Boa tarde, Qianças!
Como estão? Espero que bem.
Sei que tem criança chorando, mas eu voltei. Estamos aqui novamente depois de um tempo, com mais um capítulo quentinho.
Não tenho muito a dizer sobre ele por aqui, então espero que gostem.
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Capítulo 32
Outono do quarto ano de infecção
Floresta
Centésimo vigésimo quinto dia com o chapéu de palha
A noite chegou rápida e sem paciência, dando vez a uma lua quase cheia que iluminava e embelezava todo o céu. Era uma noite clara demais para filmes de terror, mas não clara o bastante para bons finais. E mesmo que a lua fosse a principal no céu, a protagonista daquela noite era uma fogueira feita às pressas, queimando no meio da clareira onde as pessoas ainda se acomodavam como podiam para passar a noite por falta de lugar mais seguro.
Todos estavam cansados, mas ninguém reclamava, não tinha o porquê reclamar quando ao menos estavam todos vivos. Se contentar era o melhor que eles podiam fazer enquanto se mantinham em seus afazeres calados. Se ouviam apenas murmúrios combinados com o som da natureza, com o crepitar da fogueira.
Sanji ajeitava as coisas dele para tentar dar uma jeito de alimentar todos. Sophia vestia os filhos da melhor forma possível para passar a noite fria que viria. Kid não fazia muito mais do que encarar o nada com tédio. Enquanto Zoro… bem… Zoro ainda segurava Luffy nos braços, e foi com essa criatura que ele parou na frente de Law e o encarou esbaforido.
-Cuida dele um pouquinho.
-O que?
Com o cenho franzido e um peso a mais nos braços, Law assistiu o amigo sumir mata adentro. Era possível ver a urgência na forma como ele andava, e diante de todas as possibilidades que existiam para dar motivo para aquilo, Law preferiu não ir muito a fundo no assunto.
Ele suspirou, encarou o menor e soltou automaticamente?
-O que diabos deu nele?
-Eu não sei… - Luffy deu de ombros inocentemente, parecia tão confuso quanto Law naquele assunto. - Caganeira??? - E lá estava a principal hipótese que Law não queria explorar. - E Torao… não vai falar nada do tiro?
-Vai adiantar eu falar alguma coisa? - Luffy negou com o rosto. - Então pra que falar? Sinceramente, vocês só me dão trabalho mesmo.
Diante do cansaço habitual daquele rosto, Luffy soltou um riso bobo. Law podia dizer aquilo o tempo todo, mas era nítido para o menor que ele não achava de tudo ruim. Ou ele não estaria ali ainda… não teria se esforçado tanto para estar com eles novamente.
Luffy se moveu para coçar as bordas do machucado em seu joelho, apoiando uma das mãos sobre o peito do mais velho distraidamente. Mas o “distraidamente” de Law se foi nesse momento, ao sentir os dedos finos em cima de seu coração, ele finalmente se deu conta do que tinha em mãos.
Ele sentiu a pele fria em seus dedos, observou o rostinho que mantinha uma certa vermelhidão perto dos olhos, viu os fios oleosos que já não caiam mais sobre a testa como deveriam, os dedos esguios que se moviam ao redor do ferimento… Law suspirou, e nesse momento notou o pequeno tremor que se fez nas bordinhas da boca bonitinha.
Ele sentiu pela primeira vez o peso de Luffy sem seus braços… e ele era tão leve que chegava a ser preocupante.
Mais um suspiro fundo da parte do médico fez Luffy olhar confuso. Os olhinhos perdidos que fizeram Law soletrar P.A.N.I.C.O mentalmente para manter-se no lugar, segurando um resmungo rouco no fundo da garganta.
-Mas Torao… - Ainda com os dedos nas bordas do ferimento e os olhinhos meio lá e meio cá, Luffy resmungou preocupado para o médico. - Ele não vai se perder?
Se perder… Law deu alguns passos até a árvore grande onde ele planejou se alojar para passar a noite, e bem ali ele se abaixou para deixar o corpo magro no chão delicadamente.
Se perder… ele tornou a pensar, ainda encarando aquele rosto, ainda pensando sobre o que não devia e…
-Ah, caralho… - Ele finalmente se deu conta. Luffy falava do Zoro. - O caralho, cacete… - Law se levantou e olhou em volta, visualizando Sanji em seus afazeres rapidamente. -Oe, Sanji! - O loiro se virou para ele. - Pode achar o Zoro pra mim, por favor?
O loiro olhou em volta, notou a ausência do espadachim e suspirou irritado entendendo o que acontecia. Mas apesar disso, ele não questionou e saiu para a floresta atrás do idiota, seguindo a direção indicava por Law com o dedo.
E o médico voltou-se a Luffy novamente, suspirando cansado. Sempre cansado.
Mais tranquilo do que devia quanto ao sumiço do amigo, Law se sentou no chão puxando a mochila para perto, encarando os dedos tortos de Luffy que voltaram a coçar a pele magoada.
Law deu um tapa na mão do menor, o impedindo de continuar com aquilo. E como consequência recebeu um olhar meio confuso, meio indignado.
-Para com isso.
-Mas tá coçando… muito.
Law suspirou novamente. Observou os fios do jeans que caiam sobre a pele ferida, e era compreensível toda aquela coceira. Apesar de ter feito o melhor que podia sem muita coisa, era claro que aquela merda doía e incomodava pra um cacete.
-Vou tirar os fios, só não coça.
-Eu não posso tirar a calça?
-Nesse tempo? Pra que? - Law puxou a perna do menor com cuidado. - Não quero que pegue um resfriado. Vou me livrar dos fios, vai melhorar.
Luffy fez um bico e ficou quieto, apenas observando os dedos tatuados do médico perto de sua pele. As vezes quando ele tirava alguns fios que estavam sobre o ferimento, incomodava, dava agonia sentir o fio desgrudar da pele, mas Law fazia com tanto cuidado que Luffy evitava emitir som que fosse.
-Torao.
-Hn?
-Eu queria te ver trabalhando… - Law levantou os olhos, confuso. - Não assim. Eu quero dizer em um hospital… usando jaleco, andando irritado de um lado para o outro, bebendo café até não aguentar mais…
Law soltou um riso baixo.
-Você tem uns desejos estranhos, já te falei isso? - O menor negou. - Pois é… muito estranho.
Luffy voltou ao silêncio, mas Law manteve aquele assunto na cabeça.
-Não tem muita diferença entre o que quer ver e o que vê agora… eu não durmo bem a dias, estou estressado e estaria andando bem apressado por aí se não tivesse o Sanji para achar aquele puto. - Luffy riu. - Talvez a maior diferença seja o café e o jaleco. - Luffy discordou. Discordou tão veemente que os fiozinhos sujos e oleosos chegaram a balançar.
-Não é igual…
- E por que não?
Luffy silenciou. Talvez estivesse pensando, talvez não tivesse uma resposta. Ao menos foi o que Law pensou inicialmente, mas notou que Luffy apenas preparava mais uma de suas pérolas para o desestruturar quando encarou o rosto e viu um sorriso pequenino e dolorido nos lábios dele.
-Lá você não ia ter que se preocupar com a morte…
-Um médico sempre se preocupa com a morte.
-Sim… mas não com a sua própria.
Law piscou. Os dedos sobre os fios jeans se afastaram e os lábios se apertaram em uma expressão quase indignada. Aquele garoto gostava de o atacar diretamente, era tão irritante.
-Quem te garante que eu não ia querer morrer lá também?
Luffy fez uma careta boba, deu de ombros e coçou a bochecha, fingindo estar pensativo, mas Law sabia bem que ele tinha a resposta na ponta da língua.
-Por que ia querer morrer? Ia ter sua família, seu trabalho, seus amigos… você já queria morrer antes de perder tudo? Se esse fosse o caso, já estaria morto, não é?
Law sabia que a resposta estava na ponta da língua, mas não imaginava que ela fosse tão seca… seca suficiente para o tirar um riso baixo, se afastando do rapaz para apoiar o peso do corpo nos braços atrás dele.
-É… você tem razão, eu já estaria…
Luffy deu de ombros e Law se manteve em silêncio.
Ele perdeu o fio da meada. Perdeu o rumo que aquela conversa deveria tomar, em que direção ela tinha que ir… por que ela foi iniciada? O que diabos Luffy queria dizer com tudo aquilo?
