*Ares*
O ódio pode acabar com os sentimentos de uma pessoa, a dor pode corromper suas veias como se estivessem sendo arrancadas.
Olhos famintos por ódio são tão perturbantes, são difíceis de se compreender.
Christopher não me perdoaria por ter deixado Jully ser levada, e se ela morresse eu também morreria, não séria possível viver com a dor e o ódio que Christopher sentiria de mim.
Minha mãe sempre me dizia que eu era forte, que eu carregava o sangue frio de meus ancestrais e que eu teria grandes vitórias na vida, guiando meu irmão para a luz e mostrando-o o caminho do amor.
Meu irmão sempre foi meio fechado, mas alegre. Eu sempre tentei virar as costas para isso e acabei me tornando insensível, fria e sem emoções, sem qualquer tipo de sentimento dócil.
O tempo foi passando e as barreiras da minha mente foram ficando mais fortes, me deixando livres de emoções desnecessárias. Isso tornava Dominik mais dócil que eu, fazendo minha mãe se sentir decepcionada por achar que eu me perderia em um mundo de escuridão emocional.
Os seres humanos são bastante interessantes, as vezes deixam transparecer que são fracos e incapazes, mas se transformam de uma forma extraordinária. Eu tentava entender qual o meu propósito no mundo, qual era minha missão dentre esses seres impiedosos e gentis.
Qual é o destino de pessoas perdidas? Sem caminhos para seguir ou motivações para acordar e abraçar o sol com os olhos.
Eu havia fechado as portas do meu coração e implantado em minha cabeça uma ideologia obscura sobre os seres humanos.
Dominik queria muito se tornar um policial, era o sonho de vida dele, mas mamãe achava muito perigoso, ele só tinha 18 anos e adolescentes mudam de ideia constantemente. Talvez fosse só uma fase normal de garotos que assistem muito filmes policiais e sonham em viver o que os personagens vivem.
Ver Dominik triste era agonizante para mim, tínhamos um laço forte de afeto, na verdade era o único sentimento que eu conseguia manter em meus pensamentos.
Já era duro para ele a ausência de nosso pai, e não poder fazer o que ele tanto queria o destruía ainda mais por dentro.
Ele não era tão sociável como os outros garotos de sua idade, e pelo fato de eu ser mais velha ele achava que eu não iria me socializar com ele. Acho que as vezes ele tinha medo de eu ir embora e deixar ele e a nossa mãe a míngua.
Era meio estranho pensar em ir embora, eu não queria jamais deixá-los para trás, eles realmente me faziam pensar em um porque para alimentar sentimentos em meu coração.
Eu cresci apagada dos distúrbios da sociedade, eu não tinha maldade em meu coração e isso me transformou em um alvo fácil para os predadores de alegria.
Me apaixonar na adolescência foi inevitável, mas não se podia chamar aquilo de amor, era apenas uma ilusão ótica.
Dominik então viu que antes de mais nada, só sua amizade importava para mim.
Ele não estava tão feliz como antes, ele estava se tornando alguém como eu, frio e sem sentimentos fortes. Isso estava me matando aos poucos, ver meu irmão se perder em um caminho que eu já estava a algum tempo era difícil de se lidar.
Ele não podia seguir seus sonhos, ele não podia atender aos desejos de seu coração. Ele fingia estar bem, estar satisfeito com o que ele tinha, mas lá no fundo estava doendo.
Dominik queria sim ter amigos, sair pelo mundo se apaixonando pela natureza, queria sim ser independente.
Mas nossa mãe não queria enxergar que isso seria bom para ele, ela tinha medo de perder o filho para os farsantes encantos que a sociedade e o mundo oferecem.
Eu entendia ela, realmente compreendia que ela se importava com ele, era difícil para ela ter perdido tantas coisas, e mesmo assim estar de pé firme e forte.
Meu pai havia desaparecido a alguns anos, não sabíamos seu paradeiro, nem ao menos o último lugar onde ele foi visto.
Ele as vezes era estranho, era ausente, e isso deixava minha mãe frustrada, ela com certeza alimentava a hipótese de que ele à traia.
Dominik era mais apegado com ele, tinha mais relações de afeto e sofreu muito mais que eu quando nosso pai sumiu.
As vezes eu tinha a leve impressão de que ele não gostava muito de mim, ou talvez fosse só uma paranoia que meu psicólogico inventou para suprir o meu ego.
Por que não me abrir para o mundo? Por que não deixar as emoções dominarem meu subconsciente? Por que fechar tanto as portas do meu coração? Eu queria muito poder responder essas perguntas que eu fazia a mim mesma.
Eu queria ser normal, ser sociável e ser livre de pensamentos obscuros, eu queria ver o mundo de outro jeito, e eu ia tentar, eu ia seguir meus instintos.
Resolvi que iria me ingressar no exército, ir ao extremo, testar meus limites como mulher e como ser humano. Resolvi seguir os sonhos de Dominik e superar os meus pesadelos, traçaria meu próprio caminho e encontraria a razão para a existência.
Dominik quase não acreditou quando eu lhe disse que iria com ele para o exército. Eu vi seus olhos brilharem e um sorriso largo tomar posse de sua boca, ele finalmente estava sorrindo, e isso era aliviante.
Se eu estivesse com ele nossa mãe nos deixaria ir, ela realmente acreditava que eu o proteger ia de qualquer coisa, sei que ela ficou aliviada por eu decidir ir, ela estava satisfeita por nós irmos embora juntos.
Sair da pequena cidade no interior do Brasil era estranho, deixar para trás os amigos, o trabalho na mercearia do Seu João, ele era uma boa pessoa.
Havia estrada para o Sul do país, era céu para se percorrer, era uma nova vida, uma nova oportunidade de sentir que eu estava viva, Dominik segurava em minha mão durante nossa viagem, ele estava ansioso e bastante contente.
Nova vida, nova cidade e novas pessoas, entrar pela fronteira do Sul era arrepiante. Pisar nossos pés em um novo chão era estimulante.
O vento era tão forte que não nos deixava respirar direito, o frio era um inimigo para nós que adotamos o calor como clima predominante. Dominik era tão branco e angelical, como um príncipe de contos de fadas.
Dali em diante iríamos nos redescobrir, abrir as portas do nosso coração para o mundo e abraça-lo com força, testar nossos limites e ver do que éramos capazes.
- Ares, será que vamos conseguir?
Dominik me perguntou quando fomos receber os documentos da aprovação de alistamento.
- Vamos, eu tenho certeza!
- Mas vamos ficar separados, você é mulher e vai para outro centro de treinamento!
- Isso não te impede de se esforçar! Vamos! Esse é o seu sonho.
- Vamos nos ver?
- Sempre que possível. Está com medo?
- Sim, estou aflito.
- Não fique, você é forte, vamos conseguir.
- Vamos.
Essa foi a última conversa que eu e Dominik tivemos antes de entrar para o treinamento militar, era tudo ou nada, era ir em frente ou desistir, e nós fomos, fomos com medo e angustiados, após um certo tempo veio o resultado.
Acabamos nos tornando uns dos melhores soldados do exército brasileiro.
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Aos 18
ActionPlágio é crime!! Crie! Após perder a mãe, Jully Evangeline consequentemente tem que ir viver com seus tios, Cresce sem saber o paradeiro de seu pai, odiando o mesmo por ter abandonado a família. Quando tudo parece bem, faltando uma semana para o seu...
