Dia 39

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Ananda

O dia tinha sido um dos melhores que já passamos juntos em muito tempo. Acordamos sem pressa, e até mesmo o café da manhã foi diferente. Ele estava atento, rindo, e parecia genuinamente presente. Cada conversa fluía com leveza, e o humor dele acompanhava o meu. Não havia tensões, nem entrelinhas amargas. Era como se tivéssemos retornado àquela versão de nós mesmos que eu tanto ansiava reencontrar. Durante a tarde, assistimos a um filme qualquer, e Richard fez questão de me puxar para seu peito, como costumava fazer no início de tudo.

Com Thaís na casa da minha mãe, aquele era o momento perfeito para desacelerar e simplesmente aproveitar a companhia um do outro, sem interferências. Estava tudo tão tranquilo que, em uma dessas vezes, me peguei sorrindo sozinha, pensando que, se houvesse mais dias como esse, talvez as dúvidas sobre o divórcio não fossem tão presentes.

Quando a noite caiu, decidimos fazer um jantar leve juntos. Ele até insistiu em preparar a comida, enquanto eu terminava de organizar a mesa. Dividimos pequenas tarefas, e as risadas que dávamos ecoavam pela cozinha como uma sinfonia que eu mal acreditava estar ouvindo novamente. Eu estava leve, rindo até das piadas bobas que ele soltava enquanto preparava o molho da massa, e cada minuto que passava me fazia acreditar que, finalmente, havíamos encontrado algum tipo de paz entre nós.

Depois de jantarmos, nos acomodamos no sofá, e ele me puxou para perto, envolvendo meus ombros com o braço. Inclinei a cabeça sobre o peito dele e fechei os olhos, me permitindo sentir apenas o calor e o ritmo da respiração dele. Em um impulso, deixei meus dedos acariciarem o dorso da mão dele, como se aquele gesto pudesse gravar o momento em nós. Estava feliz, e, mesmo sem querer admitir, uma pequena esperança brotava de que ele também estivesse.

  – Foi um dia ótimo, né? — perguntei, baixinho, sem abrir os olhos.

  – Estava precisando de um dia assim. Só nós dois, sem preocupações. — Ele sorriu, apertando-me levemente contra si.

Eu só assenti, torcendo para que ele estivesse sendo sincero. Desde que tudo começou a desmoronar, era raro termos um momento assim, onde a tranquilidade parecia autêntica. Por isso, quando o senti se mexendo, um leve desconforto se instalou em mim. Abri os olhos devagar e o vi desviando o olhar, como se estivesse tentando me esconder algo.

  – Amor, é que... — Ele começou a falar, a voz hesitante, e aquele era o tom que ele usava sempre que estava prestes a dar alguma desculpa.

Prendi a respiração, já sentindo o desânimo me invadir. Será que ele ia mesmo interromper o nosso dia com uma desculpa qualquer?

  – O Joaquín me mandou uma mensagem — ele disse, e eu revirei os olhos involuntariamente. — Ele meio que precisa de ajuda com umas coisas. Eu prometi dar uma força pra ele hoje à noite.

Eu queria rir de nervoso, mas só consegui respirar fundo, tentando controlar a irritação. Tudo bem, talvez fosse verdade, mas... Por que ele precisava ir justo agora, no meio de um dia que estava finalmente bem entre nós?

  – Sério, Richard? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas ele deve ter notado a decepção nos meus olhos.

  – Nanda, é só hoje. Eu volto logo, prometo. — Ele colocou a mão no meu ombro, num gesto que pretendia ser reconfortante, mas que só serviu para aumentar a frustração.

Fechei os olhos, tentando não reagir de forma explosiva, mas as palavras começaram a sair antes que eu pudesse pensar direito.

  – Olha, Richard, você é adulto, faz o que quiser. Mas achei que, pelo menos hoje, você fosse querer ficar aqui, depois de tudo.

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora