Dia 54

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Ananda

O primeiro dia em Campos do Jordão amanheceu frio, com a neblina delicada cobrindo o quintal da casa que alugamos. Thaís estava agitada, ansiosa para explorar tudo que visse pela frente, e, mesmo com a conversa franca de ontem, eu e Richard ainda estávamos pisando em ovos, como se houvesse uma tensão sutil nos nossos gestos e olhares.

Depois de me levantar e preparar um pouco do que levaríamos para o dia, decidi preparar um café da manhã mais caprichado do que o de costume. Se havia algo que eu sabia fazer bem era cozinhar, e talvez uma refeição quente e especial pudesse, quem sabe, ajudar a suavizar o clima entre nós. Com esse pensamento, fui para a cozinha e comecei a preparar uma mesa completa, com os sabores que sabíamos que Thaís adorava e algumas coisas que sabia que ele gostava.

Escolhi ingredientes frescos, a maioria comprada em um mercadinho local no dia anterior. Frutas, pães artesanais, bolos, geleias, e um bule grande de café quentinho que encheu o ambiente com um aroma acolhedor. Fiz questão de cortar as frutas em formatos diferentes, montando o prato de Thaís como uma pequena obra de arte — algo que ela amava. Preparei uma omelete recheada com queijo e presunto para Richard, com ervas finas que, eu sabia, ele gostava. Ao final, olhei para a mesa satisfeita. Não era apenas uma refeição; era uma forma de tentar reconstruir as pontes que pareciam ter se quebrado entre nós.

Pouco tempo depois, ouvi passos leves e, ao me virar, vi Richard entrando na cozinha com Thaís no colo, ainda com carinha de sono.

  – Que cheiro bom, mamãe! — Thaís sorriu, esfregando os olhos e me lançando aquele olhar de admiração infantil que só ela conseguia dar.

  – Preparada para o café da manhã mais especial da viagem, amor? — perguntei a ela, enquanto Richard a colocava na cadeirinha.

Ela acenou animada, e meu coração se aqueceu com aquela pureza dela. Olhei para Richard, esperando captar alguma reação. Ele me ofereceu um sorriso breve, educado, mas o calor parecia contido. Ainda assim, eu mantive minha paciência, tentando me lembrar do motivo pelo qual estávamos aqui e da decisão que tomei por nossa família.

  – Bom dia — ele murmurou, se sentando.

  – Bom dia, Richard. Espero que goste — disse, indicando a comida, e ele assentiu, aceitando um pedaço de omelete no prato, enquanto observava cada item na mesa com uma curiosidade silenciosa.

Tentamos manter o clima leve enquanto Thaís tagarelava sobre o que queria ver no centro, sobre os cavalos que tinha ouvido falar que podia ver e sobre as flores coloridas. Eu a incentivava, contando para ela como cada pedacinho de Campos do Jordão era especial e como o dia ia ser maravilhoso. Thaís parecia uma fonte de entusiasmo, transmitindo uma energia tão contagiante que não dava para não sorrir ao lado dela.

Olhei para Richard e me perguntei se ele também estava aproveitando aquele momento, se estava percebendo o quanto tudo isso era importante. Arrisquei iniciar um assunto mais leve.

  – Faz tempo que não fazíamos isso, não é? Viajar juntos... sem preocupações. — Sorri de leve, tentando abrir caminho para uma conversa mais natural.

Ele assentiu, mastigando devagar e me olhando de soslaio.

  – Verdade, faz bastante tempo — respondeu ele, com um tom que soava mais pensativo do que nostálgico.

  – Sei que... algumas coisas ainda estão complicadas — continuei, sem querer forçar, mas também determinada a quebrar aquela barreira que parecia persistir. — Mas acho que podemos fazer dessa viagem algo bom para a gente. A Thaís tem se divertido tanto com você ultimamente... e vê-la tão feliz deixa tudo mais leve, né?

Como Perder A Sua Mulher Em 80 dias | Richard RíosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora