Capítulo 55

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Daniel.

Assim que chego na delegacia eu vou direto na direção de Julha, eu sinto que preciso dar suporte a ela, apoia-la em todo esse processo, que eu tenho certeza que está sendo extremamente difícil para lidar.

— Oi . Eu digo baixinho, tocando seu ombro de leve para que ela perceba que sou eu ali. — Você não fez a denúncia ainda, certo? Eu espero não ter demorado muito.

— Não. Eu estou esperando a delegada poder me atender. Julha diz quase sem me olhar, com a cabeça levemente abaixada.

— Não tenha medo, você está fazendo a coisa certa.

— Eu não sei. Não tenho certeza de que essa é a melhor opção sabe? Eu penso que não seja preciso tudo isso. Eu amo o Carlos, e ele me ama também. Eu e ele somos casados há 15 anos doutor. Assim que Julha termina a sua fala, o nervosismo está explícito em suas expressões.

— Não, eu acredito que ele não te ama. O que ele faz com você não é amor. O amor não é isso, ele não machuca dessa forma. Se ele te amasse ele iria querer tanto a sua felicidade todos os dias. Ele nunca conseguiria te bater. O que ele sente por você e algo doentio, ele pensa que é propriedade dele, e como propriedade dele ele pode fazer com você o que quiser. Carlos gosta do poder que exerce sobre você, e do medo que isso te causa. E isso é obsessão, loucura, qualquer coisa assim, mas não é amor.

— Você parece ser tão jovem doutor. Tudo isso que o senhor falou e muito bonito, mas acho que o senhor não sabe que as relações entre um homem e uma mulher são complicadas, o amor é complicado. Julha diz, dando um sorriso fraco em minha direção.

— Eu concordo que as relações entre as pessoas podem ser complicadas, porque nós seres humanos somos tão diferentes uns dos outros. E o amor pode sim ser bem complicado, mas não de uma forma que justifique uma ou várias agressões. Sabe, eu amo uma pessoa que eu machuquei muito no passado, eu tenho total consciência de que quando eu a machuquei eu não a amava. E hoje eu nem sequer tento fazer com que ela fique comigo porque eu sei que não a mereço. Ela merece toda a felicidade do mundo, ela merece tudo que eu não posso dar. Amar é desejar o melhor a quem se ama, mesmo que esse melhor não seja com a gente. Eu desvio o olhar tentando conter a emoção inesperada que me atinge ao me lembrar de kelly e do quanto eu gostaria que as coisas pudessem ser diferentes. Que eu nunca tivesse feito a merda que fiz. Que eu pudesse sentir os beijos quentes que ela sempre me dava. Que pudesse ouvi-la dizer que me amava tantas outras vezes. Mas infelizmente eu nao posso ter nada disso. Eu pensei que ja soubesse lidar com essa realidade, que eu ja tinha aceitado. Mas nesse momento eu percebo que não. Eu sei que eu e kelly jamais poderemos ficar juntos, mas eu não consigo evitar que isso me cause um aperto no meu peito e uma dor quase física. Procuro desviar estes pensamentos e focar na mulher que está a minha frente, me olhando.

— Talvez se o amor seja assim, como você fala eu não o conheça. Ela me lança um sorriso fraco ao mesmo tempo em que percebo lágrimas querendo sair de seus olhos.

— Mas você ainda pode conhecer, você ainda é jovem e muito bonita, ainda tem a chance de encontrar alguém que te ame de verdade e que te faça muito feliz porque você merece. Eu digo sorrindo para ela ao mesmo tempo em que aperto a sua mão levemente.

Vejo um sorriso sincero brotar em seu rosto. Antes que ela possa me responder qualquer coisa ouvimos um pigarro e assim que olhamos na direção do barulho vemos Sônia ao lado de Julha. Acabamos rindo todos juntos por não ter-mos percebido ela ali.

— Oi, desculpa interromper a conversa de vocês,:, mas eu vi alguém sair da sala da delegada, talvez ela logo te chame Ju. — Sônia fala, alternando o olhar entre mim e a mulher a minha frente.

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