Capítulo 66 - Estrelas de Cura

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Alessa encontrava-se no quarto iluminado pela luz fraca do abajur, preparando-se para o velório com movimentos lentos e mecânicos. Ela vestia um vestido preto simples, com os cabelos presos em um coque baixo, e o espelho refletindo olhos inchados de choro noturno. O ar cheirava a lavanda do perfume que Olívia usava, um frasco que Alessa trouxera do apartamento da tia, como se pudesse mantê-la por perto.

— Está pronta? — perguntou Leonor, abrindo a porta devagar, vestida de cinza escuro, o rosto pálido mas composto.

— Não, mas tenho que estar, não é? — respondeu Alessa, virando-se com um suspiro, as mãos tremendo ao ajustar o colar.

Leonor adentrou o quarto e caminhou até ela, dando um abraço apertado, o calor do corpo da irmã como âncora.

— Eu sei o quão mal você está se sentindo por dentro — murmurou Leonor, afagando as costas de Alessa. — Eu também estou, todos nós estamos destruídos.

— É um dia difícil, um dos piores — respondeu Alessa com os olhos marejados, retribuindo o abraço antes de se afastar.

— Continue sendo forte, por ela — incentivou Leonor, enxugando uma lágrima própria.

— Eu continuarei, ou apenas tentarei o meu melhor — sussurrou Alessa, forçando um sorriso fraco.

Elas se retiraram do quarto de mãos dadas e deixaram o apartamento silencioso, descendo pelo elevador até a rua. Pegaram um táxi na calçada movimentada e seguiram ao funeral na capela pequena do cemitério, com o céu nublado ameaçando chuva, o ar úmido e pesado. Ao chegarem, entraram pela porta lateral, com o cheiro de flores frescas e velas acesas preenchendo o ambiente sombrio. Dirigiram-se ao caixão aberto no centro, rodeado de arranjos brancos, e Alessa se aproximou de Olívia, acariciando sua cabeça fria com gentileza, os cabelos grisalhos arrumados perfeitamente.

— Ela parece tranquila, como se estivesse apenas dormindo — observou Márcia, ao lado, a voz baixa.

— Sim, ela parece em paz total — concordou David, tocando o braço da tia.

— Como o senhor está, pai? — perguntou Alessa, virando-se para Luís na cadeira de rodas.

— Estou melhor fisicamente, especialmente sabendo que Olívia partiu em paz e que agora está descansando sem dor — respondeu Luís, com os olhos úmidos mas firmes.

— Isso também me consola um pouco, pai — murmurou Alessa, apertando a mão dele.

Pouco tempo depois, George chegou pela porta principal, vestindo terno escuro, com o rosto sério mas carinhoso ao avistá-la.

— Oi, como você está aguentando? — perguntou George, abraçando-a com força no canto da capela.

— Triste, o coração partido, mas bem ao seu lado — respondeu Alessa, aninhando-se no peito dele.

— Espero que sim, um passo de cada vez. Como estão os outros da família? — indagou George, olhando ao redor.

— Estão bem também, claro que ainda dói saber que Olívia se foi para sempre, mas já estamos um pouco melhor, processando — explicou Alessa.

— Entendo perfeitamente, a dor é assim — ponderou George.

— Como estão seus pais? — perguntou Alessa, mudando de foco.

— Estão bem, ambos estão começando a aceitar melhor a partida de Liam, com a terapia ajudando — respondeu George. — Mas como você está de verdade, além da tristeza?

— Você sabe, a perda dói como uma faca, mas estou melhor, assim como você com o tempo — confessou Alessa.

— Entendo. Depois daqui terei que buscar os gatos da minha tia e trazê-los para casa — disse Alessa, olhando o caixão.

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