Fantasma Zero

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O dia do lado de fora da mansão imperial era estranhamente tranquilo. Zero caminhava ao lado da figura encapuzada, cada movimento dele calculado, atento — como um predador em terreno novo.

Acompanhava sem esforço, mas com curiosidade oculta. Não precisava ver o rosto ou sentir o cheiro: a forma como aquela figura caminhava, o leve trejeito de salto, denunciava. Não era carnívora. Não era predadora. Era... herbívora.

Uma contradição.

Chegaram até uma carruagem escura, guardada por soldados silenciosos que nada perguntaram. Zero entrou primeiro, sentando-se na lateral, imóvel. A figura entrou em seguida e, quando a porta se fechou atrás deles, o mundo se reduziu ao espaço estreito, balançando sob as rodas.

Foi apenas então que a acompanhante retirou o capuz.

Caiu sobre os ombros uma moldura de cabelos curtos lisos, castanhos escuros. Os olhos, igualmente castanhos, brilhavam como âmbar sob a luz trêmula da lamparina. Pequenas garras discretas adornavam as mãos delicadas, e atrás dela, ao se soltar, o volumoso rabo de esquilo surgiu, macio e farto, movimentando-se levemente.

Ela sorriu, um sorriso doce, que parecia destoar do ambiente sufocante da missão. Estendeu a mão, fina, mas firme, na direção de Zero.

— Prazer... ou talvez não seja bem isso — disse em voz calma. — Eu sou Nozes.

Zero olhou para a mão estendida, depois para os olhos dela. O silêncio durou alguns segundos, antes de ele aceitar o gesto. O aperto foi breve, sem calor, mas não hostil.

— Já o conheço há muito tempo — completou ela, com um sorriso que carregava lembranças.

Zero franziu o cenho. Sua voz saiu baixa, direta:

— Eu... não me lembro.

O sorriso de Nozes vacilou. Uma sombra de decepção atravessou o brilho de seus olhos. Ela soltou a mão dele devagar, recostando-se contra o assento da carruagem.

— Eu sei — respondeu, com um suspiro contido. — Isaac me contou. Eu só... não consegui evitar esperar.

O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não frio. Era o silêncio de quem carrega memórias que não são compartilhadas.

Zero desviou o olhar para a pequena janela da carruagem, observando o mundo passar em vultos lá fora. Nozes, por sua vez, apenas o observava — e, pela primeira vez naquela missão, parecia mais difícil manter o profissionalismo.

A carruagem avançava pelas estradas sob a luz clara do dia. O sol atravessava as frestas das cortinas, projetando faixas douradas sobre o interior de madeira escura. O trote dos cavalos marcava o ritmo, constante, quase hipnótico.

Zero permanecia calado, o olhar fixo na paisagem que corria pela pequena janela. Campos verdejantes se sucediam, cortados por bosques ocasionais. A claridade iluminava seu rosto parcialmente, destacando a expressão distante e impenetrável.

Nozes, sentada à sua frente, não conseguia disfarçar a inquietação. Seu rabo felpudo mexia-se levemente de um lado para o outro, denunciando a ansiedade. Por fim, incapaz de manter o silêncio, ela quebrou a barreira invisível que os separava:

— Você não quer... saber? — a voz dela era suave, mas firme, sustentando uma esperança frágil. — Sobre nós dois... ou sobre quem você era antes?

Zero não desviou o olhar da janela. Observava a dança do vento nas copas das árvores distantes, como se a resposta estivesse lá fora.

— Não faz sentido — disse por fim, seco, porém calmo.

O Lobo E O CoelhoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora