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— Helena Magalhães

Encarei a escadaria logo no início do Morro dos Prazeres, pensando seriamente se deveria subir. Roberto não gostaria de saber que estou numa favela novamente, mas eu já não obedeço ninguém além de mim mesma. Se é o que eu quero fazer, é o que eu vou fazer.

Subi os degraus, respirando com dificuldade graças ao exercício. Eu realmente preciso deixar esse sedentarismo de lado.

Eu e Clarita conversamos ainda mais enquanto comíamos um prato enorme de feijoada e um pudim de sobremesa. Ela me contou onde morava, me contou ainda mais sobre sua família e também me contou sobre projetos que a Casa Flor criou pra famílias como a dela.

Clarita passou pela porta que ficava bem próxima às escadas, então a segui. É bem grande aqui. Por fora, é um imóvel simples, mas o real cumprimento é escondido. Se parece muito com um galpão que foi reorganizado.

Passei pela porta, seguindo a pequena e altura criança, encarando as paredes pintadas de branco. Adentrando mais, encontramos um enorme salão. As paredes desse salão estão repletas de desenhos e rabiscos, além de alguns desenhos em folha de sulfite.

— Clarita! — Um pequeno garoto de cabelinhos cacheados se aproxima de nós, com um sorriso genuíno. — Quem é? — Seu cochicho foi alto o suficiente para que eu e Clarita escutassemos.

— É a tia Helena. Ela quer ver a tia Maria.

— Clarita! Onde a senhorita estava, huh? Posso saber? — Tinha ouvido passos leves atrás de nós, então me virei, dando de cara com uma mulher com os braços cruzados, fazendo uma careta de fúria fingida, encarando Clarita. O corpo da mulher era magro, e talvez tenha seus vinte e quatro anos. Se parece bastante comigo, exceto pelos cabelos e olhos.

— Estava com ela. — O dedinho gorducho e pequeno se esticou em minha direção, me dando mais visibilidade para a mulher.

— Oi. Tudo bem? — Um sorriso gentil me é oferecido enquanto sou cumprimentada com um aperto de mão. — Você tem algum parentesco com ela?

— Na verdade, não. Estávamos conversando e ela me contou sobre esse lugar. Gostaria de conhecer o trabalho de vocês. — Coloquei as mãos por dentro dos bolsos do macacão preto e fino que uso.

— Ah, claro. Ainda há muito mais crianças para chegar. — Por um lado, fico muito feliz de saber que há muitas crianças sendo ajudadas porque não sou inocente em pensar que não existem muitas crianças como Clarita, mas por outro, me entristece porque eu realmente não gostaria que todas essas crianças precisassem dessa ajuda. — Mas esse aqui é o Theo. Ele está conosco há dois anos.

— Sabia que meu dente caiu? — O pequeno corpinho se aproxima de mim, abrindo a boca, deixando a ausência do dente bem exposta para mim. Seus cachos são lindos e cheios, ocupando toda a cabeça e caindo sobre a testa. A pele negra reluz enquanto ele se afasta novamente, e os olhinhos pretos parecem duas jabuticabas que penetram a sua alma e limpam qualquer coisa que lhe aflige. Crianças têm esse poder.

— Meu Deus! Caiu mesmo. — Encaro ele, boauiaberta. — Você foi muito corajoso. Eu não teria essa coragem. — Estendo a mão, acariciando a bochecha do garoto.

— Deixa eu te apresentar as instalações...

....

— A letra “A” aparece no início do nome de quais dessas imagens? Na Amora, no avião, no maracujá, na janela ou no urso? — Apontei para o pequeno quadro improvisado que montamos, onde contém as imagens dos respectivos objetos.

A tarde já estava se finalizando. Clarita foi levada para a escola e as crianças que estudam pela manhã já vieram. Estou dando aula de reforço para eles hoje, ajudando na alfabetização. Há crianças de idades variadas por aqui, mas a maior quantidade está na faixa etária da alfabetização.

𝐵𝐸𝑇𝑊𝐸𝐸𝑁 𝑈𝑆| 𝐶𝑎𝑝𝑖𝑡𝑎𝑜 𝑁𝑎𝑠𝑐𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜Onde histórias criam vida. Descubra agora