Dia 77

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Richard

Eu fiquei na cama por um tempo depois que a Nanda saiu para trabalhar. O silêncio da casa parecia tão alto que chegava a sufocar. Eu olhava para o teto, tentando encontrar alguma lógica em tudo o que estava acontecendo entre a gente, mas a única coisa que eu sentia era um vazio. Um vazio que parecia crescer cada vez mais toda vez que eu dividia aquela cama com ela.

A gente não dormia mais em paz. Cada lado da cama era como um território isolado, com uma barreira invisível no meio. Eu podia ouvir a respiração dela, sentir a presença dela, mas era como se estivéssemos a quilômetros de distância. Isso era saudável? Para mim? Para ela?

Eu suspirei, me sentando na cama. Minha cabeça martelava com a mesma pergunta há dias: até quando eu ia me enganar? E pior... até quando eu ia enganar a Nanda? Talvez ela já soubesse. Talvez, no fundo, ela estivesse tão cansada disso quanto eu.

Depois do treino, voltei para casa no horário do almoço. A casa estava silenciosa, como sempre, só o som distante do relógio de parede na sala preenchia o ambiente. Eu me servi de um copo d'água e fiquei parado ali, olhando para o nada na cozinha.

Foi nesse momento que decidi. Não dava mais para fingir que estava tudo bem. Dormir ao lado dela, no mesmo quarto, estava me corroendo, me matando aos poucos. Se continuar assim ia me destruir, e talvez levasse o pouco que restava de nós junto.

Subi as escadas devagar, cada passo me deixando mais certo de que essa era a coisa certa a fazer. Quando entrei no quarto, o cheiro dela ainda estava impregnado no ar, misturado ao perfume que ela sempre usava. Caminhei até o closet, abrindo a porta devagar.

Peguei uma mala pequena primeiro, aquelas coisas que a gente usa no dia a dia. Minhas camisetas, meus shorts, algumas calças... Eu nem queria fazer muito barulho. Não queria que a Nanda soubesse disso ainda. Isso era algo que eu precisava fazer por mim mesmo, antes de qualquer coisa.

Conforme fui tirando as roupas do armário, comecei a sentir um peso no peito. Era estranho, sabe? Como se cada peça de roupa que eu tirava dali fosse arrancando um pedaço da minha história com ela. De repente, parecia que tudo estava acabando de verdade.

Passei no banheiro, peguei minhas coisas também. Escova de dentes, barbeador, aquele perfume que ela me deu no aniversário. Cada item que eu jogava na mala parecia me lembrar de um momento que a gente viveu junto, de tudo o que a gente tinha construído.

Quando terminei de colocar as coisas no quarto de hóspedes, olhei ao redor. Era um quarto pequeno, sem muita coisa, só uma cama de solteiro, uma mesa de cabeceira e um armário. Um espaço que não era meu, mas que, a partir daquele momento, seria.

Arrumei minhas coisas devagar, tentando digerir a decisão que eu tinha acabado de tomar. A janela do quarto dava para o quintal, onde a Thaís adorava brincar. Talvez isso fosse bom. Ficar mais perto dela, ter um espaço onde eu pudesse pensar.

Mas, no fundo, o que eu sentia mesmo era uma tristeza enorme. Não pela decisão de sair do quarto, mas porque eu sabia que isso era só mais um passo para o fim. E o pior... é que talvez nem fosse o fim do casamento, mas o fim de quem eu era com a Nanda.

Eu me sentei na cama, olhando para a mala ainda aberta no chão. Aquele quarto parecia um reflexo do que estava acontecendo dentro de mim: vazio, frio, sem cor. Eu só queria que, de alguma forma, tudo isso fosse diferente. Mas, no momento, essa parecia ser a única escolha que eu tinha.


Ananda

Depois de um longo dia no trabalho, peguei a Thaís na escola. Ela estava animada, como sempre, contando sobre as brincadeiras no recreio e as músicas que estava ensaiando para a próxima apresentação. Era bom vê-la assim, tão cheia de energia, tão alheia ao que estava acontecendo entre mim e o Richard.

Chegamos em casa e subi com ela até o quarto para ajudá-la a trocar de roupa. Enquanto ela descia para brincar na sala, fui até o meu quarto. Assim que abri a porta, algo pareceu errado. O closet. Um lado dele estava vazio.

Fiquei parada por alguns segundos, absorvendo o que eu via. O lado que antes era preenchido com as roupas do Richard estava completamente vazio, como se ele tivesse desaparecido. Meu coração apertou. Respirei fundo, tentando não tirar conclusões precipitadas. Talvez ele tivesse feito uma reorganização... ou algo assim?

Saí do quarto e comecei a andar pela casa. Fui para o primeiro quarto de hóspedes, empurrando a porta devagar. Estava vazio, arrumado como sempre. Passei para o segundo quarto, mas a cena se repetiu. Nada.

Finalmente, cheguei ao último quarto no corredor, o que ficava ao lado do da Thaís. Quando abri a porta, vi o Richard sentado na cama, mexendo no celular. Ele estava sério, quieto, quase perdido em seus próprios pensamentos.

  – O que está acontecendo, Richard? — perguntei, encostando no batente da porta.

Ele levantou a cabeça devagar, parecendo surpreso por me ver ali, mas logo sua expressão voltou ao semblante fechado.

  – Decidi mudar para cá — respondeu simplesmente.

  – Como assim? — entendi o que ele queria dizer, mas não consegui evitar perguntar. — Por que tirou todas as suas coisas do closet?

Ele suspirou e passou as mãos pelo rosto antes de olhar para mim novamente.

  – Olha, Nanda, a gente sabe que as coisas não estão bem. Estamos terminando o processo de divórcio, e o clima entre nós... — Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo bem as palavras. — Está sufocante. Achei que seria melhor assim, dar um pouco mais de espaço para você.

Ouvindo aquilo, senti um aperto no peito. Eu não sabia exatamente por que, mas aquelas palavras me abalaram. Talvez fosse a ideia de que, mesmo dividindo a casa, ele estava, de certa forma, se afastando de vez. Era um passo que me fazia encarar o que estávamos vivendo de uma forma ainda mais real.

  – Então é isso? — perguntei, tentando esconder o tom de tristeza na voz.

  – É. Acho que é o melhor para nós dois, pelo menos por enquanto.

Fiquei em silêncio por um momento, olhando para ele. Eu podia ver que essa decisão não foi fácil para o Richard. Ele estava sério, mas os olhos denunciavam um cansaço, uma tristeza que ele tentava esconder.

  – Eu entendo sua decisão, Richard, mas... por favor, não diga nada para a Thaís ainda, tá? — pedi, sentindo um nó se formar na garganta. — Eu vou conversar com ela no momento certo.

Ele assentiu, compreendendo a gravidade do pedido.

  – Claro, Nanda. Não vou falar nada.

Ficamos em silêncio por um momento, apenas nos olhando. Não era como antes, quando o silêncio entre nós era confortável. Agora, parecia cheio de palavras não ditas, cheio de sentimentos que ambos estávamos tentando ignorar.

  – Bom, vou deixar você terminar de se organizar — falei, finalmente quebrando o silêncio.

Ele apenas assentiu, voltando a olhar para as mãos. Fechei a porta devagar, sem saber exatamente como me sentir.

Caminhei de volta para o meu quarto, tentando processar tudo. Era isso. Mais um sinal de que, apesar de ainda estarmos sob o mesmo teto, nossas vidas estavam tomando caminhos completamente diferentes.

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora