Capítulo 09 - Sob o Brilho das Luzes de Londres

2.7K 103 1
                                        

Alessa trabalhava concentrada no notebook, o som ritmado das teclas preenchendo o silêncio do quarto. A noite caía lentamente sobre Londres, deixando o céu num tom azul profundo, enquanto as luzes da cidade piscavam através da janela do hotel. Então, ouviu batidas leves à porta.

Levantou-se, ajeitando a blusa, e abriu. Do outro lado, George Jones a observava com um sorriso discreto.

— Eu queria convidá-la para jantar — disse, com aquele tom polido que misturava gentileza e controle. — Há um restaurante do outro lado da rua.

— Claro — respondeu, sem esconder a surpresa. — Será a que horas?

— Eu venho buscá-la daqui a pouco.

— Tudo bem.

Fechou a porta e voltou-se para o vestido que repousava sobre a cômoda — um modelo vintage, na cor bordo, que marcava a cintura e deixava os ombros à mostra com alças delicadas. O tecido parecia feito para ela. Vestiu-o lentamente, prendeu o cabelo e se olhou no espelho. Por um instante, duvidou de si mesma — talvez estivesse bonita demais para um simples jantar de trabalho.

Pouco tempo depois, George bateu à porta novamente. Ela pegou a bolsa e saiu.

— Você está linda — murmurou ele, a voz levemente rouca.

— Obrigada. Você também está elegante.

Desceram juntos pelo elevador, o som metálico das portas ecoando no silêncio contido entre eles. Ao deixarem o hotel, a noite londrina os envolveu com o vento frio e o cheiro distante de chuva. O restaurante em frente cintilava sob luzes âmbar. Entraram.

Sentaram-se à mesa, e George puxou a conversa com um sorriso sereno.

— O que achou de Londres?

— Achei muito bonita. Há uma energia diferente aqui — respondeu, observando as janelas emolduradas por cortinas pesadas e o reflexo das velas sobre a taça.

— É uma cidade cheia de histórias — disse ele. — E um bom lugar para recomeçar.

Enquanto aguardavam os pratos, Alessa mexia nos talheres, sentindo um certo desconforto. A atmosfera parecia íntima demais para dois colegas de trabalho. George, atento, percebeu.

— Desculpe a pergunta — começou com cuidado —, mas seu irmão costuma sair e beber com frequência?

Ela suspirou. — Algumas vezes, sim. Mas antes era pior. Ele teve problemas sérios com a bebida. Havia parado, mas... recaiu recentemente.

— Entendo. — Ele inclinou-se um pouco à frente. — Se quiser voltar para casa antes, não hesite em dizer.

— Não precisa, acredito que ele ficará bem. Ou pelo menos, espero — respondeu, tentando sorrir.

George manteve o olhar sobre ela por um instante, depois mudou de assunto.

— Tenho um convite.

— Um convite?

— Minha família vai à casa de praia no próximo feriado. Minha mãe pediu que eu a convidasse... você e seus irmãos.

— Sério? — Alessa pareceu surpresa. — Se não for incômodo, nós adoraríamos.

— De forma alguma. — George arqueou um sorriso. — Afinal, você é minha "namorada". É natural que esteja presente.

Ela riu. — É bom saber que tenho um "namorado" tão generoso.

— Acostume-se — respondeu com leve ironia. — Ainda teremos muitos feriados pela frente.

— E até quando essa encenação vai durar? — questionou, inclinando a cabeça. — Não que eu esteja reclamando... só curiosa.

— Ainda não sei — admitiu ele. — Mas terminar agora levantaria suspeitas. É melhor prolongar um pouco.

— Sim... faz sentido.

O garçom trouxe os pratos, interrompendo o clima tênue que se formava. George a observou por um momento, depois voltou a falar, em tom mais ameno.

— Você tem estado bem, Alessa?

— Sim. Por que a pergunta?

— Porque sei o quanto tem se dedicado aos seus irmãos. E imaginei que talvez estivesse cansada.

Ela sorriu, gentil. — Não se preocupe, George. Estou bem.

— Me desculpe se toquei num assunto delicado.

— Está tudo bem. Eu me acostumei com isso — respondeu, firme, embora o olhar denunciasse um cansaço antigo.

George apoiou as mãos sobre a mesa, tocando as dela de leve.

— Se precisar de alguém para conversar... estarei aqui.

Ela o olhou, surpresa pela doçura inesperada. — Obrigada, George. É muito gentil da sua parte. Lhe digo o mesmo.

Houve um breve silêncio. O gesto dele, tão fora de seu comportamento habitual, a deixou confusa. George não era conhecido por ser carinhoso com ninguém — muito menos com suas funcionárias.

— Finalmente a comida chegou — disse ele, quebrando a tensão.

— Faço das suas palavras as minhas — respondeu com um leve riso.

Após o jantar, retornaram ao hotel. O elevador subia silencioso, refletindo o cansaço e o que não foi dito. Quando chegaram ao corredor, ele parou diante do quarto dela.

— Enfim, aqui estamos.

— Obrigada por hoje — disse ela.

— Não há de quê. Às vezes, é preciso levar a "namorada" para jantar.

— E é bom ter um "namorado" que faça isso — replicou, divertida.

Ele deu um meio sorriso, pronto para se afastar, quando ela o chamou.

— George...

— Sim?

— Você e Harry são amigos, não é?

— Por que pergunta? Se interessou por ele? — provocou, arqueando a sobrancelha.

— O quê? Claro que não! — protestou, rindo sem graça. — Só achei que vocês pareciam próximos.

— É que somos, de fato. Conheço Harry desde os quinze anos.

— Deve ser bom ter amigos antigos.

— E você, não tem?

— Não muitos. Eu e meus irmãos faltávamos muito às aulas... era difícil manter amizades.

George a fitou por um instante, depois sorriu de forma sincera. — Bem, agora você tem um.

— Tenho?

— Claro. Seria uma honra ser amigo de uma mulher como você.

— Obrigada — respondeu, abaixando o olhar, um sorriso tímido escapando-lhe.

— Espero que durma bem, Alessa. Boa noite.

— Boa noite, George.

Ele aproximou-se e, num gesto breve, beijou-lhe a bochecha. Depois afastou-se calmamente, desaparecendo no corredor. Alessa entrou no quarto e fechou a porta, o coração inquieto.

Deitou-se na cama, encarando o teto, com o perfume de George ainda preso à memória — e uma pergunta silenciosa ecoando: o que, afinal, estava começando a nascer entre eles?

O ChefeOnde histórias criam vida. Descubra agora