Quando o expediente terminou, Alessa recolheu seus papéis, ajeitou a bolsa sobre o ombro e seguiu em direção à porta. O som dos saltos ecoou pelo corredor silencioso, misturando-se ao leve zumbido do elevador. Ao entrar, deparou-se com George, que a esperava casualmente encostado na parede metálica, as mãos nos bolsos e um sorriso contido.
— Está pronta para o jantar? — perguntou ele, apertando o botão do térreo.
— Nenhum pouco. Estou nervosa — respondeu ela, tentando disfarçar a inquietação na voz.
— Relaxa, vai dar tudo certo.
— Com todo respeito, senhor, mas... por que eu? Poderia ter escolhido qualquer outra funcionária, talvez a moça da recepção.
— Por favor, Alessa, nada de "senhor". Já combinamos isso — ele a olhou com firmeza. — Escolhi você porque foi a primeira pessoa que me veio à mente. Simples assim.
O elevador parou, e ambos saíram para o saguão. O ar noturno de Madrid os envolveu assim que atravessaram as portas da empresa. George guiou-a até o carro com naturalidade, como se aquela farsa fosse a coisa mais comum do mundo.
Durante o trajeto, Alessa observava as luzes da cidade refletirem-se no vidro, tentando silenciar a ansiedade. Quando chegaram ao seu prédio, subiram juntos até o apartamento. Assim que entraram, George acomodou-se no sofá, cruzando as pernas com elegância e pegando o celular.
— Pode ir tomar banho e se arrumar. Eu espero aqui — disse com tranquilidade.
— Tudo bem — respondeu ela, tentando parecer serena.
Fechou-se no quarto, respirou fundo e pegou uma toalha. O banho foi rápido, quase mecânico. Precisava de tempo para pensar. Ao sair, vestiu o vestido vermelho — o único que julgava digno da ocasião. Passou um delineado fino nos olhos, um toque de batom vermelho claro e deixou os cachos caírem sobre os ombros. Calçou os sapatos de salto e se olhou no espelho: simples, mas apresentável.
Enquanto isso, George examinava o apartamento. Havia um charme inesperado na simplicidade do lugar — tudo limpo, organizado, com pequenas plantas e quadros delicados nas paredes. Ele sorria sozinho ao perceber o contraste entre aquele lar acolhedor e a frieza imensa da casa onde crescera.
Poucos minutos depois, David entrou na sala, o cabelo bagunçado, o semblante sonolento.
— Oi... Alessa está aqui? — perguntou.
— Está no quarto, se arrumando — respondeu George, sem desviar o olhar do quadro na parede.
— Ah, certo. — David o encarou com desconfiança. — Você é o chefe dela, não é?
— Algo assim.
David deu de ombros e sumiu pelo corredor. Logo depois, Alessa surgiu.
Ela parou diante de George, meio sem jeito, o rosto levemente corado. Ele se levantou, e por um instante ficou imóvel, como se a estivesse vendo pela primeira vez.
— Nossa... — murmurou, antes de ajeitar o colarinho. — Você fica cada vez mais linda.
— Obrigada — respondeu ela, sorrindo tímida.
George pigarreou, constrangido com o próprio elogio.
— Enfim... precisamos ir.
Ambos saíram e desceram até o carro. O percurso até a casa dos pais dele pareceu demorar uma eternidade. O silêncio era interrompido apenas pelo motor e pelas batidas suaves do coração acelerado de Alessa. Quando o veículo parou diante da imponente mansão, ela sentiu o estômago se contrair.
A casa era uma joia arquitetônica — três andares de pedra clara, janelas arqueadas com grades de ferro trabalhado e colunas que sustentavam o pórtico principal. As luzes externas destacavam cada detalhe da fachada, projetando sombras elegantes sobre o gramado perfeitamente aparado. Parecia uma casa de revista, mas havia algo gélido naquela imponência — um ar de ostentação que oprimia.
A campainha ecoou, e a mãe de George abriu a porta, o sorriso doce contrastando com o luxo ao redor.
— Boa noite! Chegaram na hora certa — disse ela, abraçando o filho.
— Boa noite, mãe — respondeu George com um breve sorriso.
— Olá, Sra. Jones — cumprimentou Alessa, curvando-se levemente.
— Ora, querida, nada de formalidades. Que bom vê-la novamente — respondeu Elizabeth, abraçando-a com afeto. — Entrem, por favor.
Atravessaram o extenso hall até a sala de jantar. O pai e o irmão de George já os aguardavam, sentados à mesa impecavelmente posta. Os talheres brilhavam sob a luz dos lustres de cristal.
— Boa noite — cumprimentou George, mantendo o semblante neutro.
— Que bom revê-lo, irmão! — respondeu Liam, erguendo uma taça de vinho.
— O sentimento é mútuo — disse George, com um sorriso que não alcançou os olhos.
Liam a observou com malícia. — Então essa é a sua nova namorada? Pelo menos uma vez você teve bom gosto.
