Ananda
O despertador tocou às 5h30, mas eu já estava acordada. O sono foi algo que me escapou na última noite, como uma velha amiga que eu sabia que não veria tão cedo. Levantei devagar, tentando não fazer barulho para não acordar Thaís ou minha mãe. Hoje era um dia importante. Um dia definitivo.
O banheiro estava silencioso enquanto eu me olhava no espelho. Meu reflexo parecia cansado, os olhos denunciando as noites mal dormidas e as lágrimas que teimavam em cair, mas havia determinação ali também. Eu penteei os cabelos, ajeitei minha maquiagem discreta e vesti uma roupa que transmitisse seriedade: uma calça de alfaiataria preta, uma blusa bege e um blazer. Nada extravagante, apenas o necessário para encarar o que viria pela frente.
Desci para a cozinha e comecei a preparar o café. O aroma do café fresco preencheu o ambiente, trazendo uma sensação de calma passageira. Peguei a torradeira, fiz pão com manteiga e cortei algumas frutas. Eu sabia que minha mãe e Thaís acordariam em breve, e queria deixar tudo pronto.
Antes de sair, escrevi um bilhete e o deixei na mesa ao lado do café da manhã.
"Mãe, já estou indo para a audiência. Obrigada por ficar com a Thaís hoje. Vou tentar voltar rápido. Beijos, Nanda."
Olhei pela última vez para a cozinha arrumada, respirei fundo e saí.
O tribunal parecia mais intimidador do que eu esperava. A luz fluorescente era fria, o ar estava carregado de formalidade, e as paredes, com suas cores neutras, pareciam absorver qualquer emoção. Eu segurei minha bolsa com firmeza, tentando acalmar as mãos trêmulas.
Richard chegou pouco depois de mim. Ele estava vestido de forma impecável, como sempre, mas o rosto dele parecia diferente hoje. Havia um ar de cansaço, de algo inacabado, e nossos olhos se encontraram por um momento antes de desviarmos o olhar.
Nos sentamos lado a lado, mas não próximos. Havia um abismo entre nós que ia além das cadeiras. O juiz entrou na sala, seguido pelo advogado de Richard e pelo meu. Os procedimentos começaram rapidamente, e cada palavra parecia pesar mais que a anterior.
Meu advogado apresentou o caso, explicando que o divórcio era consensual, que já tínhamos acordado os termos da guarda da Thaís, e que estávamos ali para finalizar tudo. Cada palavra era um lembrete do que estávamos perdendo, mas também do que eu precisava deixar ir.
O juiz nos olhou, sua voz firme e neutra.
– Antes de concluir, gostaria de ouvir ambas as partes. Senhora Ananda, deseja dizer algo?
Olhei para Richard. Ele me observava com uma mistura de expectativa e receio. Respirei fundo e me levantei.
– Sim, Excelência.
Minha voz estava firme, mas meu coração batia forte.
– Eu gostaria de agradecer ao Richard pelos últimos seis anos. Apesar de tudo, eu sei que tivemos momentos incríveis juntos, momentos que moldaram quem eu sou hoje. Eu serei eternamente grata por ele ter me proporcionado a maior alegria da minha vida, que é ser a mãe da Thaís.
Senti meus olhos arderem, mas continuei.
– Nosso casamento foi um aprendizado, e, mesmo que estejamos encerrando essa fase, eu espero que possamos encontrar uma forma de manter o respeito e a parceria, principalmente por nossa filha.
Voltei a me sentar, e o silêncio na sala parecia ensurdecedor.
– Senhor Richard, deseja dizer algo? — perguntou o juiz.
Richard
A sala do tribunal parecia fria e distante, mesmo com o ar-condicionado desligado. O silêncio ali dentro era quase tão pesado quanto o que estava entre mim e Nanda nos últimos meses.
Enquanto esperávamos o início da audiência, eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela estava tão serena, tão inabalável, mas eu conhecia cada detalhe daquele rosto e sabia que por trás daquela expressão havia dor. Uma dor que eu causei.
