Capítulo 36

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Kelly

Eu estou deitada em minha cama tentando colocar meus pensamentos em ordem. A conversa com dona Kátia passa mais de uma vez por minha mente, como se fosse um filme.

Meu celular já tocou diversas vezes e era André provavelmente querendo saber se sairíamos hoje como combinamos quando ele me deixou na farmácia.

Ignoro as ligações, eu preciso refletir e não estou em condições de falar agora. Depois me sento com ele para explicar tudo.

  Acredito que de tudo o que eu ouvi da mãe de Daniel naquele carro, o que mais mexeu comigo foi saber o que ela passou e o fato de ter conseguido perdoar o seu estuprador. Eu confesso que queria poder sentir o quanto o perdão pode ser libertador e maravilhoso como ela disse, mas a cada dia que passa eu percebo que isso será impossível para mim. Eu nunca conseguirei esquecer ou perdoar. Nunca.

Ouço a campainha tocar e por um momento eu continuo deitada querendo continuar exatamente como estou, mas me lembro que minha mãe deve evitar se movimentar muito então me levanto e vou correndo até a porta para atender.

Assim que abro a porta encontro um André sorridente com uma caixa de chocolate nas mãos. Eu não consigo deixar de sorrir também, pois isso sempre acontece quando estou com ele. O que me faz pensar que eu devia ter atendido as suas ligações antes, assim eu já estaria mais animada.

— Me desculpa ter vindo sem combinar com você Kelly, mas como não atendeu minhas ligações eu pensei que precisasse se distrair um pouco. Se preferir eu posso ir embora e podemos conversar quando achar melhor sem nenhum problema querida. Contanto que aceite o chocolate. — Ele estende a caixa para mim com aquele sorriso lindo ainda nos lábios.

— Eu querer que você vá embora? Claro que não. Neste momento estou até me perguntando o porquê eu não atendi o telefone e pedi para que viesse aqui imediatamente. —  Falo sorrindo com um tom divertido na voz. Pego o chocolate de suas mãos abrindo a caixa para pegar um e começar a comer.

— Bom então isso significa que posso entrar, certo? — Ele me responde no mesmo tom divertido.

— Claro que pode.

Dou passagem a ele que entra orgulhoso de si, fechando a porta em seguida. Ele se senta no sofá e eu faço o mesmo, me sentando ao seu lado.

— Onde está sua mãe? — André pergunta olhando para a minha barriga como sempre faz.

— No quarto. Ela voltou agora pouco da consulta de retorno com o médico.

— Agora a tarde, certo?

— Sim — abro um doce sorriso achando muito fofo o fato de ele estar tão preocupado com o bem estar da minha mãe.

Eu adoro isso nele. Sempre se preocupando com os outros primeiro. Isso É admirável.

— E como foi a conversa com a Dra Kátia? Falou com ela sobre a sua mãe?

— Não.. Eu nem me lembrei de falar disso para ser sincera. Me desculpa mas não quero falar sobre a conversa agora pode ser?

— Claro. Sabe no que eu estava pensando? Ele diz já desviando do assunto incomodo.

— No que? — Pergunto curiosa.

— Que eu poderia fazer um maravilhoso jantar para as mulheres da casa, o que acha?

— Seria incrível, mas você sabe cozinhar? — André me dá um tapa leve em meu braço ao ver o meu rosto incrédulo e meus olhos arregalados direcionados a ele.

— Me olhando desse jeito você até me magoa, querida. Está duvidando dos meus dotes culinários é isso?

— Não, claro que não. — Falo em meio às gargalhadas enquanto André continua sério mantendo a sua falsa pose de homem bravo e ofendido.

Marcas do PassadoOnde histórias criam vida. Descubra agora