Ananda
As malas estavam espalhadas pelo quarto, e eu dobrava cuidadosamente as roupas de Thaís antes de colocá-las na bagagem. Richard estava no quintal, distraindo Thaís enquanto eu terminava de arrumar tudo. Minha mente ainda estava em um turbilhão desde a briga do dia anterior. Apesar da conversa com Antônio e da aparente reconciliação com Richard, as coisas ainda pareciam tensas.
Ouvi uma leve batida na porta. Quando me virei, vi minha mãe, Vera, entrando com um sorriso gentil no rosto. Ela estava com uma bandeja nas mãos, com duas xícaras de chá fumegante.
– Achei que você podia precisar de uma pausa, meu amor — ela disse, colocando a bandeja sobre a cômoda.
Sorri, mesmo que estivesse exausta.
– Obrigada, mãe. Eu preciso mesmo.
Ela puxou uma cadeira e se sentou perto da cama, observando enquanto eu continuava dobrando as roupas. Depois de um momento de silêncio, ela finalmente falou:
– Como você está, Nanda? De verdade.
Suspirei, deixando a blusa que estava dobrando cair sobre a cama.
– Não sei, mãe. Sinto que estou andando em círculos com o Richard. Às vezes acho que estamos nos entendendo, que ele está mudando, e então... coisas como a de ontem acontecem.
Minha mãe assentiu lentamente, levando a xícara aos lábios antes de responder.
– Sobre a briga de ontem... Antônio me contou o que aconteceu depois
Revirei os olhos.
– Claro que ele contou.
– Ele não fez por mal, meu bem. Só achou que eu devia saber.
– E o que você acha, mãe? — perguntei, cruzando os braços e me apoiando na cômoda.
Ela suspirou profundamente.
– Acho que o Richard perdeu o controle, e isso nunca é bom, principalmente na frente da Thaís. Mas, ao mesmo tempo, não posso negar que aquele rapaz passou dos limites. Ele estava provocando, querendo confusão. Richard reagiu como qualquer homem apaixonado reagiria ao ver sua esposa sendo desrespeitada.
Franzi o cenho.
– Mãe, ele não pode simplesmente sair brigando por aí. Isso não resolve nada, só complica ainda mais as coisas.
– Eu sei, filha. Mas veja pelo lado dele também. Ele ainda te ama, Nanda. Isso ficou claro ontem. Ele só não sabe lidar com tudo isso.
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo suas palavras.
– E quanto ao divórcio? — perguntei, baixinho.
Minha mãe deu um sorriso triste.
– É isso que você realmente quer?
– Eu não sei, mãe. Às vezes acho que sim, porque Richard me machucou tantas vezes no passado. Mas aí ele faz algo que me lembra do homem por quem eu me apaixonei, e tudo fica confuso de novo.
Ela colocou a xícara de chá de lado e segurou minhas mãos.
– Nanda, o casamento não é fácil. Você sabe disso. Mas também sei que você é forte. Forte o suficiente para tomar a decisão que for melhor para você e para a Thaís. Se você acha que ainda existe uma chance para vocês dois, lute por isso. Mas se acha que já deu tudo o que podia e que não há mais o que salvar, então siga em frente.
Meus olhos começaram a arder com lágrimas não derramadas.
– É tão difícil, mãe.
– Eu sei, meu amor. Mas você não está sozinha. Sempre vai ter um quarto pra você e pra Thaís na minha casa, lembra disso.
Ri baixinho, lembrando das palavras dela de alguns dias atrás.
– Você já disse isso.
Ela sorriu, acariciando meu rosto.
– E vou dizer quantas vezes forem necessárias.
Ficamos em silêncio por um momento, apenas aproveitando a companhia uma da outra. Depois, ela me ajudou a terminar de arrumar as malas, enquanto conversávamos sobre coisas mais leves, como a viagem de volta e as travessuras de Thaís.
Mesmo com todas as incertezas na minha cabeça, aquela conversa com minha mãe trouxe um pouco de paz. Talvez ainda houvesse um caminho a seguir, mesmo que eu não soubesse qual era.
