Daniel.
Quando me atrevo a abrir os olhos dinovo o mestre da reunião já está de pé no centro do círculo novamente e seu olhar ainda está em mim.
— E como é pra você conviver com isso Daniel, você nunca mais viu a garota. Você pensa nela, em como ela estaria hoje, em como ela se sente?
Neste momento eu sinto vontade de rir da minha desgraça e de como o destino brincou comigo. Respiro fundo antes de voltar a falar em um fio de voz.
— Eu reencontrei a garota, depois de 10 anos, mas eu reencontrei. Antes eu sempre sonhei com isso, eu sempre sonhei com o dia que eu a encontraria mais uma vez e teria a oportunidade de lhe dizer o quanto eu sinto muito. Como se eu realmente tivesse esse direito, como se isso fosse algo importante. Hoje eu vejo que eu fui um egoísta. Eu só pensei em mim e no meu sofrimento, sendo que o dela e muito maior. Quando eu a encontrei eu não a reconheci, ela também não me reconheceu. E então como uma brincadeira cruel da vida nós nos apaixonamos. Eu sei, é loucura. Depois que eu descobri quem ela era tudo acabou. As lágrimas começam a cair sem controle pelo meu rosto e eu tento frea-las a todo custo. — Mas eu ainda a amo. Eu sei que é errado, que eu nunca poderei ficar com ela, porque ela merece algo melhor do que eu. Mas eu simplesmente não consigo evitar, esse sentimento e mais forte do que eu.
Não consigo continuar a falar, não consigo formular mais uma palavra sequer. O homem se aproxima de mim e volta a falar, direcionando o seu olhar a todos os presentes.
— Daniel, eu vou te falar uma coisa é isso vale para todos aqui. Nenhum sofrimento deve ser medido. A gente acaba adquirindo um complexo de inferioridade, por ser-mos os agressores pensamos que não temos o direito de sofrer, que pelo sofrimento que causamos a alguém inocente pensamos que temos que sofrer eternamente e só o sofrimento do outro que importa, não o nosso. Com certeza a sua vítima teve que viver um inferno, não podemos minimizar isso mas isso não significa que você também não tenha vivido. E complicado falar sobre isso, mas como eu disse, não podemos medir sofrimento. Cada um sabe a dor que carrega e o limite que conseguimos suportar. E isso é diferente pra cada pessoa, talvez a sua vítima consiga ser mais forte do que você inclusive. E agora entramos no centro do nosso tema de hoje, o consentimento. Se tudo o que vocês tiveram quando se reencontraram foi consentido não houve nada de errado, vocês não sabiam do horror que liga vocês. Vocês tiveram a oportunidade de se conhecerem de verdade, pelo que cada um e de verdade, e não só pelo estupro. Talvez agora que vocês sabem da verdade pode ser que não consigam ficar juntos, porque as mágoas podem ser mais fortes. Mas e algo que só ela pode te responder se isso é o que realmente acontece. Você não pode pensar por ela e decidir o que é melhor de acordo apenas com o que você acredita. Ela também precisa opinar nisso. Isso vale para todos vocês, não forcem uma aproximação ou um afastamento com suas vítimas com base só no que vocês acham que seja o melhor. Cabe a elas decidir sobre isso.
As palavras dele ecoam por minha mente e eu juro que não sei como me sentir ou proceder com relação a isso. A verdade é que eu acho que não concordo com isso. Não acho que ele esteja certo. Mas as palavras dele de alguma forma mexeram comigo, porque depois daquelas palavras eu praticamente não consegui prestar atenção no restante da reunião.
Sei que a conversa se focou nas várias formas de consentimento e não consentimento e não consentimento, os sinais de cada um e como poderíamos identificar o sim e o não, mesmo que não fossem dados de formas tão claras. Eu realmente queria conseguir prestar toda a atenção naquela conversa, sei que eu precisava ouvir e entender tudo aquilo, mas a única coisa que eu conseguia pensar era na conversa anterior. Minha cabeça estava fervilhando de pensamentos, um turbilhão de sentimentos.
Eu nem percebi quando a reunião acabou e todos já estavam na porta, conversando uns com os outros. Me obriguei a levantar e sair devagar dali, ainda não me sentia parte daquilo tudo, ainda não conseguia me enturmar.
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Marcas do Passado
RawakDaniel e Kelly, dois corações machucados e marcados para sempre pelo passado de cada um. Será que o amor pode uni-los e cicatrizar as marcas que o passado deixou? Venha ler e embarcar nessa história com muito drama e romance. **** Atenção, essa hist...
