Capítulo 50

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Kelly.

Eu estou a mais ou menos 15 minutos na frente do espelho, não que eu esteja o usando para me olhar várias vezes, indecisa com que roupa vestir. E porque estou nervosa, andando de um lado para o outro tentando pensar. Matheus dormiu assim que terminou de mamar e agora está tranquilo em minha cama.

Eu confesso que sinto medo, medo de deixar meu neném aqui, eu nunca fiz isso antes, nem por 5 minutos e isso me deixa apreensiva. Mas na verdade acho que o que quero mesmo é fugir de reviver o passado. Eu sei que frequentar a ong provavelmente será bom para mim, eu preciso disso, preciso me tratar. Mas eu sinto receio, e eu nem sei ao certo o porquê.

Decido parar de andar pelo quarto e descer de uma vez. Ativo a babá eletrônica ao lado da cama e desço devagar.

Daniel está sentado no sofá e me olha mais tempo que o necessário assim que eu apareço no seu campo de visão. Ele parece se dar conta disso é desvia um pouco o olhar.

— A kath já tá vindo pra cá. Daniel diz baixo, ainda evitando me olhar.

— Que ótimo. Eu dou um sorriso leve em sua direção antes de perguntar: — Algum problema, tá tudo bem? Eu digo me sentando no sofá também.

— Não... Claro que não. Ta tudo bem sim. E só que eu queria te dizer uma coisa, mas eu não quero que leve pro lado errado e pense mal de mim.

Não consigo deixar de rir ao ouvi-lo. — E porque você acha que eu pensaria mal de você? Fala logo vai. Falo ainda rindo dele.

— Sabia que é errado ri assim dos dramas alheios? Daniel responde sério, e isso me faz ficar séria também.

— Tá bom, me desculpa. Não vou mais rir de você. Respiro fundo para conter uma nova crise de riso que viria.

— Com todo o respeito, você está linda. Eu vejo o rosto de Daniel ficar extremamente vermelho assim que ele termina a frase. E como se o que ele tivesse me dito fosse algo muito errado.

— Obrigada. Eu sorrio, sentindo que provavelmente eu estou vermelha também. — E eu juro que se você pedir desculpa por me elogiar eu vou te expulsar daqui agora mesmo — finalizo ainda sorrindo.

— Tá certo, de desCu... Droga. E que eu não quero que pense que é algo além do que te achar linda. Não...

— Daniel não, por favor. Já conversamos sobre isso, relaxa. Eu não pensei nada. Você é quem está pensando por mim. Eu entendo o que quer dizer, você não quer que eu pense que você está me assediando de alguma forma. Eu já estou aprendendo sobre como essa sua mente tão problemática funciona. Mas não, eu não cogitei nada disso, porque o seu olhar não me passa esse tipo de coisa. Você evita me olhar intensamente, não me come com os olhos. Então não há como eu me sentir invadida ou como um pedaço de carne para você. E vamos encerrar esse assunto, ok? Ele acena que sim para mim antes de voltar a falar.

— O Matheus dormiu?

— Sim. Na verdade ele mamou meio dormindo. Ele está exausto. Eu digo sorrindo ao me lembrar que o meu filho não queria abrir os olhos nem pra mamar.

— E bom que ele aproveite toda essa fase, a infância e algo tão divino e lindo... Ele diz e eu posso ver o semblante triste ainda em seu rosto.

— Você tem razão, a infância e realmente a melhor fase da vida. Pelo menos para mim. Eu digo ainda sorrindo e o olhando nos olhos.

— Kelly, como você consegue ser tão iluminada? Tipo, como você consegue achar a infância algo tão maravilhoso mesmo com tudo o que te aconteceu?

— Porque o que me aconteceu não me impediu de ser feliz, e porque? Pelo fato de eu ainda ser uma criança. Sabe Dan, acho que a falta do meu pai me afetava bem mais do que o estupro quando eu era criança. Eu acho que é porque eu entendia que eu não tinha um pai como os outro amiguinhos da minha idade sabe? Quanto ao estupro eu não entendia bem o que era, o que tinha acontecido comigo. Então não me privou de continuar tendo infância. Claro que eu mudei um pouco sim, fiquei mais arredia, tinha pesadelos. Mas a minha inocência da época não permitiu que eu deixasse de ser criança. O que eu não posso dizer que continuou na minha adolescência ou na fase adulta. Quando eu entrei na puberdade aí o pesadelo começou. Eu odiava o meu corpo, e as paqueras. Caramba, essa parte era difícil. Os caras chegavam em mim mas eles não me entendiam. Mas também como um garoto de 13/14 anos vai entender a complexidade de tudo isso, nem eu entendia tão bem assim. Droga, já falei demais, e eu disse que não ia falar sobre isso, me desculpa.

— Não tem porque me pedir desculpa kelly. Eu fico feliz que você esteja desabafando sobre tudo isso, e o fato de estar fazendo isso comigo tem que me deixar feliz, não triste. E hoje, você ainda odeia o seu corpo? Não se sente bem com um contato masculino? Daniel me pergunta em um tom calmo, ainda me olhando nos olhos, mas seu corpo diz outra coisa completamente diferente. A cabeca levemente abaixada, o maxilar trincado. Parece que seu corpo inteiro está tenso.

— Dan... Me aproximo mais dele e seguro a sua mão. — Hoje eu sinto que estou melhorando. Inclusive eu tô aqui, segurando a sua mão, e eu juro que eu estou bem com isso. E você não faz ideia do quanto isso tem significado para mim, eu também acho que já estou pronta pra me relacionar dinovo. Na verdade eu acho que eu já estava, por isso eu me relacionei com você antes de tudo o que aconteceu depois. Mas aí eu descobri tudo, nós descobrimos e como os adultos adoram complicar as coisas eu regredi nisso. Mas agora eu sinto que estou pronta novamente, e ter te perdoado foi decisivo nesse processo.

— Kelly... Você não faz ideia do quanto me sinto feliz ao ouvir isso. Finalmente as expressões dele parecem condizerem com as suas palavras, pois um sorriso enorme está no seu rosto. — Você pretende dar um passo a mais com o André? Ele me pergunta e eu tento ver o incômodo em sua feição mas não existe, o sorriso continua intacto em seu rosto, o que me faz me sentir a vontade para continuar o assunto.

— Pretendo. Eu vou pedi-lo em namoro. Sei que você vai achar idiota, que é ele quem devia pedir. Mas ele sente medo sabe? Medo de me pedir algo e não ser o meu momento. Então eu darei a confiança que ele precisa.

— Não, eu não acho nada idiota. Qual é o problema de você pedir ele em namoro? Só porque é mulher? Você que está sendo antiquada meu bem. E está mais do que certa em não esperar um pedido vindo dele, ele deve se sentir inseguro, e mais do que normal. O que pretende fazer para tornar esse momento especial?

— Eu não faço a menor ideia. Eu digo já me sentindo nervosa e ansiosa só de pensar nesse momento.

— Você o conhece bem querida. Faça ele se sentir confortável, deixe o ambiente com a cara dele, com coisas que ele gosta sabe?

— Ele gosta de um bom jantar. Tenho certeza que com isso ele vai entender que se trata de um momento especial assim que chegar aqui em casa. Eu digo com um sorriso bobo em meus lábios.

— Posso te dar um último conselho? Se veste de vermelho. Ele sussurra e nós dois acabamos gargalhando juntos.

— Você se tornou uma pessoa maravilhosa sabia? Eu nem sei como te agradecer por isso. Eu digo fazendo um carinho em sua mão.

— Me agradeça sendo o mais feliz que você conseguir kelly.

Antes que eu possa responder qualquer coisa somos interrompidos por Katherine entrando feito louca pela porta.

— gente me desculpem pela mega demora. Mas tá chegando o carnaval né? Então vocês devem imaginar o caos que está a porcaria do trânsito. Mas eu cheguei então agora vocês já podem ir porque eu quero o meu sobrinho só pra mim agora.

— Ele tá lá no meu quarto, dormindo como um anjo. Eu respondo sorrindo para ela ao mesmo tempo em que me levanto do sofá e pego minha bolsa. — Tem uma mamadeira com meu leite na geladeira, tem duas na verdade. Então quando ele acordar você pode dar. Ele pegou a mamadeira há uns 2 dias atrás quando eu dei pra ele quando achei que teria que sair e deixa-lo um pouquinho com a minha mãe. Mas caso ele não pegue me liga tá? Mas ele acabou de mamar então acho que quando eu chegar ele ainda não terá pedido...

— Kelly tá tranquilo, vai dar tudo certo tá? Eu sei que vai. Katherine me interrompe trabalhando de mim.

— Você tem razão, vai dar certo. Eu e que sou paranoica. Eu digo esperando que minhas palavras realmente entrem em minha cabeça e eu relaxe.

— E isso aí. Agora podem ir tranquilos, qualquer coisa eu ligo.

— Liga mesmo tá? Muito obrigada irmãzinha. Daniel se levanta e da um beijo no rosto da irmã antes de sair comigo de casa. Assim que saímos eu já encontro um táxi nos esperando logo a frente.

— E o táxi que trouxe a kath pra cá, ela me disse por mensagem que pediria pra ele esperar. Daniel responde como se lesse meus pensamentos.

Quando chegamos no carro Daniel cumprimenta o motorista e abre a porta para mim antes de embarcar no carro também. Assim que o carro já está em movimento eu sinto o meu nervosismo e ansiedade crescendo dentro de mim. Eu volto a segurar a mão de Daniel, que está ao meu lado no banco de trás do carro. E como se esse contato me desse um pouco  de calma. Eu espero que o que está por vir depois que sair-mos deste carro me traga ainda mais paz e felicidade.

Marcas do PassadoOnde histórias criam vida. Descubra agora