Capítulo 16 - Marés de Silêncio

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Na manhã seguinte, Alessa despertou com George a chacoalhando levemente, a voz baixa e paciente tentando arrancá-la do sono.

— Alessa?

— O quê? — murmurou sonolenta.

— Precisa levantar.

— Que horas são?

— Onze e meia.

— Mas já?

— Sim. Meus pais querem passar um tempo na praia e pediram que eu a levasse.

— Tudo bem, já vou levantar.

— A esperaremos na sala.

Quando George deixou o quarto, o silêncio se instalou. Alessa foi até o chuveiro, deixando a água fria espantar a preguiça que ainda a prendia. Vestiu um vestido longo branco, com alças finas e delicados detalhes de renda nas camadas da saia. O decote em "V" revelava simplicidade e elegância. Por fim, calçou sandálias marrons e desceu as escadas.

— Sempre bonita e bem vestida — elogiou Elizabeth, sorrindo com ternura.

— Obrigada — respondeu com um leve sorriso.

— Vamos? — perguntou Frank, impaciente.

— Claro — assentiu Liam.

A praia os recebeu com o vento salgado e o murmúrio das ondas. Elizabeth e David sentaram-se sob o guarda-sol com Leonor e Martín, enquanto Frank esticava-se na espreguiçadeira, de óculos escuros e expressão indecifrável.

George e Alessa caminharam pela beira do mar, sentindo a areia fria entre os pés e a brisa leve contra o rosto.

— Continua gostando daqui? Ou se sente desconfortável? — perguntou ele, desviando o olhar para ela.

— Não, estou bem sim.

— Tem certeza? Se quiser voltar, pode falar.

— Está tudo bem, George. Meus irmãos estão se divertindo, e isso é bom para eles.

— Mas e o que é bom para você?

— Bom, vê-los felizes já me alegra.

— Você não pode viver fazendo o que não quer só para agradar os outros.

— George, acredite, eu estou bem. Meus irmãos sentem falta de ter pais presentes, e ver sua mãe conversando com eles os deixa animados.

— Eles parecem gostar dela.

— Sim, estão encantados. George... você ainda parece não ter superado o término com Violeta.

Ele silenciou por um instante, o olhar perdido no horizonte.

— Por que acha isso?

— Você parecia chateado quando a viu.

— Não é que eu não tenha superado, mas o fato de ela estar com meu irmão me incomoda, especialmente depois de descobrir que ela e Liam já tinham um caso.

— Então ela o traiu com seu irmão?

— Infelizmente.

— Agora entendo o porquê das intrigas.

— Agora entende — confirmou ele, em voz baixa.

— Sim.

— Mudando de assunto... aceita ir a uma lanchonete comigo?

— Claro, seria bom.

Entraram no carro e seguiram pela estrada. O som do mar foi substituído pelo ruído suave dos pneus sobre o asfalto. Ao chegarem, sentaram-se à mesa de uma pequena lanchonete à beira da avenida, o aroma de café e pão fresco preenchendo o ar.

— Esse é um dos lugares que mais me trazem nostalgia — comentou George, com um sorriso breve.

— Vinha muito aqui?

— Até demais. Minha avó me trazia quando eu era pequeno.

— Você saía muito com seus avós?

— Bastante. Meus pais sempre estavam trabalhando, então eu ficava com eles. Passei boa parte da infância assim.

— Queria ter tido uma boa relação com meus avós também.

— Você sabe onde eles moram? Ou seus tios, primos...?

— Infelizmente, não.

— E tem vontade de conhecê-los?

— Quando eu era mais nova, sim. Mas depois... virou mágoa. Eles nunca nos procuraram.

— Eles sabem que seus pais tiveram filhos?

— Sabem. Eu me lembro de ver minha avó discutindo com minha mãe, e ela sempre nos olhava com desprezo. Aquilo doía mais do que qualquer palavra.

— Sinto muito, Alessa.

— Está tudo bem.

— Daqui para frente, serão só coisas boas para você e seus irmãos.

— Assim espero — respondeu, com um sorriso brando.

— E será. Não se preocupe — afirmou George, retribuindo o sorriso.

Enquanto o sol se erguia alto no céu, Elizabeth ria suavemente ao lado de David. Ela tinha um modo doce e maternal de falar, e David, em silêncio, percebia quanto havia sentido falta dessa presença. Havia nela algo acolhedor, um gesto que lembrava o carinho que ele nunca tivera.

Enquanto conversavam, Frank interrompia de tempos em tempos, corrigindo detalhes das histórias que Elizabeth contava. Às vezes se calava, outras vezes parecia querer participar, mas o orgulho o impedia.

Mais tarde, Alessa observava o mar à distância, o vento brincando com os fios de seu cabelo. Liam e Violeta não estavam por perto, o que a deixava intrigada.

— Onde estão Liam e Violeta? — perguntou, curiosa. — Achei que tivessem vindo conosco.

— Violeta nunca gostou de ficar com a minha família — explicou George. — Sempre arruma um motivo para se afastar.

— Pensei que ela gostasse da sua família. Afinal, todos parecem gostar dela.

— Sim, mas ela nunca foi honesta.

— Seus pais sabem o que aconteceu entre vocês?

— Não. Violeta e Liam decidiram guardar segredo. Ele me implorou para não contar.

— Então, de repente, eles apareceram namorando, e seus pais aceitaram sem questionar?

— Exatamente. Eles inventaram uma história e pediram que eu mentisse.

— Deve ter sido difícil.

— Foi. Mas já passou.

Terminaram a refeição e voltaram à praia. A tarde caía, tingindo o céu de dourado. Ao se aproximarem do grupo, viram Frank conversando com David e Elizabeth, um raro sorriso desenhado em seu rosto.

— Do que estão falando? — perguntou George, surpreso.

— Seus pais estavam me contando como se conheceram — respondeu David, animado.

— Sério?

— Sim! E as histórias são incríveis.

— Parabéns, David. Você conseguiu fazer meu pai falar — disse George, rindo.

— Também me surpreendeu — acrescentou Elizabeth.

— Vou buscar algo para comermos — anunciou Frank, levantando-se e caminhando até uma barraca próxima.

— Ele... sorriu? — perguntou Alessa, incrédula.

— Sorriu e até riu — respondeu David, divertido. — Disse que se lembrava do passado.

George soltou um leve riso. — Isso é inédito.

— Fiquei com a mesma reação que vocês — concluiu Elizabeth, ainda sorrindo.

O som do mar os envolvia, suave e constante, como se o próprio oceano, por um instante, também quisesse guardar aquele raro momento de paz.

O ChefeOnde histórias criam vida. Descubra agora