O grito saiu de sua garganta antes que ela pudesse processar.
— Ali! Eu a vi! Depressa!
A imagem de Juliana desaparecendo entre as ondas geladas cravou-se como uma facada no peito de Sofia. A cena era irreal, uma mistura de horror e impotência que fez suas pernas falharem. Ela correu, ignorando a dor nos pés descalços, o coração disparado, os olhos fixos no ponto onde Juliana havia afundado.
A água parecia engolir tudo. As ondas batiam com força, quase zombando da pressa de Sofia e dos dois homens que corriam para ajudá-la. Quando a viram, boiando como uma boneca quebrada, Sofia gritou novamente, um som primal que arrancou as últimas forças de seus pulmões.
Eles a puxaram, cada movimento parecendo uma eternidade. Juliana estava gelada, a pele pálida como porcelana. Sofia ajoelhou-se na areia ao lado dela, os olhos arregalados, a respiração presa.
— Juliana! — gritou, sacudindo-a. — Por favor, acorda! Não faz isso comigo! Você também não, por favor!
Ela nem percebeu que suas próprias lágrimas escorriam livremente, misturando-se ao sal do mar.
Os socorristas chegaram, tirando-a do transe enquanto começavam a reanimar Juliana. O peito de Sofia subia e descia descontroladamente. Cada segundo parecia uma tortura. O silêncio no rosto de Juliana era uma punição que Sofia sabia que merecia.
Ela apertou as mãos contra o peito, tentando sufocar a dor que explodia dentro dela. Era uma mistura de medo pelo estado de Juliana e um desespero mais profundo, algo que vinha das memórias que tentava enterrar há tanto tempo.
Depois que a ambulância partiu, Sofia ficou sozinha na praia, encarando o rastro das rodas na areia. Ela não teve coragem de entrar na ambulância. Não sabia o que diria a Juliana se ela acordasse.
"Camila me contou algo antes de morrer."
As palavras nunca deixavam sua mente. Camila havia procurado Sofia semanas antes de tirar a própria vida. Ela estava pálida, agitada, como alguém prestes a confessar um crime. E, de certa forma, era exatamente isso.
Camila havia cometido um erro. Um erro que a consumia. Sofia nunca soube os detalhes completos — Camila era vaga, enrolada em meias-verdades e arrependimentos fragmentados. Mas uma coisa ficou clara: o peso era grande demais para ela suportar. Camila pediu a Sofia que cuidasse de Juliana se algo acontecesse. Que a protegesse.
Sofia tentou. Tentou de verdade. Mas a dor de Juliana era um espelho da sua própria, e ela nunca conseguiu reunir forças para dizer tudo. Como poderia? Como dizer à mulher que estava desmoronando diante dela que a pessoa que ela mais amava carregava um segredo tão devastador?
Sofia andava pela praia agora, as ondas tocando seus tornozelos, trazendo um frio que a ajudava a pensar. Cada passo parecia uma luta. Ela revivia o momento em que puxaram Juliana da água, o peso morto do corpo dela, e sentia o mesmo desespero de quando encontrou Camila naquele dia.
Dessa vez, prometeu a si mesma, não haveria segredos. Se Juliana acordasse — e Sofia rezava com todas as forças para que acordasse —, ela contaria tudo. Ela merecia saber. Merecia respostas, mesmo que doesse.
O vento uivou, como se respondesse às suas promessas silenciosas. Sofia olhou para o céu, tingido de laranja pelo pôr do sol.
"Por favor, Camila. Me dá força para consertar isso."
O destino tinha tirado Camila, mas Sofia não permitiria que levasse Juliana também.
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Blue | ⚢
Roman d'amourJuliana vive mergulhada em uma solidão que já parece parte de sua própria identidade. Desde a perda devastadora de seu grande amor, ela se isolou, convencida de que a dor é mais segura do que arriscar sentir novamente. As tentativas de suas melhores...
