Capítulo 40

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Kelly

A quinta-feira chegou rapidamente. Eu estou deitada em minha cama pensando no caos que está a minha vida. Amanhã fazem duas semanas que vivo em uma espécie de contagem dos dias quase que interminável, uma ansiedade e uma espera. Espera para que Daniel reaja e acorde.

Mas nada mudou. Tudo continua exatamente igual ao dia em que acordei no hospital.

Na verdade tudo é mais preocupante agora, por já fazer 10 dias que ele não está mais em coma induzido, o que significa que o seu estado de inconsciência é natural.

Ele já poderia ter acordado. Mas não aconteceu e isso me dá uma angústia enorme.

Me sento na cama antes de levantar de vez. Eu me sinto totalmente inquieta, pois quase não dormi direito a noite e foi  até difícil encontrar uma posição que fosse minimamente confortável.

Creio que o meu bebê também esteja sentindo todo este stress emocional constante que estou passando.

Na segunda-feira tive um mal estar e minha pressão baixou significativamente. Naquele momento o medo de que algo ruim acontecesse com o meu filho me tomou, ainda mais agora que estou na fase final da gravidez. Nesse momento todo cuidado é pouco.

Olho no relógio de parede do meu quarto e vejo que já são 11 horas, o que significa que é hora de me levantar e me arrumar, pois daqui a menos de uma hora Kátia virá me buscar para mais um almoço juntas.

Nós temos feito isso sempre desde que convidei Katherine, para almoçar comigo no dia seguinte ao atropelamento de Daniel. E então isso se tornou uma rotina para nós, almoçamos juntas quase todos os dias.

No início éramos só eu e Katherine, mas dona Kátia logo se juntou a nós também.

Acho que isso tem sido ótimo para todas nós. Para mim era bom porque assim eu poderia ter notícias do que estaria acontecendo no hospital de forma mais rápida já que eu não conseguia estar lá tanto quanto eu gostaria, por meu trabalho tomar praticamente todo o meu tempo.

No entanto, eu tenho que agradecer muito por estar trabalhando, caso contrário os meus problemas seriam muito maiores. Já para elas é bom poder colocar toda aquela carga emocional para fora, falar sobre aquilo que estão vivendo é extremamente importante para cada uma.

Decido deixar meus pensamentos de lado e me levantar, preciso tomar um banho rápido para logo me arrumar. Estou quase atrasada.

Assim que saio do banho visto uma calça legging confortável, uma blusa bem solta e só quando termino de vesti-la é que percebo o quanto minha barriga está grande e aparente.

Abro um enorme sorriso para mim mesma olhando aquilo feito uma boba. Aliso levemente e recebo um chute do meu bebê como resposta, o que me deixa ainda mais contente. SSinto que eu o amo mais a cada dia que se passa, como se isso ainda fosse possível.

Nunca pensei que haveria espaço em meu coração para tanto amor por um ser tão pequeno, tão dependente de mim e que eu ainda nem conheço direito.

Faltam aproximadamente três meses para o seu nascimento e pensar nisso me deixa extremamente ansiosa.

Tem acontecido tanta coisa desde que me descobri grávida que nem tive tempo para pensar nisso ou até mesmo curtir a gravidez com mais frequência.

Me dou conta que nem ao menos pensei em que nome para dar ao meu filho. Reflito por alguns segundos tentando encontrar um nome que eu me identifique, mas nenhum se prende em minha mente.

Meus pensamentos são interrompidos pelo toque da campainha. Provavelmente de dona Kátia que já está me aguardando ao lado de fora.

Penteio meus cabelos rapidamente, calço uma sapatilha e corro para abrir a porta. Assim que abro encontro uma Kátia mais séria do que o normal e meu peito se apertar, causando um frio por todo o meu corpo.

— Aconteceu alguma coisa? — Pergunto apreensiva. Parece que minha pergunta demora bem mais do que alguns segundos para ser respondida, tamanha é a minha ansiedade.

