58.

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— Roberto Nascimento

Helena ficou na viatura, enquanto subimos o Babilônia em busca de Baiano.

— Encosta! Encosta! — Neto ordenou para um rapaz que passava por nós. O homem logo obedeceu, se colocando na parede, e levantando a blusa. Só conferimos com um olhar, e logo deixamos que passasse.

O que eu tava fazendo não era certo. Eu não podia esculachar os moradores para encontrar o bandido, mas naquela altura do campeonato, amigo, tava valendo tudo. Nada nesse mundo ia me fazer parar.

— Manda tua equipe fazer um 360 ali encima, André. — Segurei o fuzil, apontando para o alto do morro. — Ali naquela entrada ali. Tem ninguém na pista não. Vamos entocar esses vagabundos casa por casa.

Essa guerra tinha deixado de ser profissional há muito tempo. Era um papo pessoal agora e eu não vou descansar até pegar aqueles vagabundos.

....

André estapeou o corpo do garoto deitado, enquanto eu o observava de cima. O moleque levantou assustado, não somente por estar sendo acordado dessa forma mas também por estar de frente com o BOPE. É bom que esteja com medo o suficiente para entregar se souber de algo.

— Bora, vagabundo. Acorda. Acorda.
— Bom dia, filho. — Cruzei os braços na frente do peito, encarando o garoto.
— Bom dia, senhor.
— Queria lhe pedir permissão para revistar sua casa.
— Sim, senhor.
— Posso ficar a vontade?
— A vontade.
— 04, da uma geral nesse armário aí. — Ordenei.

A todo momento eu observava o garoto, analisando se deixaria alguma expressão de medo, insegurança ou desespero surgir. Ele parecia bastante nervoso, mas não acho que seja só por causa da nossa presença.

— Ih, olha aqui... — 04 apareceu a minha frente com um sapato branco e azul, novo e bonito, que entrava em contraste com o barraco que o moleque morava.

— De onde vem esse tênis, filho? — Minha pergunta é totalmente óbvia, e a resposta também.
— Eu ganhei, senhor. — A voz trêmula e vacilante denunciava a mentira incontestável.
— Ganhou não, tu perdeu. Bora garoto. — Tatu puxou o moleque pela camisa, saindo do barraco com ele.

Caminhamos para a parte alta do morro, afastado da maioria das casas, onde ficava o barranco.

— É você o estudante? Sabe voar, estudante? — Segurei o moleque pela nuca, empurrando ele para a ponta do barranco.
— Não, senhor.
— Ajoelha aqui. Ajoelha aqui. — Assim que repeti pela segunda vez, fui obedecido. — Deixa eu falar uma coisa para você, filho... — Curvei o corpo, deixando meu rosto na altura do dele. — Eu nwo quero machucar você. Eu não quero que você saia daqui machucado. Cê entendeu?
— Sim, senhor.
— Cadê o Baiano? — Finalmente perguntei.
— Não sei não, meu senhor. — E a mentira misturada com o cinismo me irritava. Me irritava mais que muita coisa. Era óbvio que esse filho da puta sabia. Deixei a marca dos meus dedos na pele negra do garoto depois de ter dado um tapa forte nele.
— Fala, moleque. — Mathias gritou.
— Tá de má vontade. — E Tatu acrescentou.
— Vou te mostrar o saco, hein. — Todos os meus policiais estavam em conjunto pra fazer esse merdinha falar, mas ele estava irredutível, com um vitimismo forçado.

O moleque tinha caído com o tapa que eu havia dado, então Ordenei que o ajoelhassem a minha frente mais uma vez e assim foi feito.
— Filho, cadê o Baiano? — Perguntei mais uma vez, tentando parecer paciente. Acho que esse foi meu erro.
— Eu não sei. — E recebeu mais um tapa.
— Cadê o Baiano? — Perguntei mais uma vez.
— Eu não sei. — Eu não me cansava de estapear ele, e eu só vou parar depois que ele me der o que eu quero.
— Cadê o Baiano? — Tentei novamente, mas ele não dizia. — Bota ele no saco. Pode botar.
— Aí, capitão, não quer entregar não. Ta foda, capitão.

𝐵𝐸𝑇𝑊𝐸𝐸𝑁 𝑈𝑆| 𝐶𝑎𝑝𝑖𝑡𝑎𝑜 𝑁𝑎𝑠𝑐𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜Onde histórias criam vida. Descubra agora