Daniel
Acordo cedo novamente, pois antes de ir para o escritório tenho que buscar a minha irmã no aeroporto. Ela volta hoje para o Brasil depois de quatro anos nos Estados Unidos, onde fez intercâmbio. A minha relação com ela não poderia ser pior. Katherine não perde uma oportunidade sequer de me maltratar.
Nem sempre foi assim, nós tínhamos um ótimo relacionamento. Nós sempre brincávamos juntos e ela me adorava, mesmo com oito anos de diferença de idade entre nós. Mas à medida que ela foi crescendo as coisas foram mudando, ela começou a nutrir uma raiva por mim que nunca consegui compreender. Tudo ficou pior com o passar do tempo. Sempre que ela vinha ao Brasil para as festas de final de ano, fazia questão de me ignorar. Esta situação me machucava muito. Para mim ela continua sendo a irmã que eu amava tanto, mas para ela as coisas não são mais assim.
Interrompo meus pensamentos e forço um ânimo para levantar da cama. Me arrumo rapidamente e sem focar em meus pensamentos para evitar atrasos. Depois que termino de me vestir, olho no espelho uma última vez. A imagem ali é de um homem elegante e sem preocupações, consegui criar essa máscara perfeita nos últimos anos. Talvez ela estimule Kath à esquecer seu desgosto e falar comigo normalmente. Passo pela casa silenciosa, pois minha mãe ainda está dormindo.
Chego no aeroporto cinco minutos antes do horário previsto e espero Katherine no portão de desembarque. Minha ansiedade não me deixa quieto, então eu ando ao redor do local para extravasar essa carga emocional. Quando a tela mostra que o voo pousou, eu visto novamente a minha postura ereta e o rosto relaxado, enquanto eu olho cada rosto que sai pelo portão, procurando o de minha caçula. Ela aparece sem atrasos, um sorriso genuíno em seu rosto, os cabelos soltos e arrumados. Nem parece que ficou horas dentro de um avião. Assim que ela me vê, seu sorriso se desmancha. Ela se aproxima de má vontade, puxando sua mala de rodinhas e carregando uma outra bolsa nas mãos. Todo o seu semblante se modificou.
— Por que você veio? — Ela fala em um fio de voz, com a raiva explícita no seu rosto. — Achei que a mamãe viria me buscar. Você nem precisaria se incomodar, eu poderia perfeitamente ir de táxi.
— Bom dia pra você também Katherine, como foi de viagem? — Tento ignorar seu desprezo e ser o mais gentil possível.
Minha irmã não me responde, empina o nariz como se eu fosse qualquer um e sai rapidamente até o ponto de táxi do aeroporto. Eu a sigo logo atrás, tentando convencê-la de ir comigo.
— Katherine, espera... Vem comigo!
— Não. Eu não quero ir com você! Por favor, não me siga. — Ela fala sem parar de caminhar, mas para depois de alguns passos e se vira para mim. — Será que você pode respeitar a vontade de uma mulher uma vez na sua vida?
Aquelas palavras me atingem em cheio. Sento no banco mais próximo para evitar o desmaio. A fraqueza e o desânimo me envolvem instantaneamente. As pessoas passam por mim e não percebem o quanto estou passando mal. Vejo a minha irmã se afastar e entrar em um táxi parado na porta do aeroporto. Me sinto perdido, sem saber o que fazer e sem saber ao certo o que sentir. As lágrimas saem sem controle, destruindo por completo a minha máscara.
Não sei por quanto tempo fiquei ali sentado naquele estado, mas em determinado momento eu me forcei a levantar e ir devagar até o meu carro. Sei que não tenho o mínimo de condições de dirigir, mas ficar sentado ali também não adianta nada. Sento no banco do motorista e começo a dirigir sem rumo, dando voltas e indo para nenhum lugar específico. Minha mente grita por descanso, mas eu não faço a mínima ideia de como satisfazer sua vontade.
Depois de alguns minutos dirigindo resolvo parar em um acostamento, acompanhando o vaivém dos carros que passavam por ali. Pensamentos ruins me rondam. A minha vida passa como um filme em minha mente.
Antes que mais besteiras passassem pela minha cabeça o meu celular toca no meu bolso e eu deixo tocar, não sinto vontade de atender, não quero conversar com ninguém. Mas depois de um tempo ele toca novamente. Então resolvo atender, pois pode ser a minha mãe preocupada comigo ao não me ver junto com a minha irmã. Pego o celular e vejo o número do escritório no visor.
— Alô, algum problema? — A minha voz sai mais baixo do que eu gostaria, denunciando um pouco o meu estado de espírito.
— Oi doutor Daniel, me desculpe incomodá-lo.. é que surgiram algumas dúvidas aqui, e tem alguns documentos que precisam da sua assinatura pra hoje. Desculpa a intromissão doutor, mas tá tudo bem? — Ouço a voz de Kelly do outro lado da linha, me causando um alívio que não consigo entender exatamente o porquê.
— Não. — Eu disse sem pensar.
— Nossa, precisa de algo?
— Não, já estou indo para o escritório.
— Tudo bem, então.
— Até daqui a pouco então. Logo já chego aí. Até mais. — Digo em um tom mais próximo do normal.
— Até. — Ela me responde e eu desligo e ligo o carro, e volto a dirigir até o escritório. A Kelly me salvou com aquela ligação, mesmo sem saber.
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Marcas do Passado
De TodoDaniel e Kelly, dois corações machucados e marcados para sempre pelo passado de cada um. Será que o amor pode uni-los e cicatrizar as marcas que o passado deixou? Venha ler e embarcar nessa história com muito drama e romance. **** Atenção, essa hist...
