Capítulo 61: Eu perdoo você.

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—Chamem ajuda, rápido! —Exclamei, olhando para trás e vendo Percy desaparecer quando viu Sky caído junto ao Falkor.

Tropecei pelo caminho até alcança-lo, ignorando o olhar afiado do dragão quando bati meus pés na sua cauda e cai de joelhos ao lado de Sky. Seu rosto estava cheio de cortes, além de parte da armadura ter se soltado quando ele foi atingido. Sangue manchava a grama embaixo dele. Toquei o rosto dele com cuidado, engolindo em seco quando minhas mãos não pararam de tremer.

—Sky? —Chamei, limpando o sangue e a grama grudada nas suas bochechas pálidas. Ele respirou fundo, soltando um som esquisito pela boca, como se aquilo doesse nele mais do que ele esperasse. Uma lágrima escorreu pela minha bochecha quando percebi que ele estava vivo. Machucado até os ossos, mas vivo. —Abra os olhos, meu bem. Preciso ter certeza de que não vai me deixar. Por favor...

Um nó se formou na minha garganta quando o vi engolir muito lentamente, respirando ruidosamente quando suas pálpebras tremeram na tentativa de se abrirem. Meu peito se apertou, me deixando praticamente sem folego. Me inclinei até beijar a testa dele, segurando sua mão e a apertando com força para que ele soubesse que eu estava ali.

—Você está chorando por mim, meu bem? —Questionou, com a voz saindo tão baixa que quase não ouvi o que ele disse. Soltei um risada fraca, apertando meus lábios com força antes de me afastar e acariciar as bochechas dele. Seus olhos se abriram muito lentamente e dor crua cruzou seu rosto quando ele tentou se mexer.

—Você não pode morrer. Você não pode me deixar. —Falei, balançando a cabeça e tentando soar séria, porque queria que ele soubesse que iria me quebrar se aquilo acontecesse. Sky piscou muito lentamente. O rosto tão pálido que o sangue parecia ter sido drenado do seu corpo, assim como os lábios brancos. —Fique acordado. A ajuda já está vindo.

—Eu estou aqui. —Ele tentou balançar a cabeça, engolindo um gemido quando seu corpo inteiro pareceu tremer com uma onda de dor que o atravessou. Sky apertou minha mão de volta, mesmo que estivesse praticamente sem forças para fazer aquilo. O dragão resmungou atrás dele, envolvendo nos dois com uma daquelas asas enormes. —Eu não vou a lugar nenhum.

Me inclinei e beijei os lábios dele, soltando um suspiro pesado quando escutei vozes altas e reconheci ser dos gêmeos. Sabia que eles já estavam vindo e tudo ficaria bem. Pelo menos por enquanto as coisas poderiam se acertar. Me afastei um pouco para encarar os olhos de Sky, abrindo um sorriso pra ele, antes de o beijar mais uma vez.

[...]

Existe uma coisa boa em todos finalmente saberem a verdade sobre os anciãos. Ninguém mais os venerava como antes. Ainda existem alguns falesianos que preferem concordar com eles sobre Arcádia, mas eles são tão poucos que não exigem preocupação nenhuma. Aquela batalha tinha levado muito de nós para nos preocuparmos com opiniões assim.

Gael tinha ganhado uma bela homenagem, assim como Aurora. O Vale dos Elfos tinha ficado lotado com todos que queriam se despedir dele. Tinha ouvido a história sobre como ele bravamente lutou contra dois anciões, antes da morte o encontrar no campo de batalha. Daniel não tinha visto isso acontecer. Ele foi poupado, diferente de Sky. Mas ele sentiu quando o poder tomou conta dele, precisando lidar com a morte do pai enquanto aprendia a usar aqueles poderes no meio de uma batalha.

Amélia tinha sido enterrada perto do Chalé Azul. Não fui a o enterro dela, porque odiava a ideia de precisar me despedir dela. Tínhamos começado de uma forma muito complicada, antes de eu aprender a respeita-la e nós duas criarmos um laço. Ela também tinha lutado bravamente, mesmo que não conseguisse ver o amanhã. A parte que mais doí é saber que ela nunca vai saber o desfecho da profecia, mesmo estando envolvida nela desde o inicio.

Escorreguei de cima de Misty, observando Griffin do outro lado do descampado, deitado perto do início da floresta. A cabeça erguida, me analisando como se não soubesse bem o que esperar de mim. Raven estava parado em frente aos grandes portões de ferro do cemitério, encarando o lugar com uma expressão totalmente perdida.