— As atividades cerebrais de Daniel diminuíram ainda mais. A situação é delicada.

Sinto as lágrimas querendo escapar por meus olhos, mas busco manter o mínimo de controle por preciso dar forças para ela e não desespera-la ainda mais.

— Katherine está no carro?

Eu pergunto olhando diretamente em seus lindos olhos azuis.

— Sim. Eu lutei mas consegui convencê-la a vir almoçar conosco, afinal é preciso tentar relaxar um pouco. Não poderemos fazer mais nada além de esperar que as coisas melhorem. É desesperador, mas infelizmente é a realidade.

Vejo que algumas lágrimas estão caindo pelo seu rosto, mas logo são secas por uma de suas mãos. Eu a abraço forte, tentando lhe transmitir todo o meu carinho e proporcioná-la algum conforto.

— Quer entrar e tomar uma água? — Indago sem me afastar completamente do seu abraço. — Não, muito obrigada. Eu tomo alguma coisa lá no restaurante. Vamos?

— Kátia diz se afastando devagar do nosso contato.

— Claro. — Digo fechando a casa e pegando sua mão em seguida para iniciar a caminhada.

A viagem até o restaurante é relativamente curta, passamos a maior parte do tempo em silêncio que foi interrompido apenas por algumas perguntas de Kátia sobre minha gravidez ou minha mãe.
Eu respondi que eu agora estava bem, que o mal estar da segunda-feira havia sido apenas por conta da queda de pressão. Disse a ela que havia conseguido três dias de atestado para que ficasse mais quieta e foi exatamente isso o que fiz durante este tempo.

Comentei que minha mãe tem ido todos os dias a fisioterapia, uma van da prefeitura ia buscá-la em casa bem cedo e eu tinha conseguido ir com ela em sua primeira avaliação em São Paulo.

O doutor Marcos, amigo de dona Kátia, a atendeu e fez alguns exames para dizer que ela já tinha tido uma boa melhora em suas condições clínicas, comparado aos primeiros exames que foram feitos ainda no hospital e que ele faria o possível para acompanhá-la na próxima consulta que seria dali a poucos dias.

O almoço se seguiu da mesma forma, poucas palavras e muito silêncio. Me senti feliz quando consegui fazê-las sorrir algumas vezes com piada boba que eu fiz apenas para tentar descontrair um pouco.

Não demorou muito para que voltássemos ao o hospital ao lado do restaurante.

Kátia tentou insistir para que eu não fosse com elas e voltasse para casa, mas dessa vez fui irredutível. Já fazia uma semana que eu não visitava Daniel, e sentia que precisava desesperadamente vê-lo.

Assim que chegamos no hospital Kátia liberou minha entrada como visitante já que ainda estávamos no horário. Ela foi comigo para ajudar a me preparar para entrar na UTI. Uma roupa especial foi colocada por cima da minha própria, assim como uma máscara para evitar qualquer tipo de contaminação ao local e a mim também.

Assim que termino todo o procedimento necessário sou acompanhada por uma enfermeira até o quarto em que Daniel está.

— Você tem 10 minutos com ele, tá bom? — A moça fala assim que entramos no quarto.

Apenas afirmo como resposta e ela entende o meu silêncio, me deixando sozinha no quarto. Logo que ela fecha a porta eu me aproximo devagar de Daniel.

Ao vê-lo imóvel diante de mim, sem mexer um dedo sequer de tão frágil, eu finalmente me permito chorar sem controle por tudo o que deu errado em nossas vidas, por todo o nosso passado.

Me aproximo mais e seguro sua mão, deixando carícias nela desejando que no fundo ele possa sentir o meu toque e saber que eu estou aqui ao seu lado, pronta para permitir que ele seja um pai para o nosso filho, pronta para dizer que eu o perdoo por tudo o que aconteceu à dez anos atrás.

Marcas do PassadoOnde histórias criam vida. Descubra agora