Ao abrir os olhos por completo e ver a luz filtrando suavemente pelas cortinas pesadas do quarto, Cristian sentiu o corpo pesar — não de cansaço, mas de uma estranha consciência se formando. Por um instante, não soube onde estava. Depois, os fragmentos vieram: o cheiro espesso de feromônios ainda preso no ar, os lençóis desalinhados e manchados, o calor impregnado nas paredes e o silêncio.
Silêncio.
Então virou a cabeça, abrupto, o coração disparado. Seus olhos procuraram por Zero ao seu lado, o corpo ainda coberto em parte pela camisa branca amarrotada. Estava ali, dormindo, os cabelos negros desalinhados, o peito subindo e descendo num ritmo lento, mas firme. Cristian o encarou por um longo tempo, até confirmar que... ele respirava.
Um alívio mudo caiu sobre seus ombros — pesado, confuso.
Ele olhou para o próprio corpo, viu as marcas do cio: unhas cravadas, mordidas, sangue seco. Depois, olhou para Zero. O lobo estava coberto por mordidas leves, algumas recentes, outras já começando a cicatrizar. Mas o que chamou atenção foi a mordida no pescoço. Uma marca maior, mais nítida, mais... significativa, mais profunda por ter sido refeita várias e várias vezes. Uma marca de domínio, de vínculo. Cristian empalideceu.
Aquilo nunca tinha acontecido antes.
Ele evitava seus cios com rigor absoluto, medicado por Isaac, vigiado por si mesmo. A última vez que perdera o controle, um dos Números morreu. Desde então, o cio fora apenas um fantasma domado por ciência, comprimidos e disciplina.
Mas agora, diante daquela realidade que exalava cheiro de instinto e presença — Cristian sabia o que havia ocorrido.
Um cio completo. Longo. Real.
Ele se levantou de um pulo, o corpo ainda dolorido, e vestiu a primeira peça de roupa que encontrou. Ordenou que chamassem imediatamente o Dr. Isaac e seguiu direto para o banheiro, onde ficou um tempo a mais sob a água, tentando lavar do corpo não apenas o suor e o sangue seco, mas também o que sentia — a dúvida, a culpa, e aquela estranha e incômoda paz.
Quando Isaac chegou, a senhora silenciosa — a única autorizada a entrar — já havia limpado Zero com cuidado. Tinha mãos experientes, respeitosas, que sabiam como agir sem invadir. O lobo nem despertou. Estava exausto, o corpo entregue ao sono profundo da recuperação.
Isaac se aproximou sem dizer nada, examinou as marcas.
Nenhuma exigia cuidados urgentes. As mordidas estavam limpas, as mais fundas já começavam a fechar. Era o corpo de um predador, afinal. Resistente, veloz na regeneração.
Mas ao ver a marca no pescoço, o médico se deteve.
Olhou para Cristian, questionando em silêncio. E Cristian apenas acenou negativamente com a cabeça, ele não queria que aquela marca sumisse.
Isaac apenas assentiu. Aplicou uma medicação tópica para aliviar a inflamação e proteger a área, depois enfaixou com precisão, como quem embala algo sagrado. Sem palavras, como sempre fazia quando a situação pedia mais silêncio do que explicações.
A senhora deixou um pano fresco sobre a testa de Zero e saiu em silêncio, acompanhada por Isaac. Apenas os dois sabiam o que realmente havia ocorrido ali. E assim permaneceria.
Cristian vestiu-se por completo e sentou-se à mesa, a comida já posta. Pegou um talher, mas não levou à boca. Seus olhos se fixaram na direção onde podia ver a sombra adormecida do lobo sobre os lençóis. Respirando.
Apenas respirando.
E, pela primeira vez em muito tempo, Cristian não sabia o que pensar — apenas olhava, comendo devagar, observando aquele que, mesmo exausto e marcado, ainda estava ali.
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O Lobo E O Coelho
RomanceEssa é uma "continuação" da história "A presa que dominou o caçador", aqui depois de 20 anos após a guerra contra a resistência, vamos acompanhar a trajetória de Will, o lobo herdeiro do trono. Will é um jovem muito bondoso e dedicado, ele se esforç...