Ele não se virou quando me aproximei e parei ao seu lado. Sabia que era eu, porque tínhamos combinado de nos encontrar ali uns dias antes, enquanto todos ainda se recuperavam de mais uma batalha. A última, eu esperava, porque não achava que tinha condições para mais uma. Sky ainda estava se recuperando, porque a cauda do dragão tinha dilacerado suas costas e praticamente quebrado a maioria das suas costelas. Nem toda poção de cura do mundo poderia curar aquilo rápido.

—Tudo bem? —Questionei, e ele deu de ombros como se não soubesse me responder aquela simples pergunta. —Se não quiser fazer isso, vou entender. A gente pode só ir embora.

Ele negou com a cabeça na mesma hora, antes de engolir em seco e passar por aqueles portões enferrujados. Caminhei atrás dele, ignorando o arrepio gelado que atravessou meu corpo ao ver todos aqueles túmulos. Nunca tinha gostado de cemitérios, porque odiava a ideia de visitar alguém depois que ela tinha morrido,

Raven não olhou para nenhum deles enquanto atravessava até uma lápide com o símbolo de duas espadas cruzadas. Ele parou na frente dela, apertando as mãos ao lado do corpo. Respirei fundo ao parar ao lado dele, olhando ao redor enquanto me preparava para aquilo. Quando tive coragem de encarar, meu coração se apertou ao ler as palavras marcadas na pedra.

Aquele que possuía o coração mais forte e corajoso

David Lauder

Raven hesitou por um momento, antes de se ajoelhar na grama. Umedeci os lábios com a língua, ignorando a lembrança pesada da morte de David. Ele também não tinha ficado para ver como a profecia terminaria, mas ele merecia, porque tinha me ajudado desde o inicio quando eu ainda não era nada para aquele lugar.

—Acho que pedir perdão não vai fazer muita diferença agora, né? Mas queria que soubesse que eu sinto muito. Do muito do meu coração, eu sinto muito pelo que fiz a você. —Raven afirmou, respirando fundo como se estivesse tentando controlar os próprios sentimentos. —Você merecia mais, David. E eu vou viver cada dia com o arrependimento de você não estar aqui. Espero que esteja em um lugar bom e possa me perdoar.

Me ajoelhei ao lado de Raven, tocando o ombro dele, antes de colocar o buque de flores que havia trazido em frente a lápide. Limpei a lágrima que escorreu pela minha bochecha, sentindo minha respiração falhar ao ver Raven fazer o mesmo. Ele poderia não ser inocente, mas o arrependimento era tão verdadeiro quanto a morte que enfrentamos dias atrás.

—Eu posso trazê-lo de volta. —Raven sussurrou, se virando para olhar pra mim como se esperasse que eu o ajudasse. Que eu aliviasse sua dor. —Eu posso trazer David de volta.

—Como você faria isso? —Questionei, e ele hesitou por um momento, me deixando um pouco tensa. Raven ponderou, encarando o nome de David antes de falar.

—Digamos que os elementais do fogo sagrado não tenham me emprestado o poder dele. —Raven me encarou, me observando erguer as sobrancelhas para entender onde ele queria chegar com aquilo. —Eu roubei. Posso devolver o poder em troca de David.

—Mas será que David gostaria de voltar? —Questionei, e Raven abaixou a cabeça quando não soube como me responder. —Não pode ficar preso ao passado, Raven. Você ficou preso a ele por tempo demais. Precisa superar agora. Precisa seguir em frente.

—Eu o matei, Zaia. Com posso superar isso? —Indagou, soltando uma risada amarga enquanto eu sentia minha garganta começar a se fechar. —Eu nunca vou me perdoar pelo que fiz a ele ou a qualquer outro. Nunca. Ninguém vai.

—Eu perdoo você. —Afirmei, colocando a mão sobre a dele, enquanto sentia meu peito se apertando ao vê-lo balançar a cabeça negativamente. —E David também perdoaria. Porque ele acreditava em você. Ele sabia que independente de tudo, você queria o bem. Você se arrependeu e é isso que importa. Então eu te perdoou.

Raven me encarou por um momento longo demais, como se não conseguisse acreditar em mim. Abri um sorriso fraco, antes de me inclinar e o abraçar apertado. Sabia que ainda havia um longo caminho pela frente para Raven. Mas ele estava no caminho certo e eu tinha a sensação que em algum momento ele se encontraria.


Continua...

As Crônicas de Scott: A Guerra / Vol. 2 Onde histórias criam vida. Descubra agora