As ruas escuras e silenciosas da madrugada pareciam fazer companhia a Juliana enquanto ela caminhava com passos lentos, guiados mais pelo instinto do que pela intenção. Suas mãos deslizaram para dentro dos bolsos do casaco, encontrando o metal frio da chave que, curiosamente, já não parecia tão gelado.
Ao tatear sua superfície, os dedos de Juliana encontraram uma pequena aspereza – uma gota seca de tinta que há muito permanecia ali, imóvel no tempo. O toque desencadeou algo em sua mente. As memórias, antes contidas e guardadas em algum canto profundo, emergiram com uma intensidade quase dolorosa, como um raio cortando o céu de uma noite clara.
– Você está vendo isso, Ju? – A voz de Camila surgiu nítida em sua lembrança, carregada de emoção. – Nós conseguimos. Está pronto! – disse ela, com os olhos brilhando enquanto colocava as chaves nas mãos de Juliana e a encarava com aquele olhar tão único.
Juliana respondeu com um sorriso radiante, a felicidade estampada no rosto. – Conseguimos!
Camila a olhava com uma intensidade que dispensava palavras. Era um olhar cheio de gratidão e amor, capaz de preencher qualquer vazio. Sem hesitar, ela se jogou nos braços de Juliana, apertando-a com força, enquanto sussurrava um suave "obrigada" em seu ouvido.
Naquele momento, o mundo parecia ter parado. A conexão entre as duas ia além do físico. Não era apenas sobre compartilhar um teto ou uma cama. Era a forma como dividiam os sentimentos, as ambições e os sonhos. Era como se duas metades de uma mesma alma tivessem encontrado seus lugares.
Juliana segurou o rosto de Camila com delicadeza, aproximando-o do seu. Por alguns instantes, ficou apenas observando-a, como se quisesse guardar cada detalhe para sempre. Então, Camila, com sua energia leve e brincalhona, começou a cobrir Juliana de pequenos beijos apressados – nas bochechas, no pescoço, nas mãos.
Juliana tentou resistir, mas as cócegas vieram, inevitáveis. O riso explodiu. Sua gargalhada preencheu o ambiente, contagiando Camila, que continuava distribuindo beijos entre abraços apertados.
Entre risos, as duas acabaram tropeçando e esbarrando em um expositor de tintas. As chaves que Juliana segurava escorregaram de sua mão e caíram direto em uma pequena poça de tinta amarela.
Ainda no chão, ambas riam sem conseguir parar. Aquele espaço – a galeria – era mais do que um lugar físico. Era a concretização de um sonho compartilhado.
– Olha o que você fez, Camis! – Juliana disse, fingindo indignação. – Derrubamos tudo e o pior, é AMARELO.
– Como você pode falar isso? – Camila respondeu, fazendo um beicinho dramático. – É minha cor favorita!
– Eu sei disso – retrucou Juliana, com um sorriso travesso enquanto se sentava ao chão. – Mas não a torna mais bonita.
– Você não entende nada de arte. O amarelo é uma cor incrível! – Camila provocou, enquanto tentava, sem sucesso, limpar a poeira de suas roupas.
– Ah, é? Quer uma explicação para isso? – Juliana perguntou, ainda com os olhos fixos nela. Para Juliana, não havia pintura ou obra de arte que se comparasse à beleza de Camila.
– Quero sim! Explique, dona especialista! – Camila respondeu, com um sorriso provocador.
Juliana levantou-se e estendeu a mão. – Então vem comigo. Vou te mostrar qual é a minha cor favorita.
Camila aceitou o convite, segurando a mão de Juliana enquanto ambas caminhavam juntas pela galeria, deixando para trás a tinta espalhada e os risos ainda ecoando no ar.
De volta à madrugada presente, Juliana sentiu o calor daquela lembrança aquecendo seu peito. O peso das memórias era esmagador, mas também doce. A chave agora parecia mais leve em suas mãos, mas o destino para onde ela a levaria continuava incerto. Mesmo assim, Juliana seguiu caminhando, deixando as ruas vazias testemunharem sua jornada.
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Blue | ⚢
RomanceJuliana vive mergulhada em uma solidão que já parece parte de sua própria identidade. Desde a perda devastadora de seu grande amor, ela se isolou, convencida de que a dor é mais segura do que arriscar sentir novamente. As tentativas de suas melhores...
