Capítulo 31

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Kelly

Eu passei praticamente todo o caminho até o hospital em silêncio. Os acontecimentos de anteriores bombardeando minha mente de uma forma conturbada.
Até então eu não consigo entender direito o porquê de ter sido gentil com o Daniel se meu ódio por ele ainda é enorme.

Talvez possa ser o efeito dos mimos infantis - cada pessa uma mais linda que a outra - que me deixou totalmente encantada.

- Podemos ir? - André interrompe meus pensamentos com um largo sorriso no rosto e a porta do carro já aberta para mim.

- Desculpa. Eu estava longe - digo já descendo do carro.

- Percebi. Acho que sei exatamente qual é o motivo. - ele diz me olhando fixamente e eu posso jurar ver um ar tristeza em seu olhar.

- Eu não quero falar sobre isso. - Solto um pigarro e caminho em direção a entrada do hospital.

- Tudo bem. Também não quero falar de Daniel. Na verdade eu tenho uma coisa que queria muito falar. - diz abrindo um sorriso doce.

- Ah é? E o que seria, hein? - abro meu melhor sorriso. André me estimula com seu jeito divertido e o dom incrível que tem de me distrair.

- É uma coisa extremamente importante. - Ele novamente fixa seus olhos nos meus.

- Então, diga logo pelo amor de Deus! Já está me assustando - paro ao lado de fora da enorme porta do hospital e o encaro. André também se põe ao meu lado.

- Nós vamos ver a sua mãe, isso não é ótimo? - ao dizer ele gargalha da minha preocupação de que poderia ser algo mais sério.

Eu dou um tapa em seu braço, mas ele não para de rir. Logo eu não resisto e me divirto junto com ele. Depois de uns instantes de brincadeira, finalmente paramos de rir para que ele me pergunte:

- O que você achou que eu iria falar?

- Não sei, eu achei que era algo muito sério. Isso não se faz sabia? - recupero o ar arfando.

- Pois é, eu sou muito mal. Me desculpa princesa, mas prometo que isso não se repetirá novamente. - André fala ainda com seu tom divertido na voz.

- Assim espero mesmo. Agora vamos antes que eu resolva te bater mais um pouco. - Brinco com ele.

- Sim senhorita, eu não quero apanhar. - André diz entrando quase correndo até a recepção.

Assim que nos aproximamos do balcão, a recepcionista nos cumprimenta com um breve menear de cabeça, pois provavelmente ela se lembra do caso de minha mãe.

Antes de nos afastarmos depois de cumprimentá-la ela me olha e diz:

- O médico da sua mãe passou por aqui e disse que quando você viesse ele queria o encontrasse.

- Ele disse algo mais? Se era grave o motivo da conversa.

André se aproxima mais, pegando em minha mão e eu o agradeço silenciosamente por este contato.

- Na verdade acho que não é nada grave. Ele disse que é sobre a fisioterapia.

- Ah! Entendo. Então pode deixar que eu o procuro. Sabe se ele está no hospital hoje?

- Sim - ela responde sorrindo levemente para mim.

- Ok, muito obrigada. - acenando novamente e sigo na direção do elevador.

A visita a minha mãe e algo que sempre me faz muito bem, para mim. Estar ao lado dela me dá uma sensação gostosa de paz, pois se mantém forte mesmo eu sabendo que não está sendo nada fácil já que ela sente muita dificuldade para movimentar, principalmente o lado afetado pelo AVC, além de sentir dores fortes.

Antes que eu e Andréentremos no quarto de minha mãe com nossas mãos a mãos entrelaçadas uma na outra Assim que passamos por perto da porta, vemos o médico vindo na direção do quarto.

Vou ao seu encontro para que possamos conversar, já que esse foi seu recado para mim.

- Olá doutor, soube que o senhor queria falar comigo sobre a minha mãe, Carolina de Oliveira?

- Isso mesmo, eu quero sim.. Acredito que a enfermeira que acompanha o caso tenha falado com vocês ontem sobre o que a dona Carolina teve não foi? - apenas confirmo em resposta, indicando que ele continue. - Bom acredito que se tudo correr bem ela poderá ir para casa em dois dias. Não é necessário mantê-la aqui se as sessões de fisioterapia podem ser ser feitas fora do hospital. Então deixarei ela em observação por mais estes dias para me certificar que seu cérebro continue respondendo bem aos estímulos, caso as coisas se mantenham como estão, ela poderá ter Alta ..

- Mas, ela consegue andar doutor? - Pergunto aflita e com medo da sua resposta.
-Consegue sim. No entanto, eu recomendo que pelo menos nesta fase inicial do tratamento ela use a cadeira de rodas durante a maior parte do tempo. Pois sem a fisioterapia, se movimentar demais pode ser prejudicial a ela. Caso não use, ela terá que ficar mais tempo na cama. Seria quase um repouso absoluto.

- E ela vai ter que ficar por muito tempo assim?

- Eu não consigo te dar uma resposta precisa. Tudo irá depender da qualidade do tratamento e por isso eu gostaria de recomendar que; caso tenham condições, possam fazer o tratamento em um local de referência em São Paulo talvez. Seria bom para ela.

Eu olho para André, buscando processar todas essas informações. Como eu não tenho condições de arcar com um tratamento em São Paulo, além do fato de não poder simplesmente largar tudo e ir morar lá.

- Doutor, mas eu não tenho condições e também não tenho como largar tudo aqui. Tem que haver uma outra opção.

André olha para o médico, mas sem deixar de acariciar a minha mão, como se desejasse me transmitir força.

- Bom você não precisaria morar lá, o que eu estou sugerindo é uma espécie de acompanhamento extra em uma clínica de referência. Ela iria para lá uma ou duas vezes ao mês e ficaria de 2 a 3 dias apenas. Onde seria submetida a um tratamento de ponta, talvez nós até conseguíssemos que o tratamento fosse de forma gratuita, seria um gasto a menos. Mas é apenas uma sugestão, podemos sim fazer todo o tratamento aqui. Só não teremos os mesmos recursos que eles. Porém, te garanto que não faltará dedicação.

- Deixa eu ver se entendi, ela faria o tratamento aqui mas iria a São Paulo sempre que possível a fim de que tenhamos melhores resultados é isso? - André pergunta ao doutor.

-Exatamente. Eu gostaria de deixar claro que: é somente uma segunda opção. Caso vocês não tenham condições para este tratamento alternativo faremos o tratamento aqui. Existem profissionais ótimos na cidade.

- Entendi e muito obrigada, eu vou pensar a respeito. Talvez seja uma boa ideia tentar melhores resultados e vou tentar me organizar para isso. - tento parecer o mais otimista possível em minhas palavras para não demonstrar como me sinto exausta emocionalmente.

- Como quiser, eu me proponho a ajudar no que estiver ao meu alcance seja qual for a sua decisão. Agora se me der licença tenho que continuar com as minhas visitas - ele aperta a minha mão, aperta a de André em seguida e se afasta entrando no quarto ao lado do de minha mãe.

André me abraça fortemente e acaricia meus cabelos.

- Fica tranquila. Vai dar tudo certo! Eu estarei com você, sempre - sua voz baixa está acalmando meus sentimentos e seu corpo se aproximando ainda mais do meu.

- André.. - Eu não consigo formular uma frase, apenas deslizo meus dedos por seu rosto.

Os instantes passam e quando dou por mim, meus lábios estão nos seus em um beijo delicado e cheio de carinho. André me beija da maneira mais doce possível e eu aceito esse contato que me deixa confusa, mas me deixo levar pelo momento e apenas faço o que sinto vontade agora. Retribuo o beijo da forma mais doce que posso.

Marcas do PassadoOnde histórias criam vida. Descubra agora