Capítulo 23

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Daniel

Eu voltei a trabalhar há mais ou menos uma semana, mas confesso que o meu ânimo não tem mudado nada desde então. Nem o trabalho que antes era uma espécie de válvula de escape para mim é capaz de me distrair.

Acho que nada é capaz de me entreter e amenizar minha culpa, que agora está ainda mais forte e presente em mim desde quando reencontrei o motivo dela. Kelly.
Mesmo sabendo que eu e ela nunca mais seremos um casal novamente parece que o meu lado emocional não entendeu isso, porque os meus sentimentos pela Kelly continuam aqui, intactos e exatamente como eram antes que eu descobrisse toda a triste e dolorosa verdade que nos envolve.

Não deixei de pensar nela todos os dias, nas conversas e risadas que demos na copa. Não esqueço nossos beijos quentes que não tinham hora e nem lugar certo para acontecer ou em nossa primeira e única noite de amor, tão intensa e especial para nós dois que com certeza será inesquecível para mim.

Meus pensamentos são interrompidos por conta do barulho do interfone. "Tem alguém querendo entrar que não está na lista de autorizados do dia". Falo em mente, curioso e intrigado com aquilo.

Me levanto devagar na direção do interfone atendendo em seguida.

- Pois não? - pergunto com naturalidade na voz sem denunciar a minha curiosidade com aquela ligação.

- Doutor Daniel, tem uma mulher aqui que exige falar com o senhor. Eu disse que ela não poderia entrar, que é preciso marcar um horário antes mas ela é insistente, diz que é um assunto do seu interesse e parece muito nervosa, quer que eu chame a segurança para garantir que ela não entre?

A voz da recepcionista é exasperada demais, fazendo com que eu tenha que me esforçar para processar todas aquelas informações Me pergunto quem estaria tão ansiosa para me ver a ponto de ser tão insistente assim.

Por um breve momento de insanidade pensei que pudesse ser Kelly, mas é claro que ela jamais voltaria a me procurar. Além do mais se fosse ela a recepcionista não tocaria o interfone, já que a sua entrada continua autorizada.

- Lia, você tem o nome da moça? - Eu pergunto voltando a me concentrar na ligação.

- Sim. O nome dela é Carolina de oliveira, conhece?

Aquele nome me parece bastante familiar, mas não consigo me lembrar de imediato a quem ele pertence. Mesmo assim, decido deixar que a pessoa suba, assim posso resolver de uma vez o assunto que a trouxe aqui.

- Pode mandar subir por favor.

- Claro, como quiser doutor.

- Muito obrigado. Até mais.

Assim que eu desligo o interfone já fico na porta, aguardando que a mulher suba. Não demora muito para que eu veja a mãe de Kelly vindo em minha direção. Acho que eu seria capaz de reconhecê-la só olhando os seus olhos que estão sempre marcados pela raiva quando me vêem.

Com sua feroz aproximação acabo dando alguns passos para trás, a fim de lhe dar passagem para que entre. Nossos olhos se encontram eu sinto vontade de abaixar a cabeça, mas não o faço. Uso todo o meu autocontrole para me manter forte.

- Dona Carolina, a senhora quer alguma coisa, um café ou urna água? - Pergunto com meus olhos ainda nos seus.

- Não, eu não quero nada que venha de você. - Ela diz ríspida, mas seus olhos vacilam por um instante e ela torna a falar - Na verdade eu quero sim, uma única coisa. Depois de todo o mal que você nos causou será que você poderia nos fazer só um favor doutor Daniel?

A raiva que ela direciona a mim é quase palpável e a ponto de ser bastante intimidadora, mas pela primeira vez em todos estes anos eu me sinto forte. Não vou deixar que a dor e a culpa acabem comigo nesta conversa.

- Claro, o que quiser. - Respondo com a voz firme.
- Nunca mais, em hipótese alguma, se aproxime novamente da Kelly. Saiba que ela já tem ao seu lado alguém que irá protegê-la de você.

- Bom, dona Carolina, eu gostaria de dizer que eu não voltei a procurar a sua filha. Quando nos encontramos no hospital foi uma coincidência, eu não armei aquele encontro. - Tento engolir em seco, mas a saliva vira uma rocha em minha garganta - E quanto ao namorado, ficante ou sei lá o quê da Kelly, eu já sei, já os vi juntos aos beijos tá bom? Não precisaria ter se dado ao trabalho de vim até aqui para me informar isso.

Pela primeira vez eu senti raiva de Kelly ao constatar que ela e André realmente estavam juntos. Quer dizer que tudo aquilo que ela demonstrou durante o tempo que estivemos juntos foi falso. Todo o sentimento que ela tinha por mim, o medo de ser tocada por um homem, - medo esse que foi causado por mim - que fez com que eu me culpasse ainda mais.
N

as nada daquilo foi verdade, já que com André não existiu nenhuma barreira ou receio. Tudo se desenvolveu de uma forma tão rápida, afinal faz só um mês que estamos separados. Mas mesmo assim eu desejo que ela seja muito feliz ao lado dele, que ele seja um homem maravilhoso para ela.
- Que ótimo querido, que bom que temos um acordo - a voz dela sai carregada de ironia, cheia de veneno.

- Claro. Mais alguma coisa? - A respondo no mesmo tom.

- Sim. Tem uma coisa que você precisa saber.. você vai acabar descobrindo mais cedo ou mais tarde através de alguém, então é melhor que seja por mim que sou mãe da Kelly. Até para que você não possa usar o fato de não saber de nada contra a Kelly em um tribunal. - Suas palavras me confundem, mas fico atento para ouvi-la - Kelly está grávida de um filho seu. Mas tenha a certeza de que você não terá contato algum com essa criança. Estou garantindo isso.

Após dizer tudo aquilo, ela simplesmente sai rápido o suficiente me deixando sem reação. Totalmente sozinho aqui, sem me dar tempo de dizer qualuer coisa

Me sento na cadeira mais próxima, deixando que todas as novas emoções sentidas me invadam com tudo. Sinto uma felicidade indescritível por saber que eu serei pai, mas também sinto tristeza por todas as circunstâncias que eu e a mãe desse bebê nos encontramos juntamente com um grande cansaço emocional por saber tudo que eu terei de enfrentar se eu quiser ter algum contato com o meu filho.
Mas neste momento enquanto eu penso em alguma fórmula milagrosa para contornar tudo isso, decido tentar a única coisa que está ao meu alcance agora que é conversar com Kelly.
Eu irei até a casa dela o mais rápido possível, é a única solução que tenho para o momento.

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