Alessa sentiu o rosto queimar, mas manteve a compostura.
— Prazer em conhecê-lo — disse, com um sorriso educado.
— O prazer é meu — respondeu ele, ainda provocador.
Frank, o patriarca, tossiu discretamente, tentando disfarçar o riso.
— Perdão — disse, enxugando a boca. — Então, Alessa, nasceu onde?
— Em Portugal.
— Portuguesa? — Elizabeth exclamou, surpresa. — Que interessante!
— Veio sozinha? — indagou Liam.
— Vim com meus irmãos.
— E seus pais? — perguntou Frank, seco.
Alessa hesitou por um instante. — Eles faleceram — respondeu, com um tom baixo.
O ambiente silenciou. George desviou o olhar, incomodado com a insensibilidade do pai.
— Eu sinto muito — murmurou Liam, sem graça.
— Está tudo bem. Já faz tempo — respondeu Alessa, forçando um sorriso.
Elizabeth tentou aliviar o clima:
— E o que está achando da Espanha, querida?
— É um país belíssimo. Tenho aprendido a gostar cada vez mais daqui.
— Fico feliz em ouvir isso — respondeu a senhora Jones, sorrindo com ternura.
Por um breve instante, a atmosfera pareceu se acalmar. Mas Frank não suportava o silêncio quando não era o centro dele.
— Então, já decidiram? — perguntou, erguendo as sobrancelhas.
— Decidimos o quê? — replicou George, confuso.
— Se vão formar uma família, oras.
Alessa piscou, surpresa.
— Ainda não conversamos sobre isso — respondeu George, ríspido.
— E você, Alessa? — insistiu o homem. — Quer formar uma família com ele.
— Como George disse, não estamos com pressa.
Frank bufou. — Quem sabe com outra mulher...
O som da cadeira arrastando ecoou pela sala. George se inclinou para frente, o olhar faiscante.
— Talvez o senhor devesse aprender a se comportar em sua própria mesa antes de questionar a vida dos outros.
— O que disse? — rosnou Frank, ofendido.
— Perguntei se precisa de aparelhos auditivos — devolveu George, sem vacilar.
Elizabeth tocou o braço do marido, tentando contê-lo.
— Frank, por favor...
— Eu sou seu pai, rapaz! Me deve respeito!
— Eu não lhe devo nada! — replicou George, a voz firme, fria como aço.
O pai se levantou, apoiando as mãos sobre a mesa.
— A verdade é que você trouxe para cá alguém de classe baixa! — gritou, apontando para Alessa. — Esse vestido caro não engana ninguém. Se ela tivesse dinheiro, ao menos saberia como se portar à mesa.
O sangue de Alessa ferveu. Levantou-se, o coração acelerado, e apoiou as mãos sobre a toalha de linho.
— Eu posso não ter dinheiro, senhor Jones, nem o requinte que a sua família tanto preza. Mas ao contrário do senhor, eu tenho caráter. Tenho respeito, e isso vale mais do que qualquer fortuna! — sua voz tremeu, mas não recuou. — O senhor deveria se envergonhar de humilhar os outros para mascarar o próprio fracasso.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Frank a olhava, perplexo — e, por um instante, vencido.
Sem dizer mais nada, Alessa pegou o casaco e a bolsa.
— Alessa, espera! — chamou George, levantando-se.
— Não se preocupe, George. Seu pai é insignificante para mim, assim como as palavras dele.
Ela se virou e saiu, a cabeça erguida. George apressou-se atrás dela, e logo ambos estavam no carro, a tensão pairando entre eles como um peso invisível.
— Me desculpe — disse ele, com a voz baixa. — Por tudo o que aconteceu.
— Está tudo bem. Não esperava menos dele. E, afinal, não estamos realmente juntos, certo? — respondeu, com um sorriso triste.
— Claro — murmurou ele, desanimado.
Chegaram ao prédio. George estacionou, fitando-a em silêncio, como se quisesse dizer algo mais. Mas ela apenas acenou com a cabeça e saiu.
Ao entrar no apartamento, Leonor ergueu os olhos do sofá.
— E então? Como foi o jantar?
— Cansativo. Extremamente chato. Odiei. — Ela forçou um sorriso e seguiu direto para o quarto.
— Boa noite.
— Boa noite — respondeu a irmã, preocupada.
Alessa fechou a porta, deitou-se e puxou o cobertor até a cabeça. Chorou em silêncio, tentando sufocar o som dos soluços. Dizia a si mesma que não se importava, mas as palavras de Frank ecoavam na mente como farpas.
Por mais que negasse, a ferida estava aberta — e doía.
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O Chefe
RomantikAlessa se muda para Espanha com seus irmãos mais novos, para ter uma vida melhor e um novo emprego. Então Alessa começa a trabalhar em uma nova empresa, sendo secretária de um dos maiores empresários do país, George Jones. Em uma reunião que George...
