-se na cadeira e respira fundo, como se estivesse se preparando para uma batalha que sabe que vai perder.
— Rebeca, eu não sabia da gravidez quando me separei da sua mãe.
Se ele vai começar com a mentira, não quero ouvir mais nada.
— Já acabou? — coloco as mãos nos braços da cadeira me preparando para me levantar.
— Eu não mereço esse tipo de tratamento — ele diz em um tom ressentido, com mágoa nos olhos.
Não acredito que ele vai fazer o papel de vítima.
Há muita raiva, muita mágoa guardada dentro de mim por todos esses anos. E elas transbordam antes que eu possa contê-las:
— Você merece o quê, então? Que eu te receba de braços abertos depois de anos de ausência paterna?!
Ele contorce o rosto, como se sentisse pena de mim. Me levanto. Não sou obrigada a tolerar isso.
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Jogada de Craque
RomanceAs probabilidades se enganaram ao afirmar que as chances de Zac Dilan - o grande camisa dez do Cruzeiro - chutar a bola na direção da arquibancada e acertar em cheio a cabeça de Rebeca - a odiadora número um do esporte - eram zero. Rebeca preza por...
