- Roberto Nascimento
O BOPE não é responsável por busca e apreensão, mas quando é em uma região de difícil acesso ou de alto risco, a gente acaba se envolvendo. Nós lidamos com qualquer coisa que requeira uma atenção especial, e hoje foi assim. Suspeitavam que um caminhão carregado de munição e armamento bélico estava sendo contrabandeado, e o pior, policiais estavam envolvidos.
Esperava, observando atentamente, a troca que acontecia entre os PMs e os traficantes.
Não entra na minha cabeça como alguém que jurou dar a vida para proteger a população pode se submeter a isso. Não entra na minha cabeça como a ganância e a fome por dinheiro pode levar as pessoas a venderem sua dignidade dessa forma.
- Tá na mira, capitão. - 014 alvejava o quarteto composto por dois policiais e dois traficantes, enquanto observava a negociação.
Eu não sabia o que me irritava mais: os traficantes fortemente armados ou a incompetência da polícia convencional.
Na minha época, a PM tinha trinta mil homens e com esse tanto de gente dava pra derrotar o tráfico, só que os caras eram mal treinados e mal remunerados. Gente assim não pode andar com arma na mão.
- Caralho... Que vontade de meter tiro nesses filhos da puta.
- Qual deles, meu capitão? Só falar.
O meu batalhão só tinha cem policiais. Para cada arma que eu apreendia, apareciam mais três no lugar.
- 014, deixa os caras fazerem a entrega lá que o Renan segura eles lá embaixo.
- 01, da pra matar dois coelhos com uma porrada só aqui, hein.
- É cem porcento, 014?
- Caveira, capitão.
- Então senta o dedo nessa porra. - Pra mim, quem ajuda traficante a se armar também é inimigo.
Eu não sentia remorso em fazer o que devia ser feito. Eu não me importo com a vida de criminoso e isso não deveria ser uma surpresa. Eu não sei o que me deixava mais puto: ver policiais se envolvendo com essa porra, ou ver a criminalidade crescendo ainda mais. É como se tudo o que eu fizesse estivesse sendo em vão. Toda as noites longe de casa, todos os dias consumido pelo cansaço, todos os dias que não pude estar com o meu filho... Tudo isso é em vão porque policial vagabundo filho da puta vem e ajuda traficante a se armar.
Eu há estava cansado dessa guerra, mas eu só saio dela quando eu sentir que meu dever foi cumprido.
- Helena Magalhães
O céu já ameaçava cair sobre mim, quando desci as escadas. Não fiquei para ouvir o quão fútil eu sou, e a maneira como eu abandonei as crianças pelos meus princípios. Porra, é algo tão simples de se entender: Eu não vou contra os meus princípios por nada, porque, no fim, é tudo o que me resta. Você morrer sem dignidade é a pior coisa que pode acontecer.
Toda vez que me sinto diferente, seja o sentimento bom ou ruim, eu acabo aqui, observando esse mesmo mar. Toda a minha vida gira em torno dessa praia. Mas nada vai superar o que eu senti naquela noite, quando beijei Roberto pela primeira vez. Seus lábios tocando os meus e tirando toda a angústia que eu sentia. Toda a humilhação, toda a dor. Ele foi o meu remédio, a minha cura, e vem sendo. Nós continuamos sendo a paz um do outro, em meio a todo caos.
Deixei minhas pegadas na areia úmida, observando o mar refletindo a lua em suas ondas. Senti as curtas ondas baterem nos meus pés, se espalhando pela areia e sumindo com as minhas pegadas. Assim como elas estavam sumindo com qualquer rastro meu, sumiriam com qualquer resquício de arrependimento. Estou aqui porque decidi estar aqui. Me culpo por ter feito tudo isso, por ter me afastado de meus pais que, mesmo sendo daquele jeito tão conhecido, me amavam. Mas se me amavam, por que se afastaram quando decidi começar a tomar minhas próprias decisões e minhas escolhas?
VOCÊ ESTÁ LENDO
𝐵𝐸𝑇𝑊𝐸𝐸𝑁 𝑈𝑆| 𝐶𝑎𝑝𝑖𝑡𝑎𝑜 𝑁𝑎𝑠𝑐𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜
FanfictionAté onde você iria para alcançar seus objetivos? Até onde você iria por uma missão? . A resposta varia de pessoa para pessoa, mas, para o Capitão Roberto Nascimento e a escritora Helena Magalhães, o céu é o limite. Ao se ver estagnada no começo de...