Richard
O relógio do carro marcava pouco mais de meia-noite quando estacionei na garagem. A viagem de volta foi tranquila, mas longa. O cansaço estava evidente no meu corpo, mas ver Thaís e Ananda dormindo no banco do passageiro fez tudo valer a pena.
Olhei para elas por um momento, com um sorriso discreto nos lábios. Thaís estava encolhida na cadeirinha, com um cobertor cobrindo metade do rostinho, e Nanda, ao lado dela, com a cabeça pendendo suavemente para o lado. Pareciam tão tranquilas, tão... minhas.
Saí do carro devagar, tentando não fazer barulho, e comecei a pegar as malas no porta-malas. Carreguei tudo até a sala, deixando-as ali por enquanto. Depois voltei para o carro e, com todo cuidado, tirei Thaís da cadeirinha. Ela murmurou algo incompreensível, ainda imersa no sono.
Subi as escadas devagar, tomando cuidado para não tropeçar em nada, e levei Thaís para o quarto dela. A cobri com o mesmo cobertor que usava no carro, beijando sua testa antes de apagar as luzes e fechar a porta com delicadeza.
Quando voltei para buscar Ananda, ela ainda estava na mesma posição, profundamente adormecida. Por um momento, fiquei parado, observando-a. Era nessas horas que ela parecia mais vulnerável, mais acessível. Como se o peso do mundo, ou pelo menos das nossas brigas e desentendimentos, desaparecesse enquanto ela dormia.
– Tá na hora de ir pra cama, morena — murmurei para mim mesmo.
Com cuidado, passei um braço por baixo dos joelhos dela e outro pelas costas, a levantando. Ela se mexeu um pouco, murmurando algo que não entendi, mas logo se acomodou no meu peito, confiando completamente em mim, mesmo inconsciente.
Levei ela para o nosso quarto, empurrando a porta com o pé. Coloquei a Nanda suavemente na cama, ajeitando o travesseiro sob sua cabeça. Quando fui me afastar para pegar o cobertor, ela abriu os olhos lentamente, ainda grogue de sono.
– Richard...? — sua voz saiu fraca, quase um sussurro.
– Tô aqui — respondi, parando no meio do caminho.
Ela respirou fundo, como se estivesse lutando para manter os olhos abertos, e disse:
– Deita aqui comigo. Depois a gente desmonta as malas. Só quero dormir em conchinha com você...
Meu peito apertou. Algo tão simples, mas ao mesmo tempo tão significativo.
– Tem certeza? — perguntei, ainda parado.
Ela assentiu devagar, dando um pequeno espaço na cama.
– Por favor.
Suspirei, tirando os sapatos e a camisa, e me deitei ao lado dela. Assim que me acomodei, ela se virou de costas para mim, puxando minha mão para envolvê-la pela cintura. A sensação de sua pele quente contra a minha era reconfortante, familiar.
– Obrigada por cuidar da gente hoje — ela murmurou, já quase caindo no sono novamente.
– Sempre, Nanda — respondi, apertando-a contra mim.
O silêncio se instalou no quarto, mas não era desconfortável. Pelo contrário, era como se tudo estivesse no lugar certo, pelo menos naquele momento. Fiquei ali, ouvindo sua respiração estabilizar enquanto o sono a tomava novamente, e pensei em como esses pequenos gestos significavam tanto.
Eu sabia que o caminho à nossa frente ainda era cheio de incertezas, mas ali, naquela cama, com ela nos meus braços, senti que talvez, só talvez, ainda houvesse esperança para nós dois.
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Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard Ríos
FanficOnde Ananda e Richard estão se divorciando ᴄᴏᴘʏʀɪɢʜᴛ ᴡɪᴋɪᴍᴀʏʙᴀɴᴋ ꜱᴇᴛᴇᴍʙʀᴏ 𝟸𝟶𝟸𝟺 Conteúdo Adulto Recomendação: +18 anos
