Lembranças turbulentas

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O cheiro ruim ainda abitava aquele lugar, a escuridão era paralela à sujeira, presos como ratos esfomeados faziam um sinal de apelo.

Aquela mesma sala com pouca iluminação, me aguardava para a tal conversa decisiva que Ares tanto falava que eu teria com o meu pai.

- Pode entrar.
Ares disse tocando em meu ombro, ela parecia sentir a minha insegurança.

Dominik fez menção de entrar, mas ela o interrompeu no mesmo instante.

Olhei para trás e gesticulei com os lábios, porém não deixei nenhum som ecoar da minha boca.

- Eu te amo.

Ele sorriu e virou-se de costa.

*

Sempre pensei que um dia eu viveria mais, fora daquela cidade, longe de toda a turbulência do trânsito, sem sinais vermelhos ou faixas apagadas pelas ruas.

Um soluço, iniciou minha angústia ao lembrar-me de todos os meus amigos que sempre estavam ao meu lado, naquela biblioteca, sorrindo atoa e contando histórias sobre reis e rainhas que buscavam a paz e não a violência contínua.
Eu dizia que aquilo era monótono, sem graça, sem cor, sem vida alguma mas hoje vejo, sinto, agora sei que aquilo era o que eu mais queria.

-----×------

Não é fácil me sentar à frente do homem que dizia ser meu pai, mas que nunca esteve presente em minha vida, sempre longe, como uma fumaça esmagadora de pulmões.

Sua aparência era triste e ele parecia estar pensando em algo ruim, seus olhos estavam abertos mas pareciam não haver nenhum tipo de vida neles, sua face cansada, se manifestou em tensão quando eu entrei naquele local.

- Olá Jully.
Ele disse piscando várias vezes e ajeitando seus cabelos grisalhos e aparentemente macios.

- Olá Christopher.
Eu Disse sem emoção nos lábios.

- Como você está querida? Ele perguntou  como se isso lhe importasse muito.

- Ótima! - Não está vendo?
Eu perguntei com a ironia explodindo de meu semblante triste a um com bastante rancor.

Ele suspirou e der repente segurou em minhas mãos machucadas dando o mais triste sorriso do mundo.

- Eu sinto..., sinto muito, muito mesmo querida.- Fazer você passar por isso todos esses anos, deixar você sozinha e não te dar o amor e carinho que você tanto merece.

Ele chorava tanto que suas lágrimas se debatiam sobre a pequena mesa que nos separava, logo eu não consegui segurar as lágrimas de angústia e medo que me assombravam a tempos.

- Você não sabe a dor que eu sentia ao ver todos os meus colegas de classe indo embora com seus pais, felizes e inocentes, enquanto eu...

Solucei em desespero.

- Enquanto eu estava sozinha!! Sem ninguém, tinha meus tios mas não era a mesma coisa, nunca foi.- Era como uma dor eterna que corroía todos os meus sentimentos bons, e eu era apenas uma criança!! - Crianças devem ser inocentes e boas, não?, E eu? Eu era uma criança rancorosa que odiava viver nesse mundo de plataformas inúteis de família.

Eu queria desabafar, dizer a ele toda a dor que passei...
Todo o meu sofrimento, sem ele, sem minha mãe, nada seria pior que isso.

Ou talvez seria...

Ele não tinha reação, apenas me olhava falar, obviamente nem a metade de tudo que eu passei, ele segurava minha mão em todo o momento que falei.

- Querida eu imagino sua dor...

- Não! Não imagina! Você não faz ideia.  Gritei sem pensar.

- Jully meu ouça! Ele propôs.

- Estou ouvindo.
Falei enxugando as lágrimas com um pedaço da blusa em meu corpo.

- Eu tenho tanto a lhe falar... Mas está sendo pior do que eu pensei, muito pior.

Agora seus olhos vermelhos irradiavam medo, algum medo desconhecido e pavoroso.

- Eu preciso saber, é a minha vida! Falei soltando sua mão e entrelaçando meus dedos no pouco de cabelo que ainda me restava.

Ele abaixou a cabeça por alguns segundos e em seguida me fitou.

- A muito tempo atrás eu conheci a luz da minha vida, Helena, e eu me sentia o homem mais feliz desse mundo, me sentia vivo, alegre, com mais razões pra lutar pela minha liberdade. -Sua mãe, tão cheia de vida, de bondade, não merecia passar por tanta dor e sofrimento. - Eu estava casado com outra mulher, Aurora, e ela é bastante ambiciosa e rancorosa, eu não a amava, não a desejava como desejava sua mãe. - Era como uma droga, que me entorpecia, um pedaço de ouro que enfeitiçava minha mente turbulenta. - Eu fiz a loucura de fugir com ela, de tentar apagar o sangue que eu carregava de uma família suja e assassina. -Você acha que eu escolhi essa vida maldita?

Ele perguntou apavorado.
Eu não respondi, apenas abaixei a cabeça e assenti para que ele pudesse continuar a história.

- Jully eu e sua mãe vivemos momentos incríveis, momentos que eu jamais poderia ter a capacidade de esquecer, e você, você foi a melhor parte de tudo isso. -A luz de nossas vidas, o amor contínuo repassado para um ser tão pequenino e frágil.
- Me lembro da primeira vez que troquei suas fraudas, nossa...

Ele deu um leve sorriso.

- Eu fui muito mal.
Ele acrescentou piscando várias vezes e lágrimas escorrendo como  uma pequena cachoeira.

Eu dei um leve sorriso levantando o rosto e piscando também.

Ele suspirou e prosseguiu.

- Mas eu não merecia tanto amor, tanta felicidade, nada voltaria a ser como antes, depois que Aurora incendiou nossas vidas com chamas árduas de ódio, como um demônio em êxtase.

- Eu sei, ela matou minha mãe! Protestei me levantando e dando um soco na mesa velha daquela sala.

- Querida...

- Sim, respondi voltando a me sentar.

- É sobre isso que quero te contar algo... Algo bem pior, o mais pior de tudo o que aconteceu com você.

- Algo pior? Respondi em espanto.

O que seria pior que perder minha mãe e viver como uma órfã durante dezoito anos? Pensei coçando meus braços com hematomas.

- Sim, bem pior.
Ele respondeu meio que indiferente, e arrependido de ter começado a falar.

- Diga!
Falei bastante aflita.

- É sobre Helena, sua mãe.

- Minha mãe? O que tem ela?
Respondi.

A confusão tomou minha cabeça e eu comecei a soar frio como se fosse levar um tiro a qualquer momento. E foi pior, pior que três, quatro, seis tiros no meu corpo cansado, foi uma das coisas mais loucas que eu haveria de ouvir durante toda a minha vida.

Ele abriu sua boca como se estivesse sendo filmado em câmera lenta, em um filme de terror dos anos 2000, como uma nuvem negra de forças demoníacas, a dor tomará conta de todos meus ossos, a angústia estraçalhava meus órgãos em fração de segundos, os piores segundos da minha vida.

- Jully?!

- Sim. Falei.

- Sua mãe...

-O que tem?
O interrompi já sem paciência.

-Sua mãe está viva!

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