Dia 64

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Ananda

Eu estava no sofá da sala, revisando alguns e-mails do trabalho no celular, quando a notificação da mensagem da minha mãe apareceu na tela. Suspirei antes mesmo de abrir, já imaginando o tom insistente que ela usaria para me convencer de alguma coisa. E não me enganei. A mensagem era clara e direta:

"Ananda, vamos fazer um almoço em família aqui no Rio de Janeiro no próximo fim de semana. Quero você, o Richard e a Thaís aqui comigo. Venha, filha, vai ser bom para todo mundo."

Mordi o lábio, sentindo uma mistura de emoções. Era raro minha mãe insistir tanto, o que significava que aquele almoço provavelmente teria algo mais. Talvez um anúncio? Ou talvez ela só quisesse reunir a família antes de voltar definitivamente para o Rio. Não que isso tornasse a ideia mais atraente para mim. Eu ainda estava processando a mudança dela e, sinceramente, viajar para o Rio para um almoço de família parecia desgastante.

  – Tudo bem, Nanda? — A voz do Richard me tirou dos meus pensamentos. Ele apareceu na sala, secando as mãos com um pano, provavelmente depois de lavar algo na cozinha.

  – Recebi uma mensagem da minha mãe — comecei, olhando para ele. — Ela quer que a gente vá para o Rio no fim de semana. Almoço em família.

Richard ergueu uma sobrancelha, um sorriso curioso começando a aparecer.

  – Almoço em família, hein? E você tá pensando em ir?

Dei de ombros, desviando o olhar.

  – Não sei. Sinceramente, tô cansada e não estou no clima para longas conversas ou perguntas indiscretas sobre o meu casamento... — falei, um pouco irritada só de imaginar os comentários típicos de uma reunião familiar.

Ele riu, aquele riso baixo e despreocupado que, mesmo sem querer, me tirava do sério.

  – Ah, morena... acho que deveria ir. Pode ser bom pra Thaís. Ela vai gostar de ver a outra parte da família.

Revirei os olhos, tentando ignorar o fato de que ele tinha razão. Thaís adorava passar tempo com a avó e os tios, e eu sabia que ela sentiria falta deles agora que minha mãe estaria mais longe.

  – Tá, mas e você? Quer ir? — perguntei, cruzando os braços.

Ele se encostou no batente da porta, o sorriso provocativo ainda presente.

  – Se você quer ir, eu vou. E, pra ser sincero, acho que vai ser divertido te ver lidando com as perguntas da sua família sobre mim.

Joguei uma almofada nele, mas não pude deixar de rir.

  – Você é insuportável, sabia?

  – Só às vezes. Mas sério, Nanda, acho que a gente devia ir. E olha, eu prometo me comportar.

Eu o encarei por alguns segundos, tentando decidir se aquilo era mesmo uma boa ideia. Parte de mim queria recusar, mas, ao mesmo tempo, sabia que minha mãe ficaria feliz em nos receber.

  – Tá bom, Richard. Vamos. Mas não quero ouvir um "eu te avisei" caso seja um desastre, entendeu?

  — Combinado — ele respondeu, ainda rindo. — Vou preparar as malas, então.

Suspirei novamente, mas dessa vez havia algo mais leve no meu peito. Mesmo relutante, sabia que Richard estava certo. Thaís merecia esse tempo com a família, e talvez... só talvez... seria bom para mim também.

Richard

Assim que Ananda concordou em ir para o almoço no Rio, fui direto para o quarto arrumar as malas. Claro que, em teoria, isso deveria ser um processo simples: pegar algumas roupas, organizar as coisas da Thaís e pronto. Mas nada era tão fácil quando se tratava da minha filha.

  – Papai, o que você tá fazendo? — ouvi a vozinha da Thaís atrás de mim, já sabendo que ela vinha cheia de energia para me distrair.

  – Estou arrumando nossas malas para a viagem — respondi, tentando parecer ocupado o suficiente para desencorajá-la de começar alguma bagunça.

Ela subiu na cama e começou a pular, rindo.

  – Eu quero ajudar!

  – Thaís, não precisa, papai já tá resolvendo tudo — falei, pegando uma lista no celular que a Ananda tinha me mandado para não esquecer nada. "Brinquedos essenciais", "roupas para o calor e para o frio", "lanchinhos para o carro"... parecia mais uma missão do que uma lista.

  – Eu quero ajudar! — ela repetiu, agora tentando pegar as roupas que eu tinha separado.

Segurei um suspiro, me virando para ela.

  – Thaís, senta ali e fica quietinha. Papai tá tentando organizar tudo, e se você ficar mexendo, a gente vai esquecer alguma coisa.

  – Mas eu quero brincar! — ela protestou, cruzando os braços com aquele biquinho que eu conhecia tão bem.

Era um teste de paciência. Respirei fundo e decidi apelar para algo infalível.

  – Se você se comportar, ficar bem quietinha enquanto o papai termina aqui... eu te dou um doce.

Os olhos dela brilharam.

  – Escondido da mamãe?

Ri baixinho, abaixando até ficar na altura dela.

  – Só dessa vez, mas tem que ser segredo nosso, tá bom?

Ela sorriu de orelha a orelha e correu para sentar na cadeira ao lado da cama, balançando os pezinhos.

  – Tá bom, papai!

Aproveitei o raro momento de paz para continuar organizando as coisas. Peguei os brinquedos favoritos dela — a boneca de cabelo azul, o livrinho interativo e o urso que ela não largava de jeito nenhum. Depois, roupas suficientes para o fim de semana, sempre seguindo a lista da Nanda para não cometer nenhum erro que pudesse render um sermão depois.

  – Papai, tá demorando muito — Thaís reclamou, olhando para mim com cara de impaciência.

  – Já tô terminando, minha pequena. Só mais um pouquinho, tá?

Ela suspirou dramaticamente, mas ficou quietinha. Terminei de fechar a mala dela e comecei a separar minhas próprias coisas. Enquanto fazia isso, pensei em como a Nanda tinha mudado desde Campos. Mesmo com os altos e baixos, parecia que algo estava mais estável entre nós. Eu só precisava continuar mostrando que podia ser o homem que ela merecia.

Quando finalmente terminei, Thaís já estava na metade de um desenho que tinha começado com uma caneta e um papel que encontrou em algum lugar.

  – Pronto, mocinha, terminamos.

  – Agora posso ganhar o doce? — ela perguntou, animada, pulando da cadeira.

  – Pode, mas lembra... segredo nosso.

Ela fez o gesto de zíper na boca, e eu ri, pegando um chocolatinho da gaveta e entregando a ela.

  – Obrigada, papai! Você é o melhor!

  – E você é minha parceira. Agora vai lá brincar enquanto o papai guarda tudo no carro, tá?

Ela saiu correndo, e eu fiquei olhando por um momento, sorrindo. Arrumar malas era sempre uma tarefa complicada, mas, com Thaís, tudo ganhava um toque especial. Eu só precisava garantir que o fim de semana fosse tranquilo para ela e... quem sabe, para mim e Ananda também.

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora