setenta e cinco -ÚLTIMO CAPÍTULO

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Entramos no carro rapidamente, alguns pingos de chuva caiam grossos, em breve uma tempestade se formaria. Sebastian colocou as malas no carro, abrindo a porta para que eu me acomodasse, entrou em seguida segurando minha mão quando atravessamos os portões da fazenda Guzmán.

Era assim que esse lugar chamaria agora, era o mínimo.
Era assim que esse lugar recomeçaria agora cheio de amor como nenhuma geração anterior conseguiu.

Não olhei para trás, nem para a fazenda vizinha que estava cada vez mais distante. Apenas sorri quando Sebastian levou minhas mãos até os lábios.

Ele sabia da confusão de sentimentos dentro de mim, sabia o que estava sentindo nesse momento que deixava esse lugar pela segunda vez. Diferente da primeira vez quando era apenas uma jovem medrosa de dezoito anos agora eu partia confiante. Saia daqui aceitando quem eu era, quem eu aceitava ser depois de tudo que aprendi.

- está cansada?- falou passando as mãos pelos meus ombros- aproveita e dorme um pouco.

- você também.

Ele apenas sorriu, aquele sorriso de lado que o deixava mais irresistível que tudo.

- não quero que acabe- falei mais para mim do que para ele.

-não vai.

Eu o amava por não desistir de mim, por estar comigo mesmo quando eu não o mereci.
Por me aceitar como eu era, com todas as minhas imperfeições.

As ruas estava vazias, as poucas pessoas andavam apressadas para fugir da chuva, olhei cada detalhe da cidade que cresci, lembrando da minha juventude e de tudo que vivi nesse lugar. Agora realmente essa cidade seria uma lembrança me deixando um gosto agridoce. Foi onde vivi os melhores e os piores momentos da minha vida.

Olhei de relance para o meu marido que segurava firme a minha mão.
Sequer imaginei que a noite acabaria assim, que seria dele e que Sebastian me surpreenderia dessa forma.

A antiga Holly jamais faria uma loucura , a Holly antes do Sebastian nunca faria nada estúpido.

Quem diria que eu sairia desse lugar casada e feliz? Era assim que me sentia, feliz e completa.

Nunca achei que merecia a felicidade até ele quebrar todas as minhas barreiras e me mostrar que eu podia e merecia.

Durante meus trinta anos eu fui muitas coisas,  fui uma filha abandonada, uma mulher apaixonada, uma mãe sem um filho, uma assassina e tive um pai horrível, demorei para aceitar que  nasci de uma forma horrível, que era fruto de um incesto.
E que mesmo assim eu merecia ser feliz.

Mesmo assim minha mãe nunca deixou de me amar, mesmo que  representasse a vergonha dela.
Acho que meu maior aprendizado foi me aceitar como  sou, aceitar que as pessoas não são obrigadas a me amar e nem eu a elas, cada um decide o que plantar e o que dar as outras pessoas.

Sofri por muitos anos querendo ser aceita, tentando ter uma vida tranquila e vivendo um amor impossível que acabou comigo todos os dias por dez anos.
Não o culpava , nunca culparei Kevin pelos nossos destinos ,sei que o amei um dia, de uma forma torta e destrutiva.

Desejava o melhor para ele, todas as coisas boas que o mundo pudesse proporcionar. De certa forma sempre o amaria por tudo que vivemos. Era um amor de gratidão,  não tinha intenção ou amor de mulher por ele, era um amor por todas as lembranças que  me deu , elas sendo boas ou não.

Ele me marcou para sempre de muitas formas.

- tudo bem Holly?

- estou cansada. Você também, nem vi que horas foi dormir.

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