Law não pensou em nada disso. Apenas encarou as árvores acima dele, os pedacinhos do céu que dava as caras entre as folhas, os pinguinhos de luz lá em cima.
-O que eu faço com você, ein?
Luffy poderia dar mil respostas diante daquela pergunta, mas apenas sorriu e deu de ombros.
Law respirou fundo, se apoiou nos joelhos e encarou o mais novo por um tempo. A algum tempo ele nunca teria coragem de fazer aquilo, estar frente a frente com aquele garoto de olhos caóticos daquele jeito…
-Eu achei que fosse te perder… - Ele segredou em um fio de voz. Fio esse que fez Luffy tremer e segurar uma angústia estranha dentro do peito. - Pensei por um momento que nunca mais poderia encarar o abismo tão de perto.
Luffy mordeu a bochecha por dentro, segurou um suspiro angustiado e se mexeu desconfortável.
-Torao… Eu ainda estou aqui.
-Eu sei. - Law riu fraco. - Eu sei, idiota. Eu só… eu estive tão perto de te perder que… - Luffy não entendeu. Não se lembrava de ter estado tão perto assim da morte para ter aquele tipo de reação, então ele não sabia bem o que dizer para ajudar… Law pareceu inconsolável por um minuto. - Você não pode morrer, garoto. O que vai ser desse mundo se você não estiver aqui?
-Torao…? - Law levantou os olhos diante da voz fraca, vendo os rosto assustado diante dele. Uma carinha de choro que o fez prender a respiração. - Eu ainda tô aqui. - A frase foi repetida com firmeza, talvez assim Law entendesse o peso dela. - E eu não vou sair daqui.
Law soltou um riso baixo encarando os ferimentos do rapaz. Ele não soube o que fazer, e foi obrigado a recorrer a uma distração. Não era o estilo dele, mas…
-No momento acho que mesmo que quisesse fugir de mim…
-Eu nunca fugiria de você.
-Que bom… porque se tentar, eu te garanto que isso ai… - Ele apontou com as unhas curtas para o ferimento. - Não vai te deixar dar dois passos.
-Eu não quero dar nenhum passo. - O bico fofo fez Law rir. - Mesmo se eu não estivesse machucado, eu nunca daria um passo que fosse para longe de você, Torao…
-Eu sei… - Law murmurou baixinho, se dando conta do que aquela frase significava. Do que Luffy queria dizer. Nunca esteve disfarçado, ele sempre deixou tudo tão na cara, e ainda assim… Law se negava a ver o que estava bem diante de seus olhos, prestes a se queimar com a luz do sol. - Droga… eu sei.
-Então por que está tão agoniado? Eu estou vivo e aqui…
Law suspirou.
-Por que… - Ele encarou os joelhos machucados, o resultado dele ainda estar ali vivo e agoniado.
Os dedos tatuados foram até a pele do rapaz, ele não podia acariciar os joelhos, então brincou com a parte de baixo, acariciando a pele com cuidado.
Ele queria puxar o mais novo pra perto, o apertar contra o próprio corpo, mas… Law não se sentia pronto pra isso… ainda não.
-Eu odeio que se machuque por minha causa.
-Do que está falando? - A voz baixa do menor soou com irritação. - Você teria feito o mesmo.
E a maldita frase se repetia. O que mais Law podia fazer sobre o assunto? Ele teria feito o mesmo… mas ainda odiava aquilo.
Ainda odiava que eles tenham se arriscado tanto, ao mesmo tempo que… ele se sentia feliz por ter idiotas que fizessem aquilo por ele.
Ele não estava mais sozinho naquela porra de mundo… mas ele não sabia ainda como lidar com isso. Ele não sabia como conciliar todas aquelas coisas boas…
Law estava acostumado a tragédias. Coisas boas nunca vinham em abundância em sua vida… fosse antes ou depois do fim.
Ele só… não tinha sido treinado pra isso.
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Dead or Alive
FanfictionA primeira vista Zoro pensou que fosse apenas mais um morto. Mais um dos vários corpos sem vida que vagavam pela pequena cidade abandonada e desconhecida naquele imenso fim de mundo. E em qualquer outra ocasião ele teria ignorado. Teria apenas dado...
