Dia 50

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Ananda

O dia estava lindo, o sol brilhava no céu sem estar quente demais, e o quintal estava cheio de risadas e vozes alegres. O aniversário da Thaís era especial para mim, um momento que eu havia planejado com tanto carinho para dar a ela um dia feliz e cheio de lembranças. No fundo da casa, entre os familiares e amigos mais próximos, eu me sentia leve e satisfeita. Thaís brincava de um lado para o outro com um vestido florido, as bochechas rosadas de tanto correr e sorrir.

Richard estava ao meu lado, e era uma das poucas vezes em que nos sentíamos realmente em sintonia. Ele também parecia mais relaxado, ajudando a organizar as atividades e mantendo um olho atento na nossa filha, enquanto conversava animadamente com amigos do time e familiares. Estávamos, por um instante, vivendo aquele momento de forma harmoniosa.

Eu estava organizando uma mesa com alguns docinhos quando senti a mão de Richard no meu quadril. Ele se aproximou, e eu sorri, entendendo que ele também estava gostando de ver a festa fluindo tão bem.

Mas, de repente, a expressão dele mudou, e ele parou de falar no meio da frase, focando a atenção em algo atrás de mim. Antes que eu pudesse me virar para ver o que estava chamando tanta atenção, ele inclinou o rosto em minha direção, o toque em minha cintura apertando um pouco mais.

  – O que o Zé Rafael tá fazendo aqui? — ele sussurrou, com um tom cauteloso e levemente possessivo.

Eu ri, dando uma leve cotovelada nele para ele se conter, mas Richard não pareceu achar muita graça. Virei o rosto, e lá estava o Zé Rafael, chegando com os filhos e um sorriso no rosto, cumprimentando alguns conhecidos. Ele tinha trazido um presente para Thaís, e a cumprimentou de longe com um aceno, que ela respondeu animada.

  – Ele é convidado, Richard. Trouxe os filhos para a festa e... eles são amigos da Thaís — expliquei, como se fosse óbvio, mantendo o tom casual.

Mas Richard ainda não parecia completamente convencido. Mesmo mantendo uma expressão neutra, seus olhos seguiam atentos o caminho do Zé até a mesa de presentes, onde ele parou e cumprimentou alguns dos nossos amigos.

  – Só espero que ele não atrapalhe — murmurou, ainda sussurrando para mim. Sua mão no meu quadril não cedeu nem um pouco, ao contrário, ele parecia até mais determinado a me manter junto a ele.

Eu revirei os olhos, mas sorri, não querendo que Richard estragasse o clima por um ciúme bobo. Estávamos em um bom momento e, por mais que ele insistisse em ser possessivo, eu estava ali com ele e todos ao redor.

  – Não vai atrapalhar nada, Richard. Só relaxa — eu disse, tentando trazer um pouco de leveza ao assunto.

Ele bufou discretamente, mas manteve o tom brincalhão, embora não pudesse esconder o ciúme. Com um suspiro, eu passei meu braço ao redor dele, inclinando um pouco o corpo em sua direção para mostrar que ele não tinha com o que se preocupar.

  – Você tá pior que a própria Thaís, Richard — provoquei, tentando fazer ele se soltar. — Agora, por favor, respira e aproveita. É o aniversário dela, e você sabe que eu tô aqui com você.

Ele finalmente sorriu, mesmo que um pouco contido, e voltou a se distrair com a festa, mas era impossível ignorar o olhar de Richard de tempos em tempos, sempre mantendo Zé em seu campo de visão.

Enquanto eu me ocupava organizando alguns jogos com as crianças e ajudando Thaís com os amigos, percebia que o Zé era mais sociável do que eu pensava, interagindo com todos, principalmente com os pequenos. Ele parecia tão à vontade, e isso ajudou a tornar o ambiente ainda mais divertido. Thaís, inclusive, o puxou para brincar, e eu pude ver que ela gostava da presença dele.

Lancei um olhar rápido para Richard e o encontrei observando a cena, a mandíbula um pouco tensa, mas ainda calmo. Ele encontrou meu olhar, e eu lancei um sorriso em sua direção, encorajando-o a relaxar. Richard respondeu com um sorriso um tanto hesitante, mas deu de ombros, voltando para perto de mim.

Aos poucos, ele se soltou um pouco mais, e passamos o resto da festa aproveitando juntos, lado a lado, e criando novas lembranças com Thaís.

Richard

O aniversário da Thaís estava cheio de gente, e eu tentava manter o foco na festa. Mas cada vez que eu olhava, lá estava o Zé Rafael, interagindo, conversando, e sempre próximo da Nanda. Até que, num certo momento, ele parecia estar tão à vontade que eu não aguentei.

Esperei um instante em que ele se afastou para pegar algo na mesa e, sem pensar duas vezes, fui até ele, puxando-o discretamente para um canto mais afastado. Zé me olhou meio surpreso, mas manteve a postura, como se já imaginasse o que estava por vir.

  – E aí, Zé, posso saber o que você quer com a Nanda? — perguntei, direto, o tom mais sério do que o habitual.

Ele ergueu as sobrancelhas, mas não parecia intimidado. Apenas respirou fundo antes de responder, como se estivesse escolhendo as palavras.

  – Cara, só tô ajudando ela, tá? A Nanda... me pediu isso. Ela tá passando por um momento complicado, e acho que a gente tem que respeitar isso.

O modo como ele falou, tão tranquilo e sem vacilar, me irritou ainda mais. Eu não precisava de alguém "ajudando" minha esposa — ou pelo menos, a mãe da minha filha — em algo que deveríamos resolver entre nós. A Nanda era minha família, e eu acreditava que, de alguma forma, poderia resolver isso sem a intervenção dele.

  – E você acha mesmo que tem que se meter nisso? — retruquei, tentando não deixar transparecer o quanto aquilo me incomodava. — Tá, você é amigo dela, eu entendo. Mas, pra falar a verdade, isso é algo entre eu e ela.

Ele deu de ombros, tranquilo.

  – Eu sei disso, Richard, mas acredite em mim, eu tô só apoiando. Ela... pediu minha ajuda porque eu já passei por uma situação parecida, e acho que entende que isso pode ajudar ela a se sentir mais segura.

As palavras dele me acertaram em cheio, principalmente porque sabia que ele estava falando de uma experiência que, querendo ou não, eu não tinha. Eu odiava admitir, mas ele talvez fosse uma companhia que a fazia sentir-se mais compreendida — alguém que ela sabia que poderia entender pelo que estava passando.

Respirei fundo, tentando manter a calma. Mas a ideia de ele estar ali, dando apoio para algo que eu não queria que se concretizasse — o divórcio — me incomodava demais.

  – Olha, Zé, eu não vou ficar te pedindo isso de novo. Essa é a minha vida, a minha família. Então, respeita o espaço e o momento. Eu tô tentando resolver as coisas da melhor forma possível, e é melhor que isso fique só entre eu e a Nanda.

Ele me olhou com um pouco de compaixão no olhar, o que só aumentou minha irritação.

  – Richard, relaxa, eu não tô aqui pra te atrapalhar. Só... tô aqui pra apoiar ela. E se, em algum momento, você perceber que essa ajuda é realmente necessária, talvez você veja as coisas de outra forma.

Aquelas palavras me deram um nó. Ele estava insinuando que eu deveria entender a perspectiva dela, aceitar que o divórcio era algo concreto, ou ao menos ouvir o que ela precisava. E, por mais que eu quisesse apenas afastá-lo dali, me dei conta de que ele não parecia estar tentando me desafiar; era como se ele estivesse realmente preocupado com ela.

Antes que eu pudesse responder, ele deu um tapinha leve no meu ombro e se afastou, voltando para onde as crianças brincavam. Fiquei ali, parado por um instante, tentando processar o que ele havia dito e o que eu deveria fazer a partir dali. A festa continuava ao fundo, mas, naquele momento, minha mente estava presa apenas à ideia de que talvez fosse hora de ter uma conversa real com a Nanda — e, principalmente, de me colocar no lugar dela.

Eu ainda tinha muitas dúvidas, mas, se havia algo que eu sabia naquele instante, era que, de alguma forma, precisava provar a ela que não era o Zé ou qualquer outra pessoa que deveria estar ao lado dela, mas eu.

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora