A manhã amanheceu silenciosa, e o peso do constrangimento ainda repousava sobre Alessa como uma sombra teimosa. A lembrança da noite anterior — o irmão embriagado, o vômito em seu casaco, o olhar de George, entre o espanto e a contenção — a deixava tomada por um desconforto quase físico. Não era apenas vergonha; era o medo de ter deixado uma marca irreversível diante de um homem cuja opinião, agora, parecia importar mais do que ela gostaria de admitir.
Levantou-se sem entusiasmo, sentindo o corpo pesado. Caminhou até o guarda-roupa e retirou um conjunto social simples. O gesto mecânico refletia o desejo de fugir da memória recente. Seguiu até o banheiro e tomou um banho rápido, permitindo que a água quente lhe acalmasse a mente. Ao sair, já vestida, enxugou os cabelos com pressa e dirigiu-se ao quarto de David.
Abriu a porta e acendeu a luz. A claridade invadiu o cômodo abafado, e David, ainda deitado, cobriu o rosto com o braço.
— Apague a luz, por favor — murmurou ele, com a voz arrastada. — Minha cabeça parece que vai explodir.
Alessa suspirou, cruzando os braços. — Por que saiu ontem? — questionou, tentando conter a irritação. — Já conversamos sobre isso, David. Você prometeu que pararia de beber.
— Eu sei... — respondeu ele, a voz fraca. — Ontem eu me senti péssimo, precisava distrair a cabeça. Mas ao invés disso, acabei me afundando mais.
— Você não tem ideia do constrangimento que me fez passar na frente do meu chefe. — O tom dela quebrou, entre raiva e vergonha. — Agora não sei o que ele pensa de mim... de nós.
David cobriu o rosto com as mãos. — Eu sinto muito, Alessa. Se pudesse voltar no tempo, eu não teria saído. Fui um idiota.
Ela respirou fundo. Por mais irritada que estivesse, não conseguia sustentar o rancor. — Eu sei que não fez por mal — disse, mais suave. — O remédio está na cômoda. Toma e descansa. Tenho que ir trabalhar.
— Obrigado, maninha... — murmurou ele, com um esboço de culpa no olhar.
Alessa apagou a luz e deixou o quarto, pegando sua bolsa antes de sair do apartamento. O dia estava nublado, e o vento frio da manhã pareceu soprar-lhe o cansaço acumulado. Entrou na empresa com passos apressados e, ao subir no elevador, tentou recompor o semblante profissional. Ao chegar em seu escritório, depositou a bolsa sobre a mesa e ligou o notebook, forçando-se a focar no trabalho.
Por alguns minutos, conseguiu mergulhar nos relatórios, até que o som de uma notificação interrompeu sua concentração. Uma mensagem de George.
"Preciso falar com você. Venha ao meu escritório."
O coração de Alessa acelerou. Ainda sentia o embaraço da noite passada, e a ideia de encará-lo era desconfortável. Respirou fundo, ajeitou os cabelos e caminhou até a sala dele. Parou diante da porta, hesitou por um instante e bateu.
— Entre — disse a voz firme do outro lado. — E feche a porta.
Ela obedeceu, caminhando até a poltrona em frente à mesa dele.
— Quero conversar sobre o sábado — começou George, entrelaçando os dedos sobre o tampo de vidro.
Alessa abriu a boca para se desculpar, mas foi interrompida.
— Por favor, já pedi para me chamar de George — disse ele com leve irritação. — E não, não é sobre o que aconteceu com o seu irmão. Quero falar sobre o que ele me contou.
O coração dela deu um salto. — O que ele contou? — perguntou com a voz tensa.
George recostou-se na cadeira, observando-a. — Disse que bebe porque isso o ajuda a esquecer o fato de ter sido abandonado pelos pais. Mas você me disse outra coisa, Alessa. Contou que eles haviam morrido num acidente. O que realmente aconteceu?
A moça abaixou os olhos, as mãos trêmulas sobre o colo. A voz saiu embargada.
— É... complicado — murmurou. — Quando éramos pequenos, nossos pais eram viciados em bebida e em drogas. Meu pai nos deixou primeiro, e logo depois minha mãe também. Eu tinha apenas treze anos quando ela foi embora. Tentei contato com parentes, mas ninguém quis ajudar. Desde então, cuidei dos meus irmãos sozinha. — As lágrimas começaram a cair, silenciosas. — Dizer que eles morreram é mais fácil. Evita perguntas. Evita vergonha.
George permaneceu em silêncio por alguns segundos, visivelmente tocado.
— Alessa... — a voz dele saiu mais branda. — Eu não fazia ideia. Me desculpe por ter trazido isso à tona.
Ela balançou a cabeça, enxugando as lágrimas com os dedos. — Está tudo bem. Já me acostumei com o passado.
— Você os reencontrou algum dia? — perguntou ele, cauteloso.
— Só minha mãe — respondeu num sussurro. — Morta. Foi encontrada em um beco, em Portugal.
George desviou o olhar, comovido. — Eu sinto muito. Não posso imaginar o que você passou. Mas quero que saiba que admiro a mulher que se tornou. Forte, resiliente... uma verdadeira sobrevivente.
Alessa forçou um sorriso frágil. — Obrigada.
Ele inclinou a cabeça. — Prometa que, se algo pesar demais, vai me procurar.
— Prometo — respondeu ela, antes de levantar-se.
De volta ao seu escritório, Alessa sentou-se diante do computador, mas as palavras do patrão ecoavam em sua mente. A lembrança da infância, da dor de ser deixada para trás, voltava-lhe com intensidade. O passado, pensou, nunca desaparece — apenas adormece à espera de um ruído para acordá-lo.
Quando o relógio marcou o horário de almoço, ela pegou a bolsa, disposta a sair um pouco, mas George já a esperava do lado de fora.
— George? — perguntou surpresa.
— Quero levá-la a um lugar — respondeu ele, sorrindo de modo discreto.
Sem lhe dar tempo para recusar, segurou-lhe a mão e a conduziu até o carro.
— Onde estamos indo? — indagou ela, tentando conter a curiosidade.
— É uma surpresa.
O trajeto foi silencioso, apenas o som do motor e da cidade ao fundo. Minutos depois, estacionaram em frente a um bosque. Desceram do carro e caminharam pela trilha de terra, ladeada por árvores altas e retorcidas. O ar era fresco e perfumado. À esquerda, um campo coberto de margaridas dançava sob o vento.
— Que lugar lindo... — murmurou Alessa, com os olhos brilhando.
— Era o refúgio da minha avó — contou George, sentando-se em um banco de madeira. — Quando eu ficava triste, ela me trazia aqui.
— Então era para me animar? — perguntou ela, sorrindo com doçura. — Se era, funcionou.
Ele riu baixinho. — Eu sabia que você gostaria.
George abriu uma pequena sacola e retirou dois sanduíches. Entregou um a ela.
— Obrigada — disse Alessa, aceitando o lanche.
Comeram em silêncio, ouvindo o farfalhar das folhas e o canto distante de algum pássaro. O momento era simples, mas carregava uma paz rara, quase íntima. Quando terminaram, levantaram-se e voltaram ao carro.
— Não se esqueça do jantar — lembrou George, ao dar a partida.
— Já é hoje? — perguntou ela, surpresa.
— Sim. E não se preocupe — sorriu. — Tudo sairá bem.
— Assim espero — respondeu, mais para si mesma do que para ele.
Enquanto o carro deslizava pela estrada, Alessa observava a paisagem pela janela, sentindo o peso da vida e a leveza da confiança recém-nascida. No fundo, algo lhe dizia que aquele homem, tão distante e enigmático, estava prestes a cruzar de forma definitiva o caminho de sua história.
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O Chefe
RomanceAlessa se muda para Espanha com seus irmãos mais novos, para ter uma vida melhor e um novo emprego. Então Alessa começa a trabalhar em uma nova empresa, sendo secretária de um dos maiores empresários do país, George Jones. Em uma reunião que George...
