Dia 3

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Ananda

O silêncio em casa era quase insuportável. Depois da discussão com Richard, parecia que as paredes da nossa casa estavam mais sufocantes do que nunca. Cada canto me lembrava da vida que eu estava prestes a abandonar. Mas abandonar era uma palavra forte. Talvez, finalmente, estivesse apenas escolhendo a mim e à Thaís.

Falando nela, eu a observei enquanto ela brincava no chão da sala com suas bonecas. A risada inocente dela era o único som que trazia um pouco de paz àquele ambiente. Meu coração se apertava ao pensar no impacto que tudo isso teria na vida dela.

Como eu poderia explicar para minha filha de três anos que o pai dela não estaria mais em casa todos os dias? Que a rotina perfeita que ela conhecia estava prestes a ser destruída? Mas, ao mesmo tempo, como poderia continuar vivendo nesse ciclo de promessas quebradas e falsas esperanças?

  – Mamãe, olha! — Thaís levantou uma boneca no ar, um sorriso radiante estampado no rosto, completamente alheia à turbulência ao nosso redor.

  – Que linda, filha! — Sorri para ela, forçando minha voz a soar leve, mesmo com a angústia que consumia meu peito. Eu não queria que ela sentisse o peso da nossa realidade. Ela merecia continuar sorrindo, sem carregar as dores dos adultos.

Me levantei do sofá e fui até a janela, encarando o céu nublado lá fora. As palavras do Richard ainda ecoavam na minha cabeça. "Você está exagerando." Como se meus sentimentos, minha frustração e tudo o que eu vinha carregando por anos fossem apenas um capricho temporário.

Eu não estava exagerando. Eu tinha segurado essa relação por tanto tempo, sufocando minhas próprias necessidades em nome de uma unidade familiar que já não existia. Como mãe, tudo o que eu queria era o melhor para Thaís, mas percebi que o melhor não era manter um casamento desmoronando diante dos nossos olhos.

De repente, senti uma pequena mão puxando a barra da minha calça. Olhei para baixo e vi Thaís, com seus grandes olhos castanhos curiosos, me observando.

  – Você tá triste, mamãe? — Ela perguntou, com aquela pureza que só uma criança de três anos poderia ter.

Me ajoelhei, ficando à altura dela, e passei a mão por seu cabelo cacheado.

  – Um pouquinho, filha. Mas não se preocupe. Vai ficar tudo bem.

Ela não entendeu completamente, claro. Mas me abraçou com força, e aquele gesto simples foi como um bálsamo temporário. Thaís era a razão pela qual eu tinha que ser forte. Eu não podia abaixar a cabeça, não podia ceder às manipulações emocionais de Richard. Ela precisava de uma mãe que mostrasse a importância de se valorizar e de lutar pelo que é certo.

O telefone vibrou na mesa ao lado. Peguei, e claro, era Richard. Uma mensagem, pedindo para conversarmos mais tarde. Eu sabia que essa conversa não levaria a lugar nenhum. Ele achava que, com o tempo, eu iria ceder. Sempre foi assim, ele fazia algo, eu perdoava, e a vida continuava.

Mas dessa vez era diferente. Eu tinha entrado com o pedido de divórcio, e cada fibra do meu ser estava dizendo para não voltar atrás. Thaís me observava, ainda segurando minha mão, e foi naquele momento que eu soube: eu não voltaria.

Eu precisava mostrar a ela, ainda que indiretamente, que aceitar menos do que a gente merece não é a solução. Eu me levantei e, com Thaís nos meus braços, fui para o quarto. Precisava de um tempo sozinha para organizar meus pensamentos e forças para o que estava por vir.

  – Mamãe, posso assistir desenho? — Ela perguntou, aninhada no meu colo.

  – Claro, meu amor. Vamos ver o seu preferido. — Liguei a televisão, enquanto ela se aconchegava no meu colo.

Enquanto ela assistia, meus pensamentos vagavam. Eu não sabia o que o futuro nos reservava, mas sabia que Thaís e eu teríamos uma vida mais leve. Mesmo que isso significasse reconstruir tudo do zero. Eu só precisava manter a cabeça erguida e continuar lutando por nós duas.