Quando o juiz entrou, o peso da situação caiu sobre mim como uma avalanche. Era real. Era o fim. Ele iniciou os procedimentos, e cada palavra parecia ecoar como um martelo na minha cabeça.
– Este é um divórcio consensual, correto? — perguntou o juiz, olhando entre nós dois.
– Sim, Excelência — respondi, mesmo que minha voz saísse quase num sussurro.
Nanda respondeu logo em seguida, com a voz firme que sempre admirei.
O advogado dela expôs os termos do divórcio: divisão de bens, guarda compartilhada da Thaís, acordos sobre visitas. Tudo já estava definido, tudo parecia tão... simples no papel. Mas nada disso era simples.
Quando o juiz nos deu a oportunidade de falar, Nanda foi a primeira. As palavras dela foram gentis, mas firmes, e cada uma delas parecia uma faca cravando em mim. Ela agradeceu pelos anos que passamos juntos, pelo que construímos, e principalmente por termos Thaís. Mas, ao mesmo tempo, ficou claro que ela estava pronta para seguir em frente.
Quando chegou a minha vez, minha mente parecia um caos. Eu sabia o que precisava dizer, mas as palavras lutavam para sair. Levantei-me, olhando para ela, mesmo que fosse difícil.
– Excelência, eu gostaria de dizer algo.
O juiz assentiu, me dando permissão.
– Ananda...
A garganta apertou, e precisei respirar fundo para continuar.
– Eu me sinto culpado, todos os dias, por termos chegado a este ponto.
Minhas mãos estavam trêmulas, então apertei o banco em que estava sentado para me firmar.
– Eu sei que cometi muitos erros. Erros que machucaram você, que nos trouxeram aqui. E, apesar de tudo, eu sempre achei que poderíamos consertar as coisas.
Ela não desviou o olhar, mas seus olhos estavam brilhando de lágrimas que ela se recusava a deixar cair.
– Mas hoje eu entendo que você não merece viver assim. Você merece alguém que te trate como prioridade, que valorize cada momento ao seu lado. E eu sei que, muitas vezes, falhei em ser esse homem.
A sala estava em silêncio absoluto, e eu senti como se fosse a única coisa se movendo naquele espaço, tentando desesperadamente manter alguma dignidade.
– Vou assinar esses papéis porque te amo. Não porque quero, mas porque você merece ser feliz. Mesmo que não seja comigo.
Minha voz falhou no final, mas eu precisava continuar.
– Eu sempre vou amar você, Nanda. E sempre vou ser grato por tudo o que vivemos. Por tudo o que você me ensinou. E, principalmente, por termos criado a Thaís juntos.
Ela respirou fundo, mas não disse nada. Talvez não tivesse nada para dizer.
Voltei a me sentar, e o juiz prosseguiu com a audiência. Quando ele declarou que o divórcio estava oficializado, senti como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés. Era isso. Estava feito.
Quando saímos da sala, eu me mantive atrás dela, observando enquanto ela caminhava com a mesma determinação que sempre teve. Nanda era assim: forte, resiliente. E agora ela estava seguindo em frente, sem mim.
Parei no corredor, observando-a desaparecer pela porta de saída. Por um momento, pensei em chamá-la, mas o que eu poderia dizer? Não havia mais nada.
Naquele momento, percebi que o amor que sentia por ela nunca ia embora, mas talvez isso fosse o que eu precisasse carregar. Um lembrete constante de que o amor não é suficiente sem respeito, sem prioridade, sem compromisso.
Agora, tudo o que me restava era aceitar. Aceitar que o melhor que eu podia fazer por ela era deixá-la ir.
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Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard Ríos
FanfictionOnde Ananda e Richard estão se divorciando ᴄᴏᴘʏʀɪɢʜᴛ ᴡɪᴋɪᴍᴀʏʙᴀɴᴋ ꜱᴇᴛᴇᴍʙʀᴏ 𝟸𝟶𝟸𝟺 Recomendação: +18 anos Conteúdo Adulto Não permito, nem autorizo nenhum tipo de adaptação dessa fic!
