Dia 72

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Ananda

Era quase oito da noite quando terminei de me arrumar. A noite das meninas estava marcada fazia semanas, e eu finalmente ia ter um tempo só para mim e minhas amigas. Depois de tanta correria com a Thaís, o trabalho, a casa e todas as tensões acumuladas com o Richard, eu precisava dessa pausa.

Escolhi uma roupa confortável, algo que refletisse como eu queria me sentir: livre e leve. Um vestido preto, soltinho, mas curto o suficiente para deixar as pernas à mostra. Não era vulgar, mas também não era algo que eu usaria em um jantar de família ou uma reunião formal. Combinava com a ocasião.

Enquanto passava meu batom nude no espelho, observei meu reflexo. Fazia tempo que não me sentia assim, mais descontraída, sem a obrigação de parecer uma "mãe perfeita" ou uma "esposa ideal". Hoje, eu era só a Ananda, mulher, amiga e alguém que queria uma noite divertida.

Peguei minha bolsa e comecei a organizá-la, colocando celular, carteira, e a chave do carro. Antes de sair do quarto, mandei uma mensagem para o Richard:

"Sobe aqui rapidinho, por favor."

Não demorou muito até ouvir os passos dele subindo as escadas. Ele entrou no quarto de forma descontraída, com um sorriso no rosto.

— Fala, Nanda.

Me virei para ele e fui direto ao ponto:

— Você pode cuidar da Thaís hoje à noite? Eu vou sair com as meninas e provavelmente volto tarde.

Richard franziu o cenho por um momento, mas não parecia se importar muito. Ele se aproximou da cama, onde eu tinha deixado a bolsa aberta, e foi então que os olhos dele pousaram na minha roupa. O sorriso desapareceu.

— Você vai sair assim? — ele perguntou, cruzando os braços.

Levantei as sobrancelhas, surpresa com o tom.

— Assim como?

Ele gesticulou na direção do meu vestido, o incômodo estampado no rosto.

— Nanda, esse vestido tá curto demais.

Respirei fundo, já prevendo onde isso ia dar.

— Richard, é um vestido. Estamos em pleno verão, é uma noite só entre as meninas, e eu quero me sentir confortável.

— Confortável? — ele riu, mas o riso não tinha humor. — Isso aí não é roupa de mulher casada, muito menos de mãe.

Minhas mãos pararam de mexer na bolsa, e eu me virei completamente para ele, cruzando os braços.

— Você tá falando sério?

— É claro que eu tô falando sério, Ananda. Olha pra você! Parece que tá se vestindo pra chamar atenção.

— Chamar atenção? — repeti, incrédula. — Richard, eu vou pra uma festa com a Camila, a Bruna e as meninas. Nenhum homem vai estar lá. Qual o problema?

Ele bufou, gesticulando como se não acreditasse no que estava ouvindo.

— Não importa. É a imagem que você passa. Isso aí é roupa de... — ele hesitou, mas completou: — É roupa de puta.

Foi como se ele tivesse jogado um balde de água fria em mim. O choque foi imediato, seguido por uma onda de raiva que subiu do meu peito até o rosto.

— O quê você acabou de dizer? — perguntei, a voz baixa e ameaçadora.

— Eu disse o que todo mundo pensa, Nanda. Uma mulher casada, mãe de família, não tem que sair por aí vestida desse jeito.

A raiva me dominou de vez. Fechei a bolsa com força e comecei a pegar o restante das coisas que precisava.

— Quer saber, Richard? Vai à merda.

— Nanda...

— Não, não fala comigo agora. — Virei para ele, apontando o dedo. — Eu sou uma mulher adulta, que trabalha, cuida da casa, da nossa filha e de você. Se eu quero sair com as minhas amigas uma noite, usando o que eu quiser, eu tenho esse direito.

Ele tentou responder, mas eu continuei:

— E pra sua informação, o problema aqui não é a minha roupa. É a sua insegurança. Você acha mesmo que eu preciso "chamar atenção"? Só porque vou usar um vestido curto?

Peguei minha bolsa e fui em direção à porta. Ele ainda tentou argumentar, mas eu levantei a mão, interrompendo-o.

— Só cuida da Thaís. É só o que eu tô te pedindo. Não vou pedir mais nada.

Desci as escadas rapidamente, me esforçando para não gritar de raiva. Thaís estava na sala, brincando com suas bonecas. Me abaixei ao lado dela, tentando parecer calma.

— Filha, a mamãe vai sair com as amigas hoje à noite, tá bom? O papai vai cuidar de você.

Ela sorriu, animada, e me deu um abraço.

— Tá bom, mamãe. Divirta-se!

Sorri de volta, mesmo que meu coração estivesse pesado. Dei um beijo na testa dela e saí pela porta antes que Richard pudesse me alcançar.

Quando entrei no carro, respirei fundo, tentando acalmar os nervos. Mas a verdade era que eu estava magoada, mais do que eu gostaria de admitir.

A noite das meninas ia ser um alívio. Eu precisava disso mais do que nunca. Assim que chego, já vou subindo para o apartamento da Camila. Mal entro e já vejo todas as meninas prontas.

  – Atrasou hoje — Camila me olha

  – Só a Thaís que deu um pouco de trabalho — minto

Ela me olha estranho mas concorda, pego uma taca de vinho e vou subindo para o quarto de hóspedes.

  – O que aconteceu? — ela perguntou, direta, se sentando ao meu lado na cama

Respirei fundo, dando um gole no vinho antes de responder.

  – O Richard... — comecei, olhando para o líquido na taça. — Ele surtou antes de eu sair de casa.

  – Surtou? Como assim?

Balancei a cabeça, sentindo a raiva voltar.

  – Ele ficou incomodado com a roupa que eu escolhi pra hoje. Disse que tava curta demais e começou com aquele papo de "você é mãe de família" e "não precisa se vestir assim".

Camila arregalou os olhos, incrédula.

  – Ele fez isso?

  – Fez. E não foi só isso. — Meu tom ficou mais amargo. — Ele teve a audácia de dizer que era "roupa de puta".

Camila quase derramou o vinho da taça ao ouvir isso.

  – Ele o quê?!

  – Isso mesmo que você ouviu. — Dei outro gole no vinho, tentando me acalmar. — Eu fiquei tão puta que só enfiei tudo na bolsa, mandei ele cuidar da Thaís e saí de lá antes que eu explodisse de vez.

Ela balançou a cabeça, indignada.

  – Amiga, não dá. Não dá pra aceitar isso. Você é a mulher dele, não a propriedade dele.

  – Eu sei, Camila. Eu sei. Mas ouvir isso... machucou, sabe? — Minha voz falhou um pouco, e eu respirei fundo para não chorar. — Depois de tudo o que a gente passou, eu esperava mais dele.

Camila segurou minha mão, firme.

  – Você não tá errada, Nanda. Ele tá. E se você quiser, eu chamo as meninas e a gente vai lá dar um sermão nele agora.

Eu ri, mesmo com o nó na garganta.

  – Obrigada, amiga. Mas hoje, eu só quero esquecer isso.

Ela me puxou para um abraço, e naquele momento, senti que pelo menos ali, entre amigas, eu estava segura.

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora