Capítulo 16

534 165 1.4K
                                        

Kelly

Saio correndo pelo prédio, nem sei para onde estou andando ou para onde vou agora.

Depois de descer o elevador implorando para chegar logo ao térreo, saio em disparada pela saída, procurando o crachá que enfiei dentro da bolsa para liberar minha liberdade do prédio. Sinto algo bater em meu corpo e cambaleio com o impacto.

— Ei... Calma! — Alguém fala quando sinto mãos rodearem minha cintura. Tento me soltar rapidamente, tudo que eu menos quero é alguém me segurando. — Calma...

Sinto mãos fortes me puxarem devagar para que eu não caia. E eu me afasto rapidamente do seu contato.

— Hey, me desculpe, machucou? — Ele me olha atentamente e sorri de leve. O seu sorriso some assim que ele presta mais atenção em mim. — Kelly? Tá tudo bem?

Eu finalmente o reconheço, ele é André, o entregador do prédio.

Me afasto dele, acenando que sim e em seguida acenando que não. Sinto as lágrimas pesadas em meus olhos, eu só preciso me afastar daqui, sumir desse lugar. Preciso chegar à minha cama antes que meu corpo perca as forças que restam.

— Sim ou não? — Ele tenta brincar, mas logo fica sério novamente. — Acho que não está nada bem não é? Eu estou saindo para o almoço, eu posso te tirar daqui, te levar para tomar algo, você precisa se acalmar um pouco.

Nego novamente, me sinto confusa e doente. Tenho medo de sair com ele, de ser levada novamente, de ser abusada por estar vulnerável. São tantas coisas rondando minha cabeça. Todas as imagens de sexo com Daniel vão surgindo e eu acabo lembrando de cenas que queria esquecer.

— Aonde você vai almoçar? — Pergunto baixo, a voz quase não saindo. Meus olhos buscando os seus, tentando ler sua alma e suas intenções.

— Em um restaurante aqui perto, mas posso te levar a uma lanchonete mais tranquila, você que sabe. Eu só quero te ajudar a se acalmar, você não deve sair sozinha assim.

— Pode ser o restaurante mesmo. É aqui próximo, podemos ir à pé mesmo. — Digo sem conseguir me imaginar entrando em um carro com ele.

— Tudo bem, como quiser. — Ele vai caminhando devagar até a saída. Caminho distante dele, puxando o crachá da bolsa e liberando minha saída.

Minha vontade é jogar o maldito cartão fora, deixar tudo aqui para trás. Acompanho os passos de André e tento me recompor à medida que vamos chegando ao restaurante.

— Quer falar o motivo que te deixou tão transtornada? Se quiser pode confiar em mim. — Ele fala calmo olhando em meus olhos. Eu sinto algo tão confortante em seu olhar.

— Me demiti. — Falo simplesmente. — Não sabia o quanto conhecia o Doutor Daniel.

Digo desviando o olhar do seu, passo a observar o ambiente e as pessoas ao redor.

— Por que? Lá parece ser um lugar bom de trabalhar. Não conheço tão bem o doutor Daniel, mas ele me parece uma ótima pessoa. Alguém que eu até gostaria de ser amigo. — Ele sorri de verdade enquanto fala.

Sorrio irônica, contendo a vontade de gargalhar. Não quero chamar a atenção de todos para mim.

— Dele eu quero distância. Não tenho vontade alguma de vê-lo novamente, nem respirar o mesmo ar que ele.. Logo agora que tudo estava dando certo... — Digo tapando o rosto com minhas mãos.

— Como assim? Eu não entendo. Minha mãe sempre diz que sou ótimo em ver as pessoas de verdade, sabe. Pelo olhar. Será que me enganei pela primeira vez com Daniel? Ele não me parece ser alguém ruim.. tenho certeza que ele tem marcas na vida, mas não vejo maldade nele. — Ele me observa, suspira e diz; — Pelo visto me enganei mesmo. Se em algum momento quiser conversar pode contar comigo

Marcas do PassadoOnde histórias criam vida. Descubra agora