Linha do Tempo (Capítulo bônus)

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[Narrador]

Em março de 1994, mais um recém-nascido era aceito no pequeno orfanato de uma cidadezinha há alguns quilômetros de Seul. Um garoto sem nome, sem identidade. 'A mãe não quer ficar com ele' foi tudo que disseram. Nenhum registro fora deixado, nenhuma pista. Era apenas mais uma criança para as estatísticas.

No mesmo ano, a garota Oh Na Yeon era aceita como trainee da SM Ent. através de um teste arranjado por Jong Ki, na época, seu namorado e staff da mesma empresa. Ela era, pela primeira vez, motivo de orgulho dos pais e da família. Tinha só quinze anos, seria uma promessa. Em agosto de 1994 Na Yeon conheceu suas futuras companheiras de grupo, novas trainees da SM.

Em 1995 aquele mesmo menino comemorou seu primeiro aniversário cercado de outras crianças e algumas cuidadoras. Ele deu seus primeiros passos, disse suas primeiras palavras. Um estranho apareceu em intervalos de alguns meses e tirou fotos dele, sem algum motivo aparente. Oh Na Yeon viu as primeiras fotografias no meio do ano, mas elas ficavam no arquivo de sua mãe e acabavam sumindo misteriosamente com o tempo. Seus pesadelos frequentes começaram a aparecer. O mesmo, todas as noites, pelo menos uma vez a cada semana. Antes do final do ano Na Yeon já tinha começado um tratamento contra insônia.

Em 1996 resolveram que o menino teria que se readaptar. Por algum motivo que ele não compreenderia, queriam escondê-lo de sua própria mãe. E, quando tinha ganhado uma identidade e uma 'família', voltou a perde-las. Seus documentos já não valiam mais, seu nome devia ser outro, arrumaram uma Igreja que substituiria o orfanato. Aprendeu suas primeiras orações, aprendeu a música, aprendeu a ser generoso. Na mesma época, Na Yeon aprendia a atuar, controlar o ar, seguir coreografias. Tudo enquanto disfarçava suas crises de ansiedade com doses e mais doses de remédios, tentando não perder sua única oportunidade de conseguir uma carreira como cantora.

Em maio de 1997 um grupo novo estreou na Coreia, sob supervisão da SM Ent, composto por cinco garotas jovens e talentosas - Woojin, Jisoo, Ri Ah, Na Yeon e Sue. Seu primeiro single oficial foi um sucesso instantâneo e ocupou facilmente o topo das principais paradas. A fama distraiu a jovem Oh Na Yeon pelos primeiros meses, os compromissos roubaram seu tempo, a alegria de seus pais em vê-la no alto ainda era contagiante. No entanto, antes que o ano acabasse, o mínimo tempo em pausa fez com que as crises de pesadelos e ansiedade voltassem a assombrá-la.

Em 1998 o garotinho sem nome ainda era criado junto de outros meninos maiores por freis italianos que adotaram como missão cuidar de crianças ali abandonadas. Ainda era só mais uma criança das estatísticas ascendentes no país. Mas crescia carinhoso, inteligente e bondoso em meio a uma realidade dura e humilde - tanto que os freis chamavam-lhe Francesco, inspirados pelo santo de mesmo nome. Por fora os religiosos rezavam pela vida das mães daqueles meninos, por dentro amaldiçoavam a frieza de abandonar um filho.

No topo das paradas musicais, em mesma época, um grupo ainda dominava as primeiras posições, no entanto, com uma integrante a menos. Oh Na Yeon, a principal vocalista, teve que se afastar por meses, pois seu medo e angústia impediam que cumprisse toda a agenda. Se trancava no quarto, chorava sozinha. Tentou suicídio pela primeira vez. A alegria de seus pais não era mais a mesma, eles tinham mais cobranças que elogios. As fotografias que haviam lhe prometido pararam de chegar, assim como as notícias. Mas, ainda assim, seu nome estava ligado a sucesso, a talento, e a retorno financeiro.

Ela teve sua volta em 1999, junho. Parecia bem melhor em frente as câmeras, quando na verdade estava apenas se lotando de remédios e tratamentos outra vez. Jong Ki assumiu um namoro público, traindo aquela que era sua namorada há mais de cinco anos, sem explicações. A empresa deu um ultimato ao grupo: lançariam um single e ele seria tudo ou nada. Ao mesmo tempo, o pequeno que vinha sendo Francesco também recebeu um ultimato: seria levado outra vez. Chorou, pediu pra ficar, agarrou-se aos cuidadores, mas não conseguiu. O estranho decidiu que era hora de se mudar de novo, era hora de perder tudo de novo.

Os meses se passaram e o desempenho do grupo queridinho da nação não foi o esperado. Na Yeon voltou a ter seus antigos problemas - insônia, pesadelos, crises de ansiedade e pânico. Seus pais já não eram mais uma base, seu namoro já não existia. A culpa caia toda sobre ela. Culpa também do fracasso de sua última composição. O mundo da fama não era aquele com que havia sonhado por toda a vida e o arrependimento poderia ser o fardo mais pesado que ela carregaria pelo resto da vida - um fardo que aumentava aos poucos a cada dia, desde 1994.

Em outubro foi anunciado o hiatos por tempo indefinido do grupo que antes parecia ser a salvação da SM. Enquanto as outras integrantes tinham planos solos e futuras gravações agendadas, Na Yeon não conseguia sair de casa, não conseguia compor nem ensaiar. Na época não sabia, mas estava com uma depressão que a levaria a tentar suicídio pela segunda vez.

Em 2000, ganhando novo nome e identidade, o antigo Francesco foi transferido a um orfanato maior e mais longe da capital. Foi para a escola pela primeira vez e confundiu-se quando lhe perguntaram quem era - já havia sido chamado de tantas formas até então. Aprendia rápido, tinha vontade de ler e escrever, gostava de brincar com os outros garotos. Mas foi na escola que realmente descobriu que todas as outras crianças que tinham algo que ele não tinha: uma família. Disseram-lhe que sua mãe fora embora, então ele passou a espera-la todos os dias, ele colecionou cartas pra quando ela voltasse. Mas isso nunca aconteceu.

Para Na Yeon 2000 começou diferente; ela recebeu mais uma fotografia, embora estivesse borrada e sem remetente, foi a única que conseguiu guardar consigo. Ela também cobrou-se a lutar e vencer - voltou às salas de prática, escreveu mais canções, treinou a voz por horas em cada dia. Diziam que seu grupo voltaria à ativa. Em agosto porém, pega de surpresa, viu ser anunciado que tudo acabaria ali, o fim seria o disband. E a culpa, de novo, era só dela. Brigou com os pais e afastou-se deles, desistiu da vida artística e foi viver sozinha.

Dali pra frente as coisas não mudavam muito. Enquanto as esperanças de um encontro se esgotavam no coração do menino, se ascendiam no coração da mulher. De 2000 a 2005, ele passou por três orfanatos diferentes e cinco escolas, sendo sempre afastado das únicas pessoas com quem conseguia iniciar laços de amizade ou amor. As outras pessoas tinham amigos e parentes, mas ele nunca tinha ninguém. As piadas eram as mesmas em todas as escolas já que ele nunca deixaria de ser o órfão da sala. Não que para ela a situação fosse muito melhor... Nestes cinco anos, tentou profissões diferentes, passatempos diferentes, remédios diferentes. Contratou advogados diferentes, detetives consagrados, gastou tudo que tinha guardado. Mas nunca conseguiria encontrar uma pista, afinal, o menino não tinha nome nem identidade, seria quase impossível localizá-lo.

Em 2005 o mesmo estranho reapareceu no orfanato, mas dessa vez ele se apresentou: Jong Ki, da SM. A criança, já acostumada, achou que seria transferida para outro lugar. Mas, ao contrário do que imaginou, aquele homem só pediu que ele cantasse e dançasse alguma coisa e, em troca, receberia uma identidade, uma oportunidade e uma casa de verdade. Tentador pra um garoto que, tendo completado onze anos, sabia que não seria mais adotado por ninguém e tinha o futuro incerto.

E foi no verão daquele ano de 2005 que um novo veredito foi dado:

Sua data de nascimento será 18 de julho, 1993. E seu nome...

Lee Taemin.

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