— Helena Magalhães
A ansiedade está me causando dor de barriga. Juro, como que as pessoas vivenciam isso tantas vezes?
Espero, ansiosamente, no segundo piso da enorme joalheria, encarando meus dedos das mãos.
Ontem a tarde recebi uma mensagem para vir até a joalheria porque gostaram de mim. Isso é bom. Mas ainda assim me causa uma ansiedade tamanha. Estarei em prova, sendo analisada e julgada se sou boa o suficiente para vender jóias para ricos como meu pai e tio Nilo, ou para ricas como a minha mãe... É, eu consigo lidar com isso.
Uma coisa eu preciso agradecer à dona Marília; aprendi com ela a lidar com pessoas temperamentais.
Lidar com o julgamento de uma pessoa que não me conhece é muito mais fácil que lidar com os julgamentos da minha mãe.
Logo vi o rostinho conhecido da moça que me atendeu naquele dia, me chamando para entrar.
Levantei calmamente, fazendo todo um teatro de autoconfiança e postura, enquanto caminhava lindamente com meu scarpin preto. Não queria vir muito elegante e nem muito despojada; o suficiente para passar uma boa imagem mas também o suficiente para não me confundirem com a dona da loja.
Entrei na sala confortável, inspirando o cheiro do ar-condicionado. Eu amo esse cheirinho que fica.
— Bom dia. — Falei baixo, com um sorriso no rosto. Postura, Helena. Postura.
Minha mãe, embora seja uma pessoa difícil, sempre me ensinou como me portar nos lugares. Eu sei ser bem educada, tal como ela, e sei ser simpática, tal como papai. Ambos me ensinaram a ser uma pessoa boa, apesar dos pesares.
— Bom dia... Helena, não é? — Quem estava dentro da sala, na verdade, era um rapaz. Um rosto um pouco mais velho e enrugado que o meu. Ótimo, agora estou ainda mais nervosa.
Mulheres tendem a ser mais empáticas, e homens tendem a julgarem mais.
— Sim. — Mantive a firmeza na voz, mas com delicadeza, me sentei na cadeira a minha frente.
— Eu me chamo Renato Rocha, sou diretor de gestão de pessoas da Luxuly. É um prazer. — Me fala um pouco de você, Helena. — Eu sou muito modesta para falar de mim. Ou melhor, talvez eu não me conheça tão bem para dizer quais são as minhas qualidades mais impactantes e meus defeitos mais terríveis, mas eu treinei isso.
— Eu sou formada em letras, sou apaixonada pela escrita... — Eu nunca fui em entrevistas de emprego, mas eu acho que ele deveria estar anotando. Ele só me olha. — Costumo ser uma pessoa bastante proativa. É uma qualidade em mim que eu gosto bastante porque todo mundo deveria ser assim, sabe? Proatividade é o que falta no mundo. Mas, modesta parte, gosto de dizer que minha maior qualidade é a lealdade. Lealdade para mim é algo de valor imensurável — Não sei o que lealdade pode me ajudar em vender jóias, mas essa é uma verdadeira qualidade minha e eu gostaria de falar.
....
Ficamos conversando por bastante tempo. Tempo o suficiente para que eu achei que esse emprego está no papo. Não vi outras candidatas e sequer sabia qual cargo ocuparia, mas tudo o que eu preciso é de um salário.
A estética do Morro dos Prazeres é tão acolhedora, apesar das terríveis características. Os ladrilhos da ladeira, as casar coloridas sem a estética minimalista, até as roupas penduradas em cordas na laje das casas. Tudo é tão simples, tão pobre, mas tão bonito.
Caminhei mais, chegando perto do campinho. Havia crianças jogando; meninos e meninas. Juntos. É até um pouco estranho de ver.
A bola rolava de um pé para o outro, levando consigo poeira e meus pensamentos tão controversos. Eu amo estar aqui, ver essas pessoas, mas odeio estar aqui e ver aquelas pessoas. Aquelas pessoas em específico.
— Aí, tia! — Um menino com a camisa do Brasil, numerada e nomeada com a posição do Neymar me gritou quando a bola rolou para longe deles e para perto de mim.
Encarei o brinquedo descascado, um pouco murcha e sorri. Em momentos bobos assim eu percebo que Roberto transformou aquela burguesa, militante e hipócrita em uma mulher de ações. E eu estou orgulhosa de mim por isso.
Afastei o pé direito, coberto com o scarpin, e chutei a bola com a lateral do pé. Eu tenho um irmão homem; sei exatamente como jogar bola. Bom, talvez não exatamente.
A bola deu um salto, atravessando os corpinhos suados e sujos de areia, passando diretamente pelo gol improvisado com havaianas.
— GOL, PORRA! — Ouvi um dos meninos gritar, então comecei a gargalhar. — É do meu time!
— Isso não vale. Ela não tava jogando. — Começaram a protestar.
Deixei eles brincando e brigando, rindo e subindo as escadarias. As minhas crianças estavam me esperando, mas isso não significa que aquelas crianças que estavam brincando também não sejam minhas. Eu sei exatamente o que fazer....
....
— E então o lobo assoprou, assoprou, assoprou... — Eu observava Julinha, uma das crianças da ONG, encenar sua história infantil preferida.
Foi uma atividade que eu passei agora essas crianças, e elas têm concluído com total êxito e maravilhosamente bem. Eu gosto dessas atividades porque todas as faixas etárias podem participar porque todos gostamos de histórias. A minha, por exemplo, é a Cinderela.
— E aí ele caiu e gritou “ai, minha bunda!” — A garota de nove anos gritou, fazendo todos rirem com a maneira que interpretava. É lindo de se ver.
Ouvi passos atrás de nós, então vi Raposa com os braços cruzados. Encarou a parede atrás de Julinha com receio, mas continuou.
— E aí, lora? — Eu não me sinto mais tão desconfortável perto dele, mas ainda não gosto de ter um bandido no meu ciclo social.
— E aí? — Imitei seu jeito com implicância, vendo ele sorrir.
— Tudo nos conforme? — Franzi o cenho com a frase, sorrindo.
— Tudo em paz. — Foi tudo o que disse. Ele não é uma pessoa de todo ruim, mas ainda assim me causa medo. Não sei se é preconceito graças ao jeito e crenças que vivi até hoje, mas não consigo não ficar tensa perto dele.
Voltei a observar minhas crianças, deixando Raposa quieto. Ele se afastou, indo para uma das salas que costumam estar trancadas...
Olhei de relance para me certificar se estava longe o suficiente para que o peso dos meus ombros sumissem, mas botei algo curioso. Raposa tem a chave da ONG. Todas. Por que?
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Oi, besties. Tudo bem?
Por que esse raposa tem as chaves hein?
Nos vemos amanhã,
— Milésima esposa do Capitão Nascimento 💋
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𝐵𝐸𝑇𝑊𝐸𝐸𝑁 𝑈𝑆| 𝐶𝑎𝑝𝑖𝑡𝑎𝑜 𝑁𝑎𝑠𝑐𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜
FanfictionAté onde você iria para alcançar seus objetivos? Até onde você iria por uma missão? . A resposta varia de pessoa para pessoa, mas, para o Capitão Roberto Nascimento e a escritora Helena Magalhães, o céu é o limite. Ao se ver estagnada no começo de...
