Dia 20

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Richard

O clima no vestiário estava animado, mas minha cabeça estava em outro lugar. Sorrindo para mim mesmo, me sentei no banco enquanto esperava o treino começar. Eu tinha boas notícias para compartilhar, e sabia exatamente com quem falar.

Assim que Joaquín passou pela porta, já fui chamando:

  – Joaco! Preciso te contar uma coisa! — falei, não escondendo a empolgação.

Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado, mas se aproximou com aquele sorriso meio debochado que ele sempre dava quando sabia que eu estava prestes a falar algo importante.

  – O que foi agora, Ricardito? — perguntou, largando a mochila no banco ao lado.

Me aproximei mais, como se estivesse revelando um grande segredo, e baixei um pouco a voz.

  – Eu e a Nanda... estamos bem! — disse, orgulhoso. — Acho que ela vai desistir do divórcio.

Joaquín me olhou com uma expressão cética, cruzando os braços enquanto se apoiava na parede.

  – Sério? E o que te faz ter tanta certeza disso? — ele perguntou, claramente menos animado que eu.

  – Cara, a gente passou a noite juntos — continuei, sem conseguir esconder o sorriso. — Ela estava toda amorosa, as coisas entre nós estão fluindo de novo. Até fiz café da manhã pra ela esses dias. Sabe como é... o velho Richard tá de volta!

Joaquín soltou uma risada curta, mas não parecia compartilhar do meu entusiasmo.

  – Olha, fico feliz por você... mas você acha mesmo que isso vai fazer ela cancelar o divórcio? — ele perguntou, ainda desconfiado. — Não é só uma fase boa antes da tempestade?

Fiz um gesto com a mão, minimizando o que ele dizia. Joaquín sempre foi o cara cético, mas dessa vez, eu sabia que estava certo.

  – Você não viu, Joaco. Ela tava sorrindo, cara. Eu a conheço. A Nanda tá voltando pro que a gente era antes. Tenho certeza de que ela vai perceber que a gente pode ser feliz de novo, e vai deixar essa ideia de divórcio pra trás.

Ele me olhou por alguns segundos, tentando ler a situação. A verdade é que eu estava tão confiante, tão seguro de que tudo estava voltando ao normal, que nem passava pela minha cabeça que ainda havia chances de dar errado.

  – Tá certo... Se você tá dizendo... — Joaquín começou, mas seu tom era cauteloso. — Só não se esquece que, no fundo, o problema de vocês não é só sobre uma ou duas boas noites, mano. Se a Nanda tava falando de divórcio, tem algo maior aí.

Revirei os olhos, tentando afastar a negatividade.

  – Eu sei, eu sei. Mas eu tô resolvendo. Vou mostrar pra ela que eu posso ser o cara que ela sempre quis. Já comecei, e ela já tá vendo. Tá tudo no controle, irmão.

Joaquín balançou a cabeça, com um meio sorriso.

  – Bom, você tá confiante, pelo menos. Mas eu te aviso de novo: se ela pediu o divórcio, não é por um capricho. Seja o Richard que conquistou ela lá atrás, como eu já te falei antes. Não é só sobre momentos bonitos, mas sobre o dia a dia, sobre ser parceiro de verdade.

Eu respirei fundo, absorvendo o que ele dizia. Claro, havia problemas maiores, mas eu realmente acreditava que tudo estava mudando. A maneira como Nanda estava comigo, o jeito como ela olhou para mim nos últimos dias... não tinha como ela continuar querendo o divórcio. Eu tinha certeza de que ela estava começando a perceber que ainda éramos bons juntos.

  – Vou mostrar pra ela que não precisa disso, Joaco. Eu sei que posso. E vou fazer.

Joaquín deu de ombros, voltando a se preparar para o treino.

  – Então vai em frente, irmão. Só cuidado pra não quebrar a cara de novo.

Soltei uma risada curta, mas internamente, a confiança permanecia intacta. Eu tinha o controle dessa situação. A Nanda e eu estávamos bem, e eu ia garantir que ficássemos assim. Nada de divórcio. Não depois do que vivemos nas últimas noites.

Ananda

Sentei na cadeira do escritório do advogado, o coração batendo pesado no peito. O ambiente frio e formal contrastava com o turbilhão de emoções que me dominava. Olhei para os papéis à minha frente, aqueles que ditariam os próximos passos da minha vida. O divórcio estava finalmente tomando forma, e junto com ele, a divisão de bens.

  – Ananda, como conversamos, já que vocês têm um regime parcial de bens, só o que foi adquirido durante o casamento entra na divisão — explicou o advogado, passando os olhos pelas cláusulas detalhadas.

Eu assenti em silêncio. Metade de mim estava aliviada por finalmente colocar tudo isso em prática. A outra metade, no entanto, lutava contra o peso dessa decisão. Não era só sobre bens materiais, não era sobre a casa ou o carro. Era sobre fechar um capítulo. Sobre cortar o laço que, por mais desgastado que estivesse, ainda me prendia ao Richard.

  – Você tem certeza de que quer seguir com isso? — o advogado perguntou, com um tom mais cauteloso, percebendo a hesitação em meu olhar.

Eu respirei fundo, encarando os papéis. Richard sempre foi bom em me confundir. Em me fazer questionar se o que eu estava fazendo era certo. Nas últimas semanas, ele oscilava entre o homem que eu me apaixonei e o homem que me decepcionou tantas vezes. Quando ele queria, sabia ser aquele Richard carinhoso, dedicado, que fazia meu coração bater mais rápido. Mas também sabia ser egoísta, controlado pelo próprio orgulho, ignorando as necessidades da nossa família.

  – Tenho certeza — respondi, apesar da voz não soar tão firme quanto eu gostaria.

O advogado continuou a revisar os termos. A casa seria vendida, e o valor dividido entre nós. O carro também. As contas conjuntas seriam fechadas, e o dinheiro seria igualmente distribuído. Eu ficaria com os móveis que escolhi, e ele com os que restassem. Era simples no papel, mas a verdade era que, emocionalmente, tudo era um caos.

  – E sobre a guarda da Thaís? — ele perguntou, com o tom ainda mais cuidadoso. — Vocês decidiram se vai ser compartilhada?

Eu senti um aperto no peito ao ouvir o nome da minha filha. Ela era o ponto mais sensível em tudo isso. Por mais que eu soubesse que a separação era o certo, a ideia de dividir o tempo com a Thaís me deixava devastada. Como eu ia lidar com ela longe de mim? Como eu poderia confiar que Richard saberia ser o pai presente que ela merecia, quando ele mal sabia ser um bom marido?

  – Sim, vai ser compartilhada... — disse, a voz quase falhando.

Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu me segurei. Não era hora de desmoronar. Eu estava ali para finalizar o que deveria ter sido feito há muito tempo. Thaís precisava de estabilidade, e isso não aconteceria se eu continuasse nesse ciclo destrutivo com Richard.

  – Certo. Vamos deixar bem claro os períodos em que cada um terá a guarda — o advogado respondeu, anotando os detalhes. — E, claro, sobre o pagamento de pensão...

Eu sabia que Richard era um ótimo pai, quando ele se permitia ser. Mas eu estava cansada de esperar que ele mudasse, que ele fosse o homem que eu precisava que ele fosse, o parceiro que eu sonhei quando casamos. A realidade era dura, e eu precisava aceitar que o que tínhamos havia acabado.

  – Podemos continuar? — o advogado perguntou, me tirando dos meus pensamentos.

  – Sim, por favor — murmurei, enxugando discretamente uma lágrima que escapou.

Ele continuou detalhando os acordos, mas minha mente estava longe, vagando entre os momentos felizes que já tive com Richard e o presente doloroso que eu estava enfrentando. Eu sabia que a decisão de seguir com o divórcio era a melhor para mim, e para a Thaís também. Mas, naquele instante, sentada naquela sala de advogado, sentia o peso de tudo que estava perdendo.

Seria possível seguir em frente sem carregar essa culpa?

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora