Capítulo 54

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São três da manhã

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São três da manhã. Estou deitado no meio da rua, com os olhos fechados, mas não consigo cair no sono. A dor de cabeça é constante e faz dias que não como ou durmo. Sinto-me vazio, mas não vou ceder à fraqueza das lágrimas. Não há espaço para isso.

Ouço o som de um carro a aproximar-se, mas não movo um músculo. Não me importa o que acontece ao meu redor. O carro para e logo uma mulher corre até mim.

— Senhor, está tudo bem? — a sua voz é preocupada, ofegante. Ignoro. Ouço o barulho do telemóvel a ser retirado. Provavelmente vai chamar a emergência.

Abro os olhos, mas mantenho o olhar fixo no nada. Ela se afasta, corre de volta para o carro, mas sou mais rápido. Em segundos, estou na sua frente, bloqueando o seu caminho.

— Estou completamente zangado e é melhor não carregares nesse botão. — digo com calma. — Se o fizeres, haverá consequências.

Ela hesita, mas a mão tremula insiste em buscar o botão. Antes que possa reagir, pego o punhal que sempre carrego e, com um movimento preciso, enterro-o no seu coração. O brilho de vida desaparece dos seus olhos, e por um breve instante, a imagem de Marly invade a minha mente.

Deixo o corpo cair no chão como se fosse um peso inútil e caminho pelas ruas escuras, cada passo mais difícil do que o anterior, mas a dor física é quase um alívio.

Entro num bar com a cabeça a latejar. Preciso de uma bebida forte, algo que me faça esquecer, ao menos por um momento, do meu pai, da minha mãe e da Marly.

— Estás sozinho? — uma mulher aproxima-se com a voz carregada de insinuação. Não me dou ao trabalho de olhar para ela, mantenho o foco no copo de whisky.

— Estou. — respondo, seco.

— Não queres ir lá para cima? — ela insiste. Reviro os olhos internamente, mas mantenho a expressão neutra.

— Não.

— Acredito que vais gos... — interrompo-a com um olhar gélido. A roupa barata, o jeito vulgar, ela é uma puta.

— Não estou para aturar-te. Um "não" é não. Se voltares a insistir, não respondo por mim.

Ela recua, mas não o suficiente. Com um gesto rápido, levanto-me, puxando-a para o andar de cima. Ela sorri a achar que vai conseguir algo de mim. Em poucos segundos, o sorriso desaparece junto com a sua vida, cortada pelo mesmo punhal que já provei noutro coração esta noite. Eu avisei e agora ela é apenas mais um cadáver.

Desço de volta ao bar, agora com o sangue dela nas minhas roupas. Não me importo. Sento-me novamente e volto ao meu whisky.

...

Já está quase a amanhecer e ainda estou aqui a afogar-me no álcool. As palavras do meu pai, as memórias da Marly, tudo gira na minha mente. No entanto, nenhuma quantidade de bebida parece suficiente para apagar essas lembranças.

O sol começa a despontar no horizonte, trazendo com ele uma luz fria e desinteressada. O whisky acabou há algum tempo, mas a garrafa vazia continua à minha frente, como um reflexo da minha própria existência.

Levanto-me, o corpo ainda dolorido, mas agora embriagado de uma sensação diferente — uma necessidade insaciável de destruir. Saio do bar, as ruas estão silenciosas, mas a minha mente é um turbilhão de pensamentos sombrios. Não posso parar, não quero parar.

Caminho sem rumo, até que avisto três homens a discutir num beco. Estão bêbados, a rir alto, completamente inconscientes da morte que se aproxima. Eles são perfeitos. Aproximo-me sem hesitar com o punhal frio já na minha mão.

— Têm algum problema? — A minha voz corta o ar, sem emoção.

Os três se viram para mim, confusos, mas não por muito tempo. Um deles, o maior, faz um movimento ameaçador. Típico. Num instante, eu avanço, o punhal rasga a garganta do primeiro antes que ele possa reagir. O segundo tenta fugir, mas o meu braço é mais rápido e o punhal encontra o seu alvo novamente. O terceiro, paralisado pelo medo, mal tem tempo de gritar antes que eu o derrube com um golpe firme no peito.

Três corpos no chão, três vidas apagadas sem o menor remorso. Sinto o sangue quente nas minhas mãos, mas isso não me traz satisfação. Nada traz. O vazio dentro de mim continua, insaciável.

Deixo o beco sem olhar para trás, as ruas começam a encher-se de gente comum que desperta para mais um dia. Vou direto para o cemitério, guiado por uma força que não posso explicar, apenas sentir. Preciso de ver a única pessoa que me fazia sentir algo diferente de raiva ou dor, a única que realmente se importou comigo.

Chego ao cemitério, o lugar está deserto. Caminho até à lápide da minha mãe, as palavras gravadas na pedra são como facas cravadas no meu coração. Sento-me ao lado do túmulo e depois deito-me sobre a terra fria que a cobre, como se pudesse sentir a sua presença, mesmo sabendo que ela se foi para sempre.

O silêncio aqui é diferente, pesado. A culpa que tento esconder de mim mesmo vem à tona, sufocante. Fecho os olhos, mas não encontro paz. Só há um buraco onde deveria estar a minha alma, um vazio que a morte dela deixou e que jamais será preenchido.

Sinto a falta dela, mais do que jamais admitiria. Se ela estivesse aqui, talvez as coisas fossem diferentes. Talvez eu não fosse este monstro. Mas ela não está e nunca mais estará. Tudo o que me resta é esta dor incessante e a certeza de que, de algum modo, a perdi por minha culpa.

Fico ali, deitado na terra fria, a tentar ignorar as lágrimas que ameaçam escapar. Mas não posso me permitir esse luxo. Fraqueza não é algo que posso mostrar, nem mesmo aqui, sozinho. Fecho os punhos, a raiva contra mim mesmo se mistura com a tristeza. A noite arrasta-se, e eu permaneço ali, imóvel, a desejar que o peso da culpa me esmagasse, mas sei que não será tão fácil.

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