A medida que Misty voava em direção a Cidade das Cinzas, eu já podia ver no horizonte a claridade vermelha. As chamas pareciam devorar metade da cidade, como aconteceu com o vilarejo em Arcádia. Sky, os gêmeos e Olívia foram com Caio usando uma esfera, enquanto eu corri para atravessar a barreira magica e encontrar Misty, porque sabia que ela poderia ser essencial.
Quanto mais perto da cidade, mais o calor e o cheiro de fumaça grudava no ar, fazendo meus olhos começarem a arder e minha boca ficar seca. Era a primeira vez que alguém vinha atrás de mim para ir até um ataque, porque das outras vezes Amélia me mandava ficar longe, alegando que eu era importante demais. A verdade é que aqueles ataques começaram logo depois do sumiço de Raven, então eu entendia a hesitação em me mandar pro meio desse caos.
Só que agora as coisas pareciam sérias demais. O incêndio parecia ter tomado proporções muito maiores. O problema é que não fazíamos ideia de quem estava fazendo isso, mesmo que Raven estivesse por trás. Não tínhamos provas de nada. Os guerreiros surgiam, usando roupas pretas e sem qualquer pulseira de identificação, atacando e ateando fogo, até o caos se instalar.
Quando eu finalmente pude ver a cidade, minha mão escorregou lentamente das escamas de Misty e eu precisei me segurar com mais força. A Cidade das Cinzas era muito maior que o vilarejo em Arcádia. Mas parte dela estava ardendo em chamas. Misty voou mais baixo quando pensei em como ela poderia ajudar, lançando aquelas ondas de fumaça congelante sobre as labaredas, enquanto eu via a batalha que acontecia nas ruas, contra os guerreiros de preto.
Fiz Misty voar sobre uma das ruas mais lotada de pessoas, tanto das que estavam tentando fugir, quanto dos guerreiros que lutavam. Escorreguei para o chão usando uma das suas patas, caindo no meio da rua. Misty voou para o alto, voltando a apagar as chamas. Minha respiração estava rápida demais por conta de toda fumaça, que quase me impedia de ver direito.
Parti para a luta, atacando aqueles guerreiros vestidos de preto, que tinham até mesmo os rostos cobertos por um pano. Meus olhos ardiam e estavam cheio de lágrimas por conta da fumaça, mas consegui identificar os guerreiros do Chalé Azul, lutando junto com guerreiros do Chalé Verde. Tentei ajudar todos eles, derrubando e imobilizando vários inimigos, enquanto disparava pelas ruas.
O calor fazia minha pele arder, enquanto respirar se tornava cada vez mais difícil. De relance, reconheci Sky lutando com três homens, que ele conseguiu derrubar sem nenhum esforço. Ele não me viu, apesar de certamente ter visto Misty voando sobre a cidade. Pensei em correr até ele, antes de ver uma família tentando sair de dentro de uma construção em chamas, que estava desmoronando ao redor deles.
Disparei na direção deles, derrubando alguns guerreiros pelo caminho. Cheguei na entrada da construção ao mesmo tempo que Margo, que me ajudou a tirar os escombros do caminho, mesmo com as madeiras em chamas. Minhas mãos latejaram e arderam, enquanto as lágrimas borraram minha visão, até nós duas conseguirmos limpar o caminho para eles saírem lá de dentro.
—Os leve para um lugar seguro. —Falei pra Margo, que concordou na mesma hora, os guiando por um caminho seguro para fora da cidade, na direção que as pessoas fugiam.
Cortei um pedaço da minha camisa com a espada, dividindo-a em duas, antes de enrolar nas minhas mãos queimadas. Precisei de um momento para respirar fundo e não desmaiar, sentindo que estava tão esgotada, mesmo que tivesse acabado de chegar ali. Estava quente demais. Eu mal conseguia ver o que acontecia naquela rua, por conta da fumaça negra que tomava conta de tudo.
Me encolhi quando Misty passou voando sobre a construção em chamas atrás de mim, agarrando com a boca e as patas alguns guerreiros inimigos. Se não fosse pelos gritos, eu poderia facilmente ouvir o som dos ossos se partindo quando ela soltava seus corpos lá de cima e eles colidiam contra o chão.
—Zaia! —Escutei o grito de Sky, conseguindo encontra-lo no meio daquele caos, correndo na minha direção. Poderia estar longe, mas eu poderia reconhecer a expressão desesperada dele em qualquer lugar.
Olhei para trás, sentindo a respiração se entalar na minha garganta quando vi as chamas se espalharem por toda construção rapidamente, tomando conta do espaço onde antes a família estava presa. As madeiras estralaram, se curvando para frente, na direção em que eu estava. Quando olhei para frente de novo, começando a correr, tive um vislumbre dos olhos acinzentados de Sky, antes do corpo enorme de Misty surgir.
O rugido dela me deixou praticamente paralisado, enquanto suas asas batiam com força o suficiente para empurrar aquela fumaça pra longe. Sua boca se abriu, bem na minha direção, e eu escorreguei para o chão, tampando minha cabeça com as mãos quando senti o frio cortante atravessar meu corpo, levando aquele calos insuportável embora.
Esperei sentir meus ossos sendo congelados de dentro pra fora, até sentir as garras de Misty em mim, antes de ela me erguer do chão, atravessando aquela estrutura do prédio como se fosse papel. Quando abri os olhos e encarei a construção, que agora não passava uma porção de gelo se quebrando contra o chão, puxei o ar com força, porque estava completamente ensopada, sem nenhuma parte de mim congelada.
Misty me lançou pra cima, fazendo um grito cortar minha garganta quando subi e então comecei a despencar, antes de cair nas costas dela. Me agarrei as escamas no mesmo instante, soltando o que parecia um choramingo por conta das minhas mãos queimadas e da dor que deixava meus músculos rígidos. Mas continuei, porque sabia que ainda tinha muito trabalho a ser feito até a cidade estar segura de novo.
[...]
Misty conseguiu apagar todos os focos do incêndio na cidade e eu a trouxe de volta ao chalé, assim que Aurora, Gael e Luna apareceram pra ajudar, com seus dragões. Ou melhor dizendo, Misty me trouxe de volta quase desmaiada, porque eu nem conseguia ficar de pé. Quando tudo acabou, apenas subi nas costas dela e não me preocupei em me segurar enquanto ela me trazia de volta.
Estava sentada na minha cama, tentando manter os olhos abertos, mesmo que fosse uma tarefa muito difícil, já que eu me sentia exausta. Estava tentando fazer um curativo nas minhas mãos queimadas, cheias de bolhas, quando alguém abriu a janela do meu quarto e pulou para dentro. Não me dei ao trabalho de olhar quem era, porque só tinha uma pessoa que fazia aquilo com certa frequência.
—Ei, deixa comigo. Eu faço isso. —Sky se sentou na minha frente, pegando as coisas das minhas mãos tremulas.
Tudo doía. Minhas mãos. Meus braços. Minhas pernas. Até meus tornozelos, como se alguém tivesse os torcidos. Tive um trabalho enorme apenas para tirar as botas e outro maior ainda quando tentei me banhar, porque minhas mãos doeram tanto que eu nem conseguia respirar direito enquanto me lavava.
Sky pegou o vidro onde havia uma pasta curativa, que eu tinha conseguido na enfermaria do chalé. Fiz uma careta quando ele passou aquilo pelas minhas mãos, sugando os próprios dedos no processo. Cansada demais, fechei os olhos e escorei minha testa no ombro dele, sentindo ele deixar um beijo na lateral da minha cabeça, antes de repetir o processo mais uma vez e então começar a enfaixar minhas mãos.
—Em algumas horas já estará melhor. —Prometeu, saindo da cama e tirando as coisas que estavam ali.
Afastei as cobertas com os pés, esperando ele deixar as coisas sobre a mesinha perto da porta e limpar as mãos. Estava usando roupas comuns e leves, sem todo aquele couro, além dos cabelos pretos estarem molhados. Tinha claramente tomado banho no acampamento antes de resolver aparecer no meu quarto.
—Precisa de mais alguma coisa? —Indagou, e precisei engolir o nó que se formou na minha garganta, porque todo aquele cuidado poderia ser minha ruina.
Balancei a cabeça negativamente, vendo-o assentir antes de voltar pra cama. Ele se deitou ao meu lado e me puxou pra ele. Os cílios roçando na minha testa, enquanto a respiração batia no meu nariz. O calor dele me envolveu, relaxando todos os meus músculos tensos, como se meu corpo soubesse que agora eu estava segura. Não demorei nada pra dormir.
Continua...
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As Crônicas de Scott: A Guerra / Vol. 2
FantasyLIVRO2 (AS CRÔNICAS DE SCOTT) Zaia Scott aprendeu da pior maneira possível que não se pode confiar em todos que estão a sua volta. Após a traição de Raven e da sua derrota para os elementais, Zaia sabe que precisa descobrir o quanto antes quem são o...