Richard

Quando cheguei em casa, eu sabia que as coisas estavam tensas. A conversa da noite anterior ainda me pesava, mas, por algum motivo, eu tinha a esperança tola de que, depois de uma noite de sono, Ananda poderia estar mais calma, mais receptiva.

O barulho da televisão ecoava pela sala, e quando entrei, vi Ananda e Thaís juntas no sofá. O coração apertou. Elas pareciam tão... normais. Tão distantes de tudo o que estava acontecendo entre nós. Era um contraste sufocante.

  – Princesa? — Perguntei, tentando forçar um sorriso.

Thaís imediatamente saltou no meu colo, com aquela energia pura e inocente que só ela tinha. Eu a segurei com força, aproveitando o momento, mas logo senti o peso do silêncio de Ananda ao meu lado. Ela estava lá, fisicamente, mas sua mente estava em algum outro lugar. Qualquer lugar longe de mim.

Ela ficou em silêncio o tempo todo, até se levantar discretamente, dizendo que ia pegar água. Eu sabia o que ela estava fazendo. Era óbvio que estava tentando evitar outra conversa, mas eu não podia deixar isso acontecer. Não podia deixar ela se distanciar mais.

Fui atrás dela na cozinha, decidido a acabar com essa barreira. A gente precisava resolver isso, e rápido.

  – Ananda, a gente precisa conversar — falei, me encostando no batente da porta.

Ela estava de costas, enchendo um copo d'água, mas seu corpo tenso mostrava que ela sabia que eu estava ali, pronto para pressionar.

  – Richard, não agora — respondeu, a voz já carregada de cansaço.

Ignorei. Eu sabia que se esperasse mais, ela só continuaria a me afastar.

  – Não dá para continuar assim. Eu estou fazendo o possível aqui. Você precisa me dar uma chance, porra.

Ela ficou quieta por alguns segundos antes de finalmente falar, sem sequer se virar para me olhar.

  – Quantas vezes você já disse isso? Quantas vezes você prometeu que as coisas iam mudar e tudo continua igual?

Aquilo me irritou. Eu estava ali, tentando resolver as coisas, e ela parecia completamente fechada, como se eu fosse o único culpado por tudo isso. Aproximei-me, estendendo a mão para tocar Nanda, mas ela recuou, e aquilo mexeu comigo de um jeito que eu não esperava.

  – Sabe, Ananda, você está agindo como se eu tivesse feito alguma coisa imperdoável. Eu nunca te traí, nunca fiz nada de errado! Acha que é fácil pra mim? E toda essa história de Nicole? Eu nunca fiz nada com ela! Você tá colocando coisas na sua cabeça!

O nome escapou da minha boca antes que eu pudesse me controlar. Nicole. Droga.

Vi o corpo de Ananda ficar completamente imóvel por um segundo, e então ela se virou devagar. O olhar dela, que antes estava frio, agora era algo mais profundo. Desprezo.

  – Nicole? — A voz dela saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de incredulidade. — Você teve a coragem de colocar o nome dela nessa conversa?

Eu fiquei mudo. Sabia que tinha pisado feio. Abri a boca para dizer algo, qualquer coisa, mas nada saiu. Eu me senti preso, como se estivesse sufocando nas minhas próprias palavras.

Ananda deu uma risada amarga e balançou a cabeça, como se estivesse finalmente enxergando algo que ela não queria ver antes.

  – Eu estava errada. Você não entende nada, não é? Você não tem noção do quanto eu me senti humilhada toda vez que essa mulher aparecia, e agora você traz o nome dela como se eu estivesse sendo paranóica?

Tentei me justificar, mas ela ergueu a mão, me interrompendo.

  – Não... você disse tudo o que eu precisava ouvir.

Ela me passou como se eu fosse nada, saindo da cozinha e me deixando ali, com a garganta seca e o peito apertado. Eu queria gritar, queria correr atrás dela, mas algo dentro de mim me dizia que eu já tinha causado dano o suficiente por hoje.



Vamos chutar o Richard? Fico assim com a Thaís por ela pensar que o pai é o melhor do mundo.

Enfim, votem e comentem ♡

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora