Numa cidade de Nova Iorque, onde a corrupção e o crime organizado dominam as ruas, um jogo perigoso está prestes a começar.
Marly Souza, uma mulher manipuladora e sedutora, esconde um segredo sombrio: é uma assassina, conhecida apenas como "Quennie...
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Enquanto o Erick estava deitado na cama, ainda abalado e vulnerável, a sua voz trêmula quebrou o silêncio.
— Ela era perfeita — continuou ele, com a voz embargada. — A melhor mãe que alguém poderia ter. Sempre cuidou de mim, amava-me como ninguém... Mas o meu pai... era um monstro. Batia nela, batia em mim. Ela estava prestes a tirar-nos daquela vida, prestes a assinar o divórcio e, por fim, libertar-nos, mas ele matou-a antes e obrigou-me a assistir.
Ele engoliu em seco, os seus olhos fixos no chão, como se revivesse aquele momento.
— Ele disse que a culpa era minha... que se eu fosse mais forte, se eu fosse um homem de verdade, eu tê-la-ia salvado. E desde então, essa culpa nunca me deixou. Eu carrego isso comigo todos os dias. — Erick fechou os olhos com dor. — Eu tentei ser forte, tentei seguir em frente, mas ainda acredito que tudo foi culpa minha. Que eu a deixei morrer.
Erick levantou a cabeça, e os olhos dele, cheios de desespero, fixaram-se em mim.
— Ele achava que eu era fraco, que eu nunca seria como ele queria. Então, ele... ele fez aquelas mulheres... — As palavras saíam com dificuldade, carregadas de vergonha e dor.
— Erick... — sussurrei a tentar reconfortá-lo, mas ele continuou, incapaz de parar agora que tinha começado.
— Ele mandava-as para o meu quarto, noite após noite. Disse que isso me tornaria mais forte, que me faria um homem. Ele ordenou que elas abusassem de mim. Mas eu só era uma criança... — a sua voz falhou. — Eu não conseguia lutar contra elas... e ele... ele assistia, Marly. Ele olhava-me como se eu fosse uma decepção, como se eu nunca fosse ser o que ele queria.
O meu coração doeu ao ouvir essas palavras. A crueldade do seu pai era inimaginável, e a dor que o Erick carregava por dentro era devastadora. Eu sabia o que era sofrer nas mãos de alguém que deveria te proteger, mas a extensão do que ele tinha vivido era algo que eu nunca poderia ter previsto.
— Ele queria que eu fosse como ele, um homem forte, implacável. Mas tudo o que ele fez foi me destruir, pedaço por pedaço. — As palavras saíram sem emoção, como se ele já estivesse entorpecido por tudo o que havia passado. — Eu não era nada para ele, só uma falha e culpava-me pela morte da minha mãe, como se eu a tivesse matado com a minha fraqueza.
— Erick, tu não tinhas culpa. — tentei insistir, mas ele parecia longe, preso num mar de lembranças dolorosas.
— Eu acreditei que era fraco... — continuou, a voz fria, sem vida. - Eu acreditei nisso por tanto tempo. Até que... até que eu o matei, num momento de raiva.
— Fizeste o que precisavas para sobreviver, Erick. — Repeti, tentando transmitir o máximo de segurança possível. Ele não respondeu, mas apertou a minha mão, como se isso fosse a única coisa que o ancorava à realidade.
— Agora, cada vez que fecho os olhos, vejo o rosto dele. O rosto dela. E tenho medo, Marly. Medo de que todos me deixem, assim como ela foi embora. — Ele inclinou-se um pouco mais, a voz um sussurro cheio de angústia. — Por favor, não me deixes. Não me abandones como ela fez. Eu não sei se posso lidar com isto sozinho... Não quero ser deixado de novo.
Ele parou por um momento, as memórias visivelmente a sufocá-lo. Eu não disse nada, apenas segurei na sua mão, tentando oferecer-lhe o mínimo de conforto que eu podia.
Ele apertou a minha mão com mais força.
— Marly, por favor, não me deixes sozinho. Não me deixes, como a minha mãe fez. Não sei se consigo sobreviver a isto de novo... não sei se consigo suportar perder alguém que... - Ele interrompe-se. - assim outra vez.
Eu senti o peso das suas palavras, e por um momento, hesitei. Mas sabia que ele precisava de ouvir uma promessa, algo que o ancorasse à realidade.
— Eu não te vou deixar, Erick. — prometi suavemente. — Estou aqui e não vou a lugar nenhum.
Mesmo enquanto dizia isso, uma parte de mim odiava o quanto me importava, o quanto me envolvia nessa dor que não era minha. Mas não podia ignorar o fato de que, naquele momento, ele precisava de mim. E talvez, só talvez, eu também precisasse dele de uma maneira que eu ainda estava a tentar compreender.
Ele estava destruído pelas mãos daquele que deveria tê-lo protegido. O homem que eu sempre vi como forte e implacável agora estava exposto, com os seus medos e os seus traumas revelados. Senti um misto de tristeza e raiva, não só pelo que ele havia sofrido, mas também por perceber que, apesar de todo o seu poder, o Erick era tão vulnerável quanto eu.
Eu fiquei ao lado dele, sem dizer nada, porque sabia que palavras não seriam suficientes para curar as suas feridas. Mas, talvez, a minha presença pudesse oferecer algum consolo, alguma pequena faísca de esperança no meio de tanta escuridão. E, à medida que o silêncio da noite envolvia a casa, eu soube que, de alguma forma, estávamos conectados pelas nossas dores, e que, mesmo sem palavras, compreendíamos um ao outro de uma maneira que ninguém mais poderia entender.
Quando ia levantar-me para ir para o meu quarto, o Erick segurou na minha mão, com os olhos suplicantes, como se fosse uma criança indefesa, com medo de um monstro debaixo da cama.
— Não me deixes com eles, Marly. — A voz dele era fraca, quase um sussurro. — Tenta não me odiar só esta noite. — Ele olhou para mim. — Quando durmo contigo, eles não aparecem. Só tu os fazes ir embora.
Senti o meu coração apertar ao vê-lo assim, tão diferente do homem que eu conhecia. Sorri suavemente, tentando tranquilizá-lo.
— Eu não te odeio, Ferri. — O meu sorriso parecia confortá-lo e ele respondeu com um sorriso fraco. - Eu estarei contigo do anoitecer ao amanhecer. - Vejo um sorriso formar-se no seu rosto.
Levantei-me e fui até ao closet dele para pegar numa das suas camisolas. Ficava-me grande, mas era muito confortável. Voltei para a cama e deitei-me ao seu lado. O Erick imediatamente puxou-me para perto, como se buscasse a segurança na minha presença. Deitei a cabeça no seu peito, e as nossas pernas entrelaçaram-se.
— Não me deixes, Marly. — Ele sussurrou no meu ouvido, enquanto acariciava o meu cabelo com ternura.
— Não te vou deixar, Erick. — Respondi suavemente. Ele beijou a minha cabeça, e aos poucos, os seus carinhos no meu cabelo começaram a diminuir, sinal de que ele estava a adormecer. Fiquei ali a ouvir o seu coração bater, até que o cansaço também me venceu e eu adormeci ao seu lado.
Ele era como eu — destruído, mas ainda de pé. E, de alguma forma, isso ligava-nos. Mesmo que eu nunca fosse admitir.