Dia 59

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Ananda

Acordei com uma leve sensação de tensão ainda pairando no ar. Desde que voltamos para casa, Richard estava me tratando com um silêncio cortante. E por mais que eu quisesse ignorar, isso me atingia. Ele não havia mencionado uma palavra sequer sobre o que aconteceu no posto, apenas se trancou em si mesmo, e estava claro que algo estava errado. Me perguntei até quando ele manteria essa postura de ignorar em vez de conversar. Respirei fundo, sentindo o cansaço emocional se acumulando.

Levantei-me com cuidado para não acordar Thaís e fui até a cozinha preparar o café da manhã. Ouvi Richard descendo as escadas em silêncio, e por um momento esperei que ele me dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Mas ele apenas pegou um copo d'água, sem trocar uma única palavra, com o rosto fechado.

Engoli a irritação, decidida a não dar corda para aquele silêncio gélido. Terminei de organizar as coisas de Thaís para a escola e fui acordá-la. Preparei ela com calma, mesmo ainda com o rostinho sonolento, me deu um abraço forte.

  – Hoje a mamãe vai deixar você na escola, tá bom? — falei para ela, sorrindo, enquanto lhe ajeitava a mochila.

Ela assentiu, um sorriso sonolento no rosto. Richard ainda estava pela cozinha, mas não fez menção de se despedir ou sequer de falar com Thaís, e aquilo foi a última gota para mim. Me virei e saí de casa sem olhar para ele.

No caminho, Thaís cantarolava algumas músicas, o que ajudou a acalmar meus pensamentos, mesmo que temporariamente. Chegando na escola, dei-lhe um beijo carinhoso na testa e a vi correr para junto dos amiguinhos. Respirei fundo e, assim que me afastei, peguei o celular para mandar uma mensagem rápida para Camila.

"Pode me encontrar na cafeteria perto do trabalho? Preciso conversar."

Ela respondeu quase que instantaneamente, confirmando. Dirigi até a cafeteria, o peso no peito diminuindo levemente ao saber que logo teria alguém para desabafar. Pedi um café e me sentei numa mesa no canto, esperando por ela.

Em poucos minutos, vi Camila atravessando a entrada, com um sorriso simpático. Levantei-me para cumprimentá-la, e ela logo percebeu meu semblante cansado e preocupado.

  – O que houve, Nanda? — ela perguntou, preocupada.

Suspirei e tomei um gole do café antes de começar a falar.

  – Ah, Mila... foi tanta coisa acumulada nessa viagem que nem sei por onde começar.

Ela sorriu com compreensão, apoiando os cotovelos na mesa e me encarando com atenção.

  — Calma, me conta com calma. — ela disse, me incentivando.

Comecei do início, contando como a viagem a Campos do Jordão tinha sido tanto um alívio quanto uma complicação. Falei sobre como a relação entre mim e Richard parecia ter dado sinais de melhora, mas também de como as inseguranças e os silêncios estavam criando uma barreira entre nós.

  – E o pior — suspirei, cruzando os braços sobre a mesa, sentindo um misto de raiva e frustração tomar conta de mim — Foi o que aconteceu na volta, quando paramos num posto para levar Thaís ao banheiro. Um frentista deu em cima de mim, Camila. Descaradamente. Eu me afastei, deixei claro que estava ali com minha família, mas você conhece o Richard, né?

Ela revirou os olhos, sabendo exatamente o que eu queria dizer.

  – Não acredito que ele surtou, Nanda... — ela comentou, como se já soubesse onde isso ia parar.

  – Não abertamente, porque nem teve discussão. Mas, desde então, ele está me tratando com o silêncio. Ele viu tudo, Camila, e eu juro que fiz tudo o que pude para cortar a situação, mas não adiantou. Agora ele está me ignorando, como se eu fosse culpada de alguma coisa.

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora