Capítulo 06 - À Mesa dos Jones

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  Quando o expediente terminou, Alessa recolheu seus papéis, ajeitou a bolsa sobre o ombro e seguiu em direção à porta. O som dos saltos ecoou pelo corredor silencioso, misturando-se ao leve zumbido do elevador. Ao entrar, deparou-se com George, que a esperava casualmente encostado na parede metálica, as mãos nos bolsos e um sorriso contido.
 
  — Está pronta para o jantar? — perguntou ele, apertando o botão do térreo.
 
  — Nenhum pouco. Estou nervosa — respondeu ela, tentando disfarçar a inquietação na voz.
 
  — Relaxa, vai dar tudo certo.
 
  — Com todo respeito, senhor, mas... por que eu? Poderia ter escolhido qualquer outra funcionária, talvez a moça da recepção.
 
  — Por favor, Alessa, nada de "senhor". Já combinamos isso — ele a olhou com firmeza. — Escolhi você porque foi a primeira pessoa que me veio à mente. Simples assim.
 
  O elevador parou, e ambos saíram para o saguão. O ar noturno de Madrid os envolveu assim que atravessaram as portas da empresa. George guiou-a até o carro com naturalidade, como se aquela farsa fosse a coisa mais comum do mundo.
 
  Durante o trajeto, Alessa observava as luzes da cidade refletirem-se no vidro, tentando silenciar a ansiedade. Quando chegaram ao seu prédio, subiram juntos até o apartamento. Assim que entraram, George acomodou-se no sofá, cruzando as pernas com elegância e pegando o celular.
 
  — Pode ir tomar banho e se arrumar. Eu espero aqui — disse com tranquilidade.
 
  — Tudo bem — respondeu ela, tentando parecer serena.
 
  Fechou-se no quarto, respirou fundo e pegou uma toalha. O banho foi rápido, quase mecânico. Precisava de tempo para pensar. Ao sair, vestiu o vestido vermelho — o único que julgava digno da ocasião. Passou um delineado fino nos olhos, um toque de batom vermelho claro e deixou os cachos caírem sobre os ombros. Calçou os sapatos de salto e se olhou no espelho: simples, mas apresentável.
 
  Enquanto isso, George examinava o apartamento. Havia um charme inesperado na simplicidade do lugar — tudo limpo, organizado, com pequenas plantas e quadros delicados nas paredes. Ele sorria sozinho ao perceber o contraste entre aquele lar acolhedor e a frieza imensa da casa onde crescera.
 
  Poucos minutos depois, David entrou na sala, o cabelo bagunçado, o semblante sonolento.
 
  — Oi... Alessa está aqui? — perguntou.
 
  — Está no quarto, se arrumando — respondeu George, sem desviar o olhar do quadro na parede.
 
  — Ah, certo. — David o encarou com desconfiança. — Você é o chefe dela, não é?
 
  — Algo assim.
 
  David deu de ombros e sumiu pelo corredor. Logo depois, Alessa surgiu.
 
  Ela parou diante de George, meio sem jeito, o rosto levemente corado. Ele se levantou, e por um instante ficou imóvel, como se a estivesse vendo pela primeira vez.
 
  — Nossa... — murmurou, antes de ajeitar o colarinho. — Você fica cada vez mais linda.
 
  — Obrigada — respondeu ela, sorrindo tímida.
 
  George pigarreou, constrangido com o próprio elogio.
 
  — Enfim... precisamos ir.
 
  Ambos saíram e desceram até o carro. O percurso até a casa dos pais dele pareceu demorar uma eternidade. O silêncio era interrompido apenas pelo motor e pelas batidas suaves do coração acelerado de Alessa. Quando o veículo parou diante da imponente mansão, ela sentiu o estômago se contrair.
 
  A casa era uma joia arquitetônica — três andares de pedra clara, janelas arqueadas com grades de ferro trabalhado e colunas que sustentavam o pórtico principal. As luzes externas destacavam cada detalhe da fachada, projetando sombras elegantes sobre o gramado perfeitamente aparado. Parecia uma casa de revista, mas havia algo gélido naquela imponência — um ar de ostentação que oprimia.
 
  A campainha ecoou, e a mãe de George abriu a porta, o sorriso doce contrastando com o luxo ao redor.
 
  — Boa noite! Chegaram na hora certa — disse ela, abraçando o filho.
 
  — Boa noite, mãe — respondeu George com um breve sorriso.
 
  — Olá, Sra. Jones — cumprimentou Alessa, curvando-se levemente.
 
  — Ora, querida, nada de formalidades. Que bom vê-la novamente — respondeu Elizabeth, abraçando-a com afeto. — Entrem, por favor.
 
  Atravessaram o extenso hall até a sala de jantar. O pai e o irmão de George já os aguardavam, sentados à mesa impecavelmente posta. Os talheres brilhavam sob a luz dos lustres de cristal.
 
  — Boa noite — cumprimentou George, mantendo o semblante neutro.
 
  — Que bom revê-lo, irmão! — respondeu Liam, erguendo uma taça de vinho.
 
  — O sentimento é mútuo — disse George, com um sorriso que não alcançou os olhos.
 
  Liam a observou com malícia. — Então essa é a sua nova namorada? Pelo menos uma vez você teve bom gosto.
 
  Alessa sentiu o rosto queimar, mas manteve a compostura.
 
  — Prazer em conhecê-lo — disse, com um sorriso educado.
 
  — O prazer é meu — respondeu ele, ainda provocador.
 
  Frank, o patriarca, tossiu discretamente, tentando disfarçar o riso.
 
  — Perdão — disse, enxugando a boca. — Então, Alessa, nasceu onde?
 
  — Em Portugal.
 
  — Portuguesa? — Elizabeth exclamou, surpresa. — Que interessante!
 
  — Veio sozinha? — indagou Liam.
 
  — Vim com meus irmãos.
 
  — E seus pais? — perguntou Frank, seco.
 
  Alessa hesitou por um instante. — Eles faleceram — respondeu, com um tom baixo.
 
  O ambiente silenciou. George desviou o olhar, incomodado com a insensibilidade do pai.
 
  — Eu sinto muito — murmurou Liam, sem graça.
 
  — Está tudo bem. Já faz tempo — respondeu Alessa, forçando um sorriso.
 
  Elizabeth tentou aliviar o clima:
 
  — E o que está achando da Espanha, querida?
 
  — É um país belíssimo. Tenho aprendido a gostar cada vez mais daqui.
 
  — Fico feliz em ouvir isso — respondeu a senhora Jones, sorrindo com ternura.
 
  Por um breve instante, a atmosfera pareceu se acalmar. Mas Frank não suportava o silêncio quando não era o centro dele.
 
  — Então, já decidiram? — perguntou, erguendo as sobrancelhas.
 
  — Decidimos o quê? — replicou George, confuso.
 
  — Se vão formar uma família, oras.
 
  Alessa piscou, surpresa.
 
  — Ainda não conversamos sobre isso — respondeu George, ríspido.
 
  — E você, Alessa? — insistiu o homem. — Quer formar uma família com ele.
 
  — Como George disse, não estamos com pressa.
  Frank bufou. — Quem sabe com outra mulher...
 
  O som da cadeira arrastando ecoou pela sala. George se inclinou para frente, o olhar faiscante.
 
  — Talvez o senhor devesse aprender a se comportar em sua própria mesa antes de questionar a vida dos outros.
 
  — O que disse? — rosnou Frank, ofendido.
 
  — Perguntei se precisa de aparelhos auditivos — devolveu George, sem vacilar.
 
  Elizabeth tocou o braço do marido, tentando contê-lo.
 
  — Frank, por favor...
 
  — Eu sou seu pai, rapaz! Me deve respeito!
 
  — Eu não lhe devo nada! — replicou George, a voz firme, fria como aço.
 
  O pai se levantou, apoiando as mãos sobre a mesa.
 
  — A verdade é que você trouxe para cá alguém de classe baixa! — gritou, apontando para Alessa. — Esse vestido caro não engana ninguém. Se ela tivesse dinheiro, ao menos saberia como se portar à mesa.
 
  O sangue de Alessa ferveu. Levantou-se, o coração acelerado, e apoiou as mãos sobre a toalha de linho.
 
  — Eu posso não ter dinheiro, senhor Jones, nem o requinte que a sua família tanto preza. Mas ao contrário do senhor, eu tenho caráter. Tenho respeito, e isso vale mais do que qualquer fortuna! — sua voz tremeu, mas não recuou. — O senhor deveria se envergonhar de humilhar os outros para mascarar o próprio fracasso.
 
  O silêncio que se seguiu foi absoluto. Frank a olhava, perplexo — e, por um instante, vencido.
 
  Sem dizer mais nada, Alessa pegou o casaco e a bolsa.
 
  — Alessa, espera! — chamou George, levantando-se.
 
  — Não se preocupe, George. Seu pai é insignificante para mim, assim como as palavras dele.
 
  Ela se virou e saiu, a cabeça erguida. George apressou-se atrás dela, e logo ambos estavam no carro, a tensão pairando entre eles como um peso invisível.
 
  — Me desculpe — disse ele, com a voz baixa. — Por tudo o que aconteceu.
 
  — Está tudo bem. Não esperava menos dele. E, afinal, não estamos realmente juntos, certo? — respondeu, com um sorriso triste.
 
  — Claro — murmurou ele, desanimado.
 
  Chegaram ao prédio. George estacionou, fitando-a em silêncio, como se quisesse dizer algo mais. Mas ela apenas acenou com a cabeça e saiu.
 
  Ao entrar no apartamento, Leonor ergueu os olhos do sofá.
 
  — E então? Como foi o jantar?
 
  — Cansativo. Extremamente chato. Odiei. — Ela forçou um sorriso e seguiu direto para o quarto.
  — Boa noite.
 
  — Boa noite — respondeu a irmã, preocupada.
 
  Alessa fechou a porta, deitou-se e puxou o cobertor até a cabeça. Chorou em silêncio, tentando sufocar o som dos soluços. Dizia a si mesma que não se importava, mas as palavras de Frank ecoavam na mente como farpas.
 
  Por mais que negasse, a ferida estava aberta — e doía